Ciência

Wegovy e perda de visão: estudo alerta para risco de efeito colateral raro

Análise de dados da FDA associou o uso de Wegovy a um risco raro de neuropatia óptica; sinal foi mais forte no Wegovy do que no Ozempic

 ( anilorac/Freepik)

( anilorac/Freepik)

Publicado em 23 de maio de 2026 às 11h03.

O Wegovy, medicamento à base de semaglutida usado para perda de peso, pode estar associado a um risco maior de uma condição rara nos olhos capaz de causar perda súbita de visão, segundo um novo estudo publicado no British Journal of Ophthalmology.

A condição é chamada de neuropatia óptica isquêmica. Ela ocorre quando o fluxo de sangue para o nervo óptico é reduzido ou bloqueado, o que pode provocar cegueira parcial ou total em um ou nos dois olhos.

Os pesquisadores analisaram relatos enviados ao sistema de eventos adversos da FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, entre dezembro de 2017 e dezembro de 2024.

Ao todo, foram avaliados mais de 30,6 milhões de relatos de eventos adversos. Desse total, 31.774 envolviam medicamentos à base de semaglutida. A idade média dos pacientes nos relatos era de 56 anos, e 54% eram mulheres.

Wegovy teve sinal mais forte

A análise incluiu medicamentos GLP-1 como Ozempic, usado no tratamento de diabetes tipo 2, Wegovy, indicado para obesidade, e Rybelsus, versão oral da semaglutida. Também foram avaliados medicamentos com tirzepatida, como Mounjaro e Zepbound.

Embora o Ozempic tenha concentrado mais notificações no geral, por ter sido aprovado antes, o Wegovy apresentou a associação estatística mais forte com a neuropatia óptica isquêmica.

Os pesquisadores identificaram 28 relatos da condição ligados ao Wegovy e 47 ao Ozempic. Mesmo com menos notificações, o sinal estatístico do Wegovy foi mais intenso: as chances apareceram quase 75 vezes acima do esperado, contra quase 19 vezes no caso do Ozempic.

Produtos genéricos de semaglutida apresentaram chances 21 vezes acima do esperado. Não foram relatados casos associados ao Rybelsus, a versão oral da semaglutida.

Diferença entre homens e mulheres

O estudo também apontou diferença entre os sexos. Homens que usavam Wegovy apresentaram o sinal mais alto da análise, com chances 116 vezes acima do esperado.

Entre mulheres, o sinal mais forte apareceu com Ozempic. Em uma análise adicional, as chances da condição foram mais de três vezes maiores em homens do que em mulheres.

Por que Wegovy pode ser diferente

Os pesquisadores levantaram algumas hipóteses para explicar o sinal mais forte do Wegovy.

Medicamentos injetáveis tendem a agir mais rápido do que versões orais, e o Wegovy é prescrito em dose mais alta do que o Ozempic.

Segundo os autores, doses elevadas podem aumentar o risco de redução do fluxo sanguíneo para o nervo óptico por mecanismos ligados a quedas de pressão arterial, perda de líquidos e instabilidade no sistema nervoso autônomo.

Os pesquisadores, no entanto, afirmaram que o estudo não comprova uma relação direta de causa e efeito.

“Em contraste, a absorção limitada e mais lenta do Rybelsus provavelmente explica a ausência de um sinal detectável”, escreveram os autores.

Limitações do estudo

O sistema de eventos adversos da FDA tem limitações. Ele não permite determinar com que frequência a condição realmente ocorre e não traz detalhes completos sobre o estado de saúde dos pacientes ou a gravidade de outras doenças.

Os autores também destacaram que a atenção da mídia sobre o Wegovy pode ter aumentado o número de notificações, o que pode influenciar os resultados.

Mesmo assim, eles afirmaram que os dados levantam uma possível preocupação de segurança ligada à formulação e à dose da semaglutida.

“Este estudo fornece a primeira evidência de um risco de neuropatia óptica isquêmica dependente da formulação e da dose, com a associação mais forte observada para Wegovy”, concluíram os pesquisadores.

Segundo os autores, os achados exigem avaliação prospectiva urgente para orientar prescrições e decisões regulatórias.

Uso crescente dos GLP-1

A preocupação aparece em um momento de expansão no uso dos medicamentos GLP-1 para obesidade e diabetes.

Os pesquisadores citaram que, no Reino Unido, 29% dos adultos têm obesidade e 64% estão com sobrepeso ou obesidade.

Esses medicamentos também têm sido estudados para benefícios além da perda de peso e do controle do diabetes, incluindo possíveis efeitos sobre risco cardiovascular, AVC e demência.

Autores de um comentário relacionado ao estudo afirmaram que os achados merecem atenção de oftalmologistas e pesquisadores.

Ao mesmo tempo, eles observaram que medicamentos GLP-1 também podem ter benefícios em algumas doenças oculares, como degeneração macular relacionada à idade e uveíte.

A recomendação final é de cautela: os possíveis benefícios desses remédios precisam ser avaliados junto ao risco, ainda raro, de complicações graves como a neuropatia óptica isquêmica.

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