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Juros do Tesouro americano estão no maior nível desde 2002: e eu com isso?

Taxas do título de 30 anos se aproximaram da faixa dos 5,7% na semana passada, o que pode pressionar o câmbio

Tesouro americano: juros estão em patamares não vistos desde 2002 (fotog/Getty Images)

Tesouro americano: juros estão em patamares não vistos desde 2002 (fotog/Getty Images)

Rebecca Crepaldi
Rebecca Crepaldi

Repórter de finanças

Publicado em 14 de outubro de 2026 às 05h02.

Última atualização em 16 de outubro de 2026 às 17h42.

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Com a dívida dos Estados Unidos acima de US$ 40 trilhões em 2026, os títulos do Tesouro americano atingiram taxas não vistas desde 2002: mais de 5,2% no prazo de 10 anos e quase 5,7% no de 30 anos. Inflação persistente, juros altos e déficit fiscal ampliam o retorno exigido pelos investidores e afetam dólar, crédito e Selic no Brasil.

Com a dívida americana ultrapassando a marca dos US$ 40 trilhões — e crescendo alguns bilhões todos os dias — os títulos dos Estados Unidos estão pagando taxas não vistas desde 2002. O título de 10 anos, por exemplo, está acima de 5,2%, enquanto o de 30 anos chegou perto de 5,7% na semana passada. Isso significa que o investidor está exigindo mais retorno para financiar o governo.

O Tesouro dos EUA é equivalente ao Tesouro do Brasil. Os investidores emprestam dinheiro para o governo se financiar e, em troca, recebem o capital investido mais uma taxa de juros. Há títulos de curto prazo, de algumas semanas até um ano, chamados T-Bills. Os de prazo intermediário, de dois a 10 anos, são as T-Notes, e os de longo prazo, de 20 e 30 anos, são os T-Bonds. Também existem os TIPS, corrigidos pela inflação americana.

“Por serem considerados o investimento mais seguro e mais líquido do mundo, servem de referência para o custo do dinheiro no planeta inteiro, inclusive no Brasil. Taxa e preço andam em direções opostas. Quando a taxa sobe, o título que já estava no mercado perde valor, e é isso que está acontecendo agora”, explica Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital.

Inflação, juros altos e fiscal elevam retorno dos títulos

São muitos os motivos que levaram os títulos a pagarem taxas tão altas. O primeiro é a inflação, que está acima da meta há anos. “A inflação nos EUA tem sido um reflexo de um cenário multifatorial: elevados gastos públicos; alta dos preços dos combustíveis (petróleo) em função da instabilidade geopolítica no Oriente Médio; e as próprias taxas de importação impostas pelo governo”, diz Plínio Zanini, diretor de Risco da Ciano Investimentos.

O resultado é que o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) voltou a subir os juros em setembro, para a faixa de 3,75% a 4%, a primeira alta desde 2023, e indicou que pode subir mais uma vez até o fim do ano. “O terceiro fator é o fiscal. O governo americano opera com déficits na casa de 6% a 7% do PIB e precisa emitir um volume muito grande de títulos. Com isso, o mercado cobra mais para absorver essa oferta”, aponta Trevisan.

Zanini concorda: o governo americano tem falhado em reduzir a trajetória de aumento da dívida pública americana, gastando mais do que arrecada. Houve aumento dos gastos com redução dos impostos, ou seja, da arrecação. “Com o descontrole fiscal, o mercado exige uma taxa mais alta para emprestar dinheiro ao governo, de modo similar ao cenário de taxa de juros alta que se vê no Brasil.”

Para Trevisa, ainda existe um quarto fator, a disputa por capital. Os pesados investimentos em inteligência artificial e as emissões de governos e empresas no mundo todo aumentam a procura por financiamento, e quem empresta passa a cobrar mais. Já o quinto é que os juros longos também subiram na Alemanha e no Japão, e grandes compradores, como fundos de pensão e seguradoras, só aceitam travar dinheiro por 30 anos com uma taxa mais alta.

Juros altos nos EUA favorecem o dólar: e eu com isso?

Se um título americano, que é considerado o investimento mais seguro do mundo, está pagando mais de 5% em dólar, é questionável investir no Tesouro brasileiro, mesmo que pague 13,75% ao ano, já que o Brasil é considerado um país com mais incertezas e volatilidade. “Tem uma percepção de risco muito maior com aqui. Então o capital acaba indo para os Estados Unidos, o que fortalece o dólar em relação a todas as moedas”, aponta Marco Saravalle, estrategista-chefe da Krivo Capital.

Só em 2026, o DXY, indicador que mede a força do dólar em relação a uma cesta com as principais moedas do mundo, subiu 4,45%. Neste cenário, um dólar mais forte encarece diversos produtos brasileiros, como eletrônicos, combustíveis, trigo, fertilizantes e insumos industriais, já que muitos desses insumos e matérias-primas são importados.

Com isso, a inflação é pressionada e o Banco Central (BC) pode elevar a Selic, o que encarece o crédito, afetando desde quem irá financiar um imóvel ou um veículo, até a empresa que está alavancada. Sendo assim, as elevadas taxas do Tesouro americano afetam o bolso do consumidor brasileiro por três caminhos — sendo um deles o dólar mais alto.

“O segundo, e hoje o mais relevante, são os juros longos brasileiros, que acompanham o movimento dos Treasuries. No início de outubro, o Tesouro IPCA+ 2050 voltou a pagar mais de 7% ao ano acima da inflação. Esses juros longos são referência para o financiamento imobiliário, o crédito para empresas e os projetos de infraestrutura. Quando sobem, comprar a casa própria e investir fica mais caro, e isso se reflete em menos emprego e renda mais à frente”, destaca Trevisan.

O terceiro é a política monetária. Com o Fed subindo juros, o Banco Central tem menos espaço para reduzir a Selic, o que mantém caros o cartão de crédito, o cheque especial e os empréstimos. “Para quem poupa, há um lado positivo. A renda fixa, aqui e lá fora, paga taxas elevadas, e quem investe consegue garantir retornos reais altos”, continua.

Mas o dólar, na verdade, recua no Brasil

Neste momento, acontece um outro fator que mexe com o câmbio. As eleições de 2026, com o primeiro turno resultado na dianteira do candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL), trouxe mais capital estrangeiro para cá. Investidores gringos aportaram R$ 10,06 bilhões na bolsa de valores na segunda-feira, 5, o maior valor registrado no intradia da história da B3.

Tal movimento fez o dólar recuar e o real se valorizar. O dólar caiu mais de 4% em um único dia, a maior queda diária em mais de oito anos. Voltou a ficar abaixo de R$ 5 pela primeira vez desde maio e acumula queda superior a 9% em 2026. Houve dias em que o dólar subia no exterior e caía aqui, o que mostra que o movimento é essencialmente doméstico, explicam os especialistas.

“Não há contradição. O câmbio é resultado de forças globais e locais, e hoje as locais estão falando mais alto. Desde o primeiro turno, o mercado passou a embutir nos preços uma percepção de risco fiscal menor no Brasil. O Brasil também continua com um dos juros reais mais altos do mundo. Com a Selic em 13,75% e os juros básicos americanos perto de 4%, o diferencial segue muito atrativo para o capital estrangeiro”, diz Trevisan.

Essa melhora, porém, se apoia em expectativa. Segundo o executivo, se o cenário eleitoral ou fiscal frustrar o mercado, o peso dos juros americanos altos volta a aparecer e o dólar pode subir rápido.

“É um cenário ainda incerto, dado que nem se confirmou mudanças no governo nem as medidas econômicas que seriam tomadas e como chegariam de fato à execução. Neste cenário hipotético, há a expectativa de uma queda dos juros e melhor cenário de negócios no país, que se refletiria em mais oportunidades no mercado, atraindo capital externo e fortalecendo o real”, complementa Zanini.

Para Saravalle, há um espaço ainda de valorização do real, mas não muito distante do que está sendo negociado hoje. “Não dá para a gente ter um grande otimismo porque lá fora tem essa força da curva de juros americana. Se a gente tivesse uma moeda sem outros efeitos políticos, momentâneos, certamente a gente estaria num num momento de desvalorização do real.”

Como investir nos juros americanos?

O investidor brasileiro pode investir nos títulos americanos por mais de um caminho. O mais simples é pela própria bolsa brasileira, comprando BDRs de ETFs, como BAGG39, BIUS39, BTIP39 e BSTI39. que reúnem carteiras de Treasuries. “A negociação é em reais, pelo home broker de qualquer corretora, e há opções de prazo curto, intermediário e longo”, explica Trevisan. Há também o próprio ETF negociado na B3, o USDB11.

O segundo caminho é abrir uma conta internacional em uma corretora ou banco, enviar os recursos e comprar os títulos diretamente ou ETFs negociados nos Estados Unidos, como SHY, IEF, TLT. O terceiro são os fundos brasileiros que aplicam em renda fixa americana.

Mas, antes de investir, é preciso entender três riscos. O primeiro é o câmbio. O título paga em dólar, então, se o real se valorizar, como aconteceu neste ano, o retorno em reais diminui. O segundo é a oscilação de preço. Os títulos longos variam bastante, e quem vende antes do vencimento pode ter prejuízo se as taxas subirem ainda mais.

“Assim como a nossa renda fixa brasileira, os títulos americanos também têm a marcação a mercado, que o investidor de renda fixa aqui no Brasil já está bastante acostumado. Então é necessário entender que tem todo esse potencial de oscilação”, diz Saravalle.

Por fim, há os custos e a tributação, que mudam conforme o veículo, com imposto de renda, IOF no câmbio e taxas da plataforma. “O Treasury faz sentido como diversificação e proteção em dólar, para uma parte da carteira e de acordo com o perfil de cada investidor.”

'Perguntas frequentes'

O que são os títulos do Tesouro americano? +

Os títulos do Tesouro americano são papéis por meio dos quais investidores emprestam dinheiro ao governo dos Estados Unidos em troca do capital aplicado acrescido de juros. Há T-Bills de curto prazo, T-Notes de dois a 10 anos, T-Bonds de 20 e 30 anos e TIPS corrigidos pela inflação americana.

Por que os títulos americanos estão pagando juros tão altos? +

As taxas subiram por causa da inflação persistente, dos juros elevados, do déficit fiscal dos Estados Unidos e da maior disputa global por capital. Segundo Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, o governo americano opera com déficits de 6% a 7% do PIB e precisa pagar mais para que o mercado absorva o grande volume de títulos emitidos.

Como os juros dos Estados Unidos afetam o Brasil? +

Os juros americanos altos podem fortalecer o dólar, elevar os juros longos brasileiros e reduzir o espaço do Banco Central para cortar a Selic. Esse cenário encarece o financiamento imobiliário, o crédito empresarial, os projetos de infraestrutura, o cartão de crédito e os empréstimos.

Por que o dólar caiu no Brasil mesmo com os juros americanos elevados? +

O dólar recuou porque fatores domésticos, ligados às eleições de 2026 e à expectativa de menor risco fiscal, atraíram capital estrangeiro ao Brasil. De acordo com Trevisan, a Selic de 13,75% também mantém um diferencial de juros atrativo, mas uma frustração eleitoral ou fiscal pode reverter rapidamente o movimento.

Como investir em títulos do Tesouro americano pelo Brasil? +

O investidor pode comprar na B3 BDRs de ETFs como BAGG39, BIUS39, BTIP39 e BSTI39, além do ETF USDB11. Também é possível abrir uma conta internacional para adquirir títulos ou ETFs como SHY, IEF e TLT, ou aplicar em fundos brasileiros de renda fixa americana.

Quais são os riscos de investir em títulos americanos? +

Os principais riscos são a valorização do real, que reduz o retorno convertido para reais, e a oscilação dos preços, que pode causar prejuízo na venda antes do vencimento. Marco Saravalle, estrategista-chefe da Krivo Capital, destaca a marcação a mercado, enquanto custos, imposto de renda, IOF cambial e taxas variam conforme o veículo escolhido.

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