Inteligência Artificial

Patrocinado por:

logo-totvs-preto

Por que a falta de chips de memória favorece as fabricantes da China?

Demanda por servidores reduz a oferta para eletrônicos, favorece empresas como a CXMT e impulsiona o valor das exportações de chips da China

 (Narumon Bowonkitwanchai/Getty Images)

(Narumon Bowonkitwanchai/Getty Images)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 14 de outubro de 2026 às 11h01.

Priorizar nos meus resultados Google
RESUMO +

A expansão da inteligência artificial pressiona a oferta de chips de memória e favorece fabricantes chinesas. A CXMT registrou alta de receita no primeiro semestre, enquanto o valor das exportações chinesas de circuitos integrados quase dobrou. O encarecimento também atinge empresas de eletrônicos da própria China.

A corrida para construir a infraestrutura da inteligência artificial (IA) está abrindo espaço para fabricantes chineses de chips ganharem dinheiro com a falta de memória. Enquanto fornecedores priorizam componentes para servidores, a oferta destinada a computadores e celulares fica pressionada — e empresas da China encontram compradores dispostos a pagar mais.

O avanço aparece nos resultados da ChangXin Memory Technologies (CXMT), fabricante de memória dinâmica de acesso aleatório, conhecida pela sigla DRAM. A companhia teve receita de 150,31 bilhões de yuans no primeiro semestre de 2026, alta de 873,64% sobre o mesmo período de 2025, segundo levantamento da consultoria chinesa Jiwei publicado pelo ijiwei.

A pesquisa atribui o resultado à combinação de oferta global restrita, preços em alta e utilização elevada das fábricas. A empresa produz componentes usados em celulares, computadores e servidores e ganhou projeção com sua estreia na Bolsa de Xangai, em julho.

Por que a IA encarece a memória?

A disputa por capacidade de produção ajuda a explicar o movimento. Segundo a consultoria TrendForce, os fornecedores continuam a dar prioridade a produtos de alto desempenho para servidores, que oferecem maior rentabilidade, e deixam a oferta de memória para outras aplicações mais apertada.

Em relatório divulgado em 30 de setembro, a consultoria projetou aumento de 10% a 15% nos preços contratuais da DRAM convencional no quarto trimestre, em relação aos três meses anteriores. Para a memória NAND Flash, usada no armazenamento de dados, a previsão é de alta de 15% a 20%.

O benefício para a indústria chinesa também vem dos componentes usados fora dos grandes centros de dados. A TrendForce já havia identificado que a mudança de produção entre fornecedores sul-coreanos e americanos, somada aos subsídios chineses, favorecia a expansão da CXMT no mercado de memória para celulares.

A escassez ampliou o interesse por fornecedores alternativos. Em fevereiro, fabricantes de computadores, como HP e Dell, avaliavam memórias da CXMT diante das dificuldades de abastecimento.

Mais receita nas fábricas e nas exportações

O movimento vai além de uma empresa. O levantamento da Jiwei apontou crescimento de 607,2% no lucro líquido atribuível aos acionistas de 186 companhias de semicondutores listadas no mercado de ações da China continental no primeiro semestre.

As empresas ligadas à memória responderam pela maior contribuição ao aumento dos lucros. O grupo inclui fabricantes de componentes, fornecedores de módulos e distribuidores, que participam de diferentes etapas até o produto chegar ao cliente.

No comércio exterior, a China exportou US$ 177,28 bilhões em circuitos integrados entre janeiro e junho, alta de mais de 96% em relação ao primeiro semestre de 2025. Os números são da Administração Geral das Alfândegas chinesa e foram publicados pelo South China Morning Post.

O indicador mede o valor das vendas externas de circuitos integrados, uma categoria mais ampla que a de memórias. Não representa arrecadação do governo nem permite atribuir todo o crescimento à IA ou ao aumento dos preços.

O fortalecimento das fabricantes também está ligado à política industrial de Pequim. Segundo reportagem da Reuters publicada em julho, tanto a CXMT quanto a Yangtze Memory Technologies (YMTC), fabricante de memória NAND, receberam apoio do fundo estatal chinês de semicondutores e de governos locais.

A conta também chega às empresas chinesas

O ganho das fabricantes de memória tem uma contrapartida dentro da própria China. Em julho, a Reuters relatou que empresas de tecnologia e eletrônicos haviam reclamado ao Ministério da Indústria sobre aumentos cobrados pela CXMT e pela YMTC, aos quais atribuíram atrasos no lançamento de produtos.

A agência também informou, com base em fontes próximas às negociações, que a CXMT resistiu a pedidos da Huawei para aliviar os reajustes. Em alguns contratos de módulos de memória para servidores, os preços da fabricante chinesa chegaram a superar os de produtos comparáveis da Samsung.

O efeito já alcançou o consumidor. Marcas como Oppo, Vivo e Honor reajustaram os preços de smartphones em meio ao encarecimento das memórias, segundo informações da agência Xinhua.

Para os próximos meses, a TrendForce prevê que a pressão continue. A consultoria afirma que a oferta de DRAM para computadores pode diminuir em 2027, caso mais capacidade de produção seja transferida para aplicações em servidores.


Perguntas frequentes

Por que a inteligência artificial aumenta o preço das memórias?

A demanda por servidores leva fornecedores a priorizar componentes para essas aplicações. Segundo a TrendForce, essa mudança mantém restrita a oferta destinada a outros mercados, como computadores e celulares.

Quais empresas chinesas se beneficiam?

Entre elas estão a CXMT, fabricante de DRAM, e a YMTC, que produz memória NAND. O crescimento também alcança fornecedores de módulos e distribuidores de componentes, segundo o levantamento da Jiwei.

O aumento das exportações equivale a dinheiro nos cofres públicos?

Não. O valor exportado mede vendas ao exterior. É um indicador diferente de lucro empresarial e de arrecadação de impostos.

Os consumidores chineses também pagam mais?

Sim. A alta dos componentes pressiona fabricantes de eletrônicos, e marcas como Oppo, Vivo e Honor já reajustaram preços de smartphones.

Acompanhe tudo sobre:ChipsChina

Mais de Inteligência Artificial

Ele usou IA para se livrar do trabalho braçal da consultoria e agora sobra tempo para clientes

Quais profissões estão surgindo com a inteligência artificial? Conheça 7 funções em alta

Analista de automação com IA: o que faz, quanto pode ganhar e como se preparar

Como chips de IA viraram lastro para para empréstimos e dívidas bilionárias