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Se a China entrega o futuro, por que continua conhecida pelo passado?

O país se transformou muito mais rápido do que a imagem que o mundo ainda carrega dele; o desafio, agora, é atualizar sua reputação

China: apesar de tecnológico e inovador, o país ainda precisa atualizar sua reputação  (Magnific)

China: apesar de tecnológico e inovador, o país ainda precisa atualizar sua reputação (Magnific)

Marc Tawil
Marc Tawil

Estrategista de Comunicação

Publicado em 1 de setembro de 2026 às 14h00.

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Completei 48 horas em Pequim e finalmente entendi por que os chineses fotografam do prato ao ônibus de turismo quando passeiam por Paris, Nova York ou Salvador.

Quando chegamos a um mundo que ainda não sabemos decifrar, até a banalidade do cotidiano vira acontecimento.

Aqui na China, o estrangeiro sou eu.

Fotografo ruas, prédios, placas, comidas, embalagens e, claro, o ônibus que me leva a atrações turísticas e às empresas do meu Learning Tour.

Tudo me chama a atenção: a limpeza por onde passamos, a organização, a logística, o silêncio produzido por tantos carros elétricos e a gentileza das pessoas, mesmo quando o idioma nos separa. Pouquíssimos chineses com quem cruzei falavam inglês. Ainda assim, quase todos encontraram uma maneira de ajudar.

Cheguei à Ásia carregando uma China que povoava meu imaginário desde menino: ruas coalhadas de bicicletas, pouca cor, rostos fechados e uma população ainda predominantemente rural.

Era uma fotografia antiga, congelada dentro de mim.

Como acontece com qualquer preconceito, havia naquela bagagem fatos, versões, simplificações, imagens desatualizadas e vieses que eu nem conhecia.

Foi então que a experiência começou a desobedecer à reputação.

Números mudam a fotografia

Pequim é uma surra de escala e de atualização. Sua rede de metrô chegou a 909 quilômetros. Depois de décadas associada à poluição, a capital encerrou 2025 com 311 dias de ar considerado bom ou moderado.

A cidade investe mais de 6% de seu PIB em pesquisa e desenvolvimento e abriga 78 dos 376 unicórnios chineses. Das 50 empresas de Inteligência Artificial mais importantes do país no ranking Hurun, 19 estão aqui.

Na semana anterior à minha chegada, Pequim recebeu mais de 2 mil robôs humanoides, de 16 países, para uma espécie de “Olimpíada dos robôs”. Máquinas correram, jogaram futebol e enfrentaram provas que, até pouco tempo atrás, pertenceriam à ficção científica.

Em toda a China, 1,125 bilhão de pessoas estão conectadas à Internet. Mais de 600 milhões já utilizam IA generativa. De outro lado, 23% da população tem 60 anos ou mais.

Tecnologia, trabalho, demografia e poder estão mudando juntos e isso passa longe de ser uma curiosidade distante para nós. Brasil e China movimentaram US$ 171 bilhões em 2025, recorde histórico e mais que o dobro da corrente comercial brasileira com os Estados Unidos.

Foi para compreender como a China encarará esse desafio de marketing que viajei cerca de 30 horas até aqui.Ao lado de aproximadamente 40 exploradores, participarei de mais de 15 visitas e experiências.

Entraremos em laboratórios e empresas, conversaremos com pesquisadores, estudantes e empreendedores. Queremos olhar além das vitrines tecnológicas e entender a cultura, as decisões e os sistemas que tornam possível essa transformação.

Ainda é cedo para concluir o que encontrarei ao final da imersão. Mas já não é cedo para desconfiar da imagem que trouxe.

É aqui que a China encontra o marketing.

Estamos acostumados a discutir o que acontece quando a publicidade promete mais do que o produto oferece. A experiência decepciona, a confiança diminui e a marca paga a conta.

E há um problema inverso, menos discutido: quando a entrega evolui e a reputação permanece parada.
A empresa muda. O serviço melhora. A cultura amadurece. A experiência avança. Mesmo assim, o mercado continua enxergando aquela organização por meio de uma versão antiga.

Essa é a defasagem reputacional: a realidade foi atualizada, contudo, a percepção pública continua operando com o sistema anterior.

Parte da China parece enfrentar exatamente esse desafio. O país que começou a aparecer diante de mim mudou mais depressa do que muitas das fotografias mentais que ainda circulam no Ocidente.

A China entregou tecnologia, infraestrutura, escala e novos modelos de negócio. Sua reputação, porém, ainda carrega marcas do país pobre, rural, poluído, imitador e fabricante de produtos baratos que dominou o imaginário ocidental durante décadas.

Isso também acontece com empresas, setores e pessoas.

Organizações se transformam, mas continuam associadas aos erros do passado. Setores inovam sem conseguir atualizar sua imagem. Profissionais desenvolvem novas capacidades e permanecem aprisionados ao cargo, à fama ou à identidade que construíram anos atrás.

Reputação é uma fotografia com poder de decisão.

Ainda tenho muitos dias, perguntas e contradições pela frente. E, com certeza, a China que levarei de volta certamente será mais complexa do que aquela que trouxe na mala.

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