Ciência

Como a China se tornou uma potência científica — e desafia a liderança dos EUA

País ampliou investimentos em pesquisa, assumiu a liderança em publicações científicas e avança em áreas como inteligência artificial, espaço e tecnologia quântica

China: país amplia investimentos em ciência e avança na disputa pela liderança mundial em pesquisa (Freepik)

China: país amplia investimentos em ciência e avança na disputa pela liderança mundial em pesquisa (Freepik)

Publicado em 15 de outubro de 2026 às 17h39.

Priorizar nos meus resultados Google
Tudo sobreChina
Saiba mais

A China passou de uma participação quase inexistente na produção científica internacional para uma das principais potências mundiais em ciência e tecnologia em menos de cinco décadas. O avanço foi impulsionado por investimentos contínuos em pesquisa, expansão das universidades e políticas voltadas ao desenvolvimento de tecnologias estratégicas.

Em 1978, pesquisadores chineses publicaram menos de 120 artigos em periódicos internacionais, equivalentes a apenas 0,02% da produção mundial, segundo dados da base Scopus, da Elsevier.

Atualmente, o país lidera indicadores de produção científica, concentra investimentos em áreas como inteligência artificial (IA), semicondutores e exploração espacial e disputa com os Estados Unidos a liderança global em pesquisa e desenvolvimento.

Uma análise publicada na revista científica Nature mostra que o crescimento chinês resulta de uma estratégia de longo prazo, embora o país ainda enfrente desafios relacionados à integridade científica, à pesquisa básica e às tensões internacionais.

Os investimentos da China em ciência

O investimento chinês em pesquisa e desenvolvimento (P&D) aumentou aproximadamente 100 vezes nas últimas três décadas. Nos últimos dez anos, os gastos cresceram, em média, mais de 10% ao ano, segundo estatísticas oficiais citadas pela Nature.

Em 2024, a China ultrapassou os Estados Unidos em gastos internos brutos com P&D quando os valores foram ajustados pela paridade do poder de compra, metodologia que considera diferenças de preços entre os países.

Entretanto, a comparação muda quando os investimentos são convertidos pelas taxas de câmbio. Nesse cálculo, os gastos chineses representaram aproximadamente metade dos americanos em 2024, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A meta atual do governo chinês é elevar o investimento total em P&D em pelo menos 7% ao ano até 2030, incluindo recursos públicos e privados.

Inteligência artificial e chips impulsionam avanço

A expansão científica chinesa também está ligada ao fortalecimento de empresas de tecnologia. Em 2025, a DeepSeek, companhia de inteligência artificial sediada em Hangzhou, ganhou projeção internacional ao apresentar um modelo de linguagem competitivo com sistemas desenvolvidos por grandes empresas americanas.

O episódio reforçou a posição da China na disputa pelo desenvolvimento de inteligência artificial.

Outro setor estratégico é o de semicondutores, componentes essenciais para computadores, celulares e sistemas de IA. Em 2014, o governo chinês criou um fundo estatal para desenvolver a indústria nacional de chips, com financiamento inicial de aproximadamente 100 bilhões de yuans.

Uma terceira rodada, lançada em 2024, prevê investimentos de 344 bilhões de yuans, equivalentes a cerca de US$ 50 bilhões. A iniciativa ganhou importância após os Estados Unidos ampliarem, em 2022, as restrições à exportação de semicondutores avançados para a China.

China também avança na exploração espacial

A exploração espacial tornou-se outra prioridade científica do país. Em 2022, a China concluiu a construção da estação espacial Tiangong, desenvolvida para permitir pesquisas de longa duração fora da Terra. O programa espacial chinês também alcançou resultados inéditos na exploração lunar.

O país foi o primeiro a pousar uma sonda no lado oculto da Lua e, posteriormente, conseguiu trazer amostras dessa região para análise na Terra. Entre os próximos objetivos estão levar astronautas à superfície lunar até 2030 e realizar uma missão de coleta de amostras de Marte.

O planejamento prevê o lançamento da missão marciana em 2028, com retorno das amostras em 2031.

China supera EUA em publicações científicas

O crescimento também aparece nos indicadores acadêmicos. Segundo o Nature Index, a China ultrapassou os Estados Unidos em 2023 na produção de artigos publicados nos periódicos científicos acompanhados pelo ranking. O levantamento monitora 178 revistas de diferentes áreas do conhecimento.

Apesar do volume de publicações, especialistas destacados pela Nature ressaltam que a quantidade de artigos não representa, necessariamente, maior capacidade de produzir descobertas originais.

Um dos desafios está no sistema de avaliação acadêmica, que ainda utiliza o número de publicações e a obtenção de financiamento como critérios importantes para a progressão profissional. Essa pressão também é apontada como um dos fatores associados a problemas de integridade científica.

Ainda de acordo com a Nature, uma investigação da revista identificou que, entre 2014 e 2024, quase 60% dos artigos científicos retratados tinham pelo menos um autor vinculado a instituições chinesas. O governo do país vem adotando medidas para combater irregularidades e reformar os critérios de avaliação dos pesquisadores.

Por que cientistas estão voltando à China?

A expansão dos investimentos também contribuiu para atrair pesquisadores formados no exterior. Um estudo publicado em 2023 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences identificou que aproximadamente 5.600 cientistas deixaram os Estados Unidos e retornaram à China entre 2018 e 2021. Entre 2000 e 2017, o total havia sido de cerca de 6.860 pesquisadores.

A mudança está relacionada à ampliação das oportunidades profissionais na China e às dificuldades enfrentadas por cientistas chineses nos Estados Unidos. O país também investe na atração de estudantes internacionais.

No ano acadêmico de 2024 a 2025, aproximadamente 380 mil estudantes estrangeiros estavam matriculados em instituições chinesas, segundo dados do Ministério da Educação.

Quais são os desafios da China?

Apesar dos avanços, a China ainda enfrenta obstáculos para transformar o crescimento científico em descobertas originais. Um deles é a participação relativamente pequena da pesquisa básica no orçamento total de P&D.

Em 2024, essa modalidade recebeu menos de 7% dos recursos chineses destinados à pesquisa e desenvolvimento, enquanto nos Estados Unidos a proporção foi de 14,4%. A pesquisa básica busca ampliar o conhecimento científico, mesmo quando não existe uma aplicação comercial imediata.

Para reduzir essa diferença, o governo chinês anunciou medidas de apoio a pesquisadores em início de carreira. A Fundação Nacional de Ciências Naturais da China pretende financiar 12 mil projetos adicionais, ampliando as oportunidades para jovens cientistas. O objetivo é fortalecer a capacidade de produzir conhecimento original e reduzir a dependência de tecnologias estrangeiras.

Dessa forma, o avanço chinês, porém, também dependerá da capacidade de enfrentar problemas de integridade acadêmica, pressões econômicas e tensões geopolíticas que podem afetar a colaboração internacional.

Acompanhe tudo sobre:Pesquisas científicasChinaEstados Unidos (EUA)

Mais de Ciência

Fim da escala 6×1: 67% dos trabalhadores relatam piora na saúde mental

Garrafa encontrada no deserto do Egito guardava um bilhete de 1977 — e pistas sobre quem o escreveu

O que a fama de ‘caneta emagrecedora’ deixa de fora sobre a semaglutida?

Muito além do emagrecimento: efeito das canetas emagrecedoras no coração surpreende cientistas