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Calor extremo já é rotina no Brasil, e a tendência de Super El Niño em 2026 pode intensificar ainda mais as temperaturas (Tânia Rêgo/Agência Brasil)
Repórter de ESG
Publicado em 12 de julho de 2026 às 16h00.
Última atualização em 12 de julho de 2026 às 20h02.
Em fevereiro deste ano, mais de 500 municípios brasileiros entraram em alerta quando uma onda de calor empurrou os termômetros do Sul para perto de 42°C.
Meses antes, São Paulo já tinha quebrado um recorde de 64 anos ao registrar 37,2°C, e o Rio de Janeiro chegou a 44°C em um único dia de verão. Segundo relatório da ONU, o país acumulou sete ondas de calor ao longo de 2025.
Em 2026, o cenário agravado pelas mudanças climáticas virou rotina para os brasileiros e ainda vem com uma preocupação extra: a tendência de um Super El Niño que poderia aumentar ainda mais as temperaturas.
E ao que tudo indica, as perspectivas para os próximos anos também não são boas.
É o que revela uma projeção inédita da i4sea, empresa de inteligência climática: o número de dias de calor extremo no Brasil deve saltar de 6 para 127 por ano até 2075, o equivalente a um terço do calendário anual sob a condição.
O levantamento analisou 26 modelos climáticos globais, entre eles o MPI-ESM1-2-HR do Instituto Max Planck de Meteorologia, ao território nacional. O cenário utilizado é o intermediário do painel científico IPCC, com mitigação moderada das emissões e ainda considerado "conservador" perto de outros.
Mesmo assim, a temperatura máxima média do país deve subir 1,7°C, com picos de até 7°C em algumas regiões.
O Norte concentra a maior exposição: aumento médio de 2,8°C e 193 dias de calor extremo por ano até 2075.
Rondônia lidera o ranking estadual, com alta projetada de 3,95°C, seguido por Acre (3,36°C) e Roraima (3,16°C). Em Roraima, a projeção chega a 250 dias de calor extremo por ano.
O estudo também mede as noites tropicais, aquelas em que a temperatura não cai abaixo de 20°C e o corpo não tem descanso térmico. No Brasil, a estimativa é de um salto de 13 para 190 noites por ano até 2075. Em Roraima, podem chegar a 337; no Amazonas, a 299.
O fenômeno não é exclusividade brasileira. A Europa enfrenta a onda de calor mais severa já registrada no continente, com milhares de mortes contabilizadas pela Organização Mundial da Saúde desde 21 de junho e recordes de temperatura em países como Alemanha, França, Espanha e Reino Unido.
Uma análise da World Weather Attribution concluiu que um calor daquela intensidade em junho seria "praticamente impossível" sem as mudanças climáticas.
++ Junho foi o mês mais quente da história do planeta
Segundo especialistas, as noites mais quentes já tem impactos claros na saúde pública. Em dezembro de 2025, São Paulo registrou aumento de 27% nos atendimentos por insolação e calor durante uma sequência de recordes de temperatura, de acordo com dados citados pela imprensa.
É um recorte pequeno perto do que o estudo projeta para as próximas décadas, mas mostra o tipo de pressão que o calor persistente já exerce sobre hospitais e serviços de saúde.
O calor extremo projetado também tensiona a rede elétrica. O Sistema Interligado Nacional bateu recorde de demanda instantânea durante as ondas de calor de 2023 e 2024, atingindo 102.478 MW em 15 de março de 2024, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico.
Em centros urbanos, esse padrão se soma ao efeito de ilha de calor, quando áreas construídas retêm mais calor do que regiões vegetadas no entorno.
Para trabalhadores de setores como construção, logística, agricultura e operações portuárias, a exposição prolongada ao calor é um risco ocupacional que tende a crescer.
A Organização Mundial da Saúde estima cerca de 489 mil mortes anuais associadas ao calor no mundo entre 2000 e 2019, número que vem sendo revisado para cima em relatórios recentes.