Repórter
Publicado em 11 de julho de 2026 às 09h40.
Ver o céu tomado por nuvens de poeira faz parte da rotina em algumas regiões próximas a desertos. Na China, esse problema motivou um dos maiores projetos de recuperação ambiental já realizados. A iniciativa deu origem à maior floresta artificial do mundo, criada para conter o avanço da desertificação e reduzir os impactos das tempestades de areia.
A origem do projeto remonta a 1962, quando o governo chinês decidiu agir para impedir que o deserto de Gobi continuasse avançando em direção a Pequim. A área escolhida foi Saihanba, localizada a aproximadamente 180 quilômetros da capital. Na época, o terreno estava degradado, sem cobertura vegetal e sob risco de se transformar em uma extensão das dunas do deserto, o que facilitava o transporte de poeira para áreas habitadas.
Os primeiros responsáveis pela recuperação da região foram 369 jovens profissionais, enviados para iniciar o reflorestamento. Enfrentando temperaturas inferiores a 40 graus negativos e condições climáticas severas, eles começaram o plantio de pinheiros, dando início ao que mais tarde se tornaria a maior floresta artificial do planeta.
Os primeiros anos do projeto foram marcados por obstáculos. Grande parte das mudas não resistia ao inverno rigoroso, fazendo com que a taxa de sobrevivência inicial permanecesse em torno de apenas 8%. Para tentar reverter esse cenário, técnicos acompanhavam constantemente as condições do solo e buscavam compreender as causas das perdas.
Com o tempo, os métodos de plantio passaram por adaptações. Novas sementes, mais adequadas ao clima da região, foram incorporadas ao projeto, enquanto diferentes gerações de trabalhadores deram continuidade ao reflorestamento. Décadas depois, a área recuperada alcançou cerca de 93 mil hectares, substituindo um cenário árido por uma extensa cobertura vegetal.
A expansão da vegetação também provocou alterações ambientais na província de Hebei. A presença das árvores contribuiu para melhorar a qualidade do ar, aumentar a umidade e favorecer condições mais adequadas para a ocorrência de chuvas. O solo recuperou parte de sua fertilidade com o acúmulo de matéria orgânica, enquanto cursos d'água que haviam desaparecido voltaram a apresentar fluxo.
Em 1978, a China ampliou sua estratégia de combate à desertificação com a criação da chamada Grande Muralha Verde. O programa já resultou no plantio de aproximadamente 66 bilhões de árvores, com a finalidade de conter o avanço dos desertos de Gobi e Taclamacã sobre as pradarias do norte do país. Antes da iniciativa, o deserto de Gobi avançava mais de 2.600 quilômetros quadrados por ano.
Segundo o site Live Science, o planejamento do governo chinês prevê o plantio de outros 34 bilhões de árvores até meados deste século, ampliando ainda mais a cobertura vegetal iniciada nas décadas anteriores.
Embora o projeto tenha sido concebido para enfrentar a desertificação, seus efeitos ultrapassaram esse objetivo inicial. Conforme dados publicados pela revista Nature, a cobertura florestal nas áreas afetadas passou de 5%, em 1978, para 14%, em 2023. Como consequência, houve redução das tempestades de poeira e melhora na qualidade do ar em importantes centros urbanos.
Uma pesquisa publicada na revista Geophysical Research Letters identificou que florestas plantadas respondem de maneira diferente ao aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera quando comparadas às florestas naturais. Segundo o estudo, esse tipo de vegetação apresenta um crescimento mais acelerado da cobertura foliar, embora os mecanismos responsáveis por esse comportamento ainda não estejam completamente esclarecidos.
A pesquisa foi conduzida por uma equipe liderada por Yuhang Luo, especialista em ecologia da paisagem da Universidade de Pequim em Shenzhen. Os pesquisadores utilizaram observações de satélite para analisar o índice de área foliar, indicador relacionado à densidade da vegetação e à capacidade das florestas de absorver carbono.
Os dados mostraram que esse índice cresceu 66% mais rapidamente nas áreas reflorestadas do que nas florestas naturais.
Os pesquisadores atribuem parte desse resultado ao fato de muitas florestas plantadas serem mais jovens e estarem na fase de crescimento mais intenso. Ainda assim, a idade não explica sozinha o desempenho observado. Mesmo em comparações com florestas naturais de características semelhantes, as áreas reflorestadas registraram crescimento 4,6% superior.
Outro fator considerado relevante é o manejo adotado nessas plantações. Espécies de crescimento rápido, como eucaliptos e álamos, costumam receber práticas de manejo mais intensivas, favorecendo o aproveitamento de água, nutrientes e luz, além de ampliar a resposta ao aumento da concentração de dióxido de carbono.
O estudo também indica que essa vantagem tende a diminuir com o passar do tempo. O crescimento mais intenso ocorre quando as árvores têm entre 30 e 40 anos. Após esse período, o ritmo de desenvolvimento passa a desacelerar.
As florestas naturais, por outro lado, apresentam crescimento menos intenso, porém contínuo, característica que favorece o armazenamento de carbono e aumenta a resiliência dos ecossistemas ao longo do tempo.
Segundo Luo, muitos modelos climáticos ainda não distinguem adequadamente florestas naturais de áreas reflorestadas, nem consideram fatores como idade e histórico de manejo, o que pode comprometer estimativas sobre a capacidade de captura de carbono.
"As florestas plantadas podem ser uma ferramenta muito eficaz de curto prazo para a captura de carbono, mas essa vantagem é temporária. Para o armazenamento de carbono e a resiliência de longo prazo, as florestas naturais continuam sendo insubstituíveis", afirmou Luo à Live Science.