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Dólar volta a operar acima dos R$ 5: alta veio para ficar?

Especialistas veem correção de curto prazo, mas fiscal, eleição e Fed mantêm o câmbio sob pressão

Real perde força: investidores reavaliam cenário eleitoral, fiscal e política monetária dos EUA. ( user3222645/Freepik)

Real perde força: investidores reavaliam cenário eleitoral, fiscal e política monetária dos EUA. ( user3222645/Freepik)

Ana Luiza Serrão
Ana Luiza Serrão

Repórter de Invest

Publicado em 14 de outubro de 2026 às 13h29.

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O dólar voltou a superar a marca de R$ 5 nesta quarta-feira, 14, depois da forte valorização do real registrada nas últimas sessões. A moeda americana operava a R$ 5,0366, em alta de 0,33%, em um movimento que recoloca no radar dos investidores a possibilidade de uma mudança de tendência no câmbio.

Por enquanto, contudo, especialistas ouvidos pela EXAME consideram prematuro interpretar a volta aos R$ 5 como o início de uma trajetória consistente de valorização da moeda americana.

A leitura predominante é que o movimento combina realização de lucros após a queda recente do dólar, maior pressão vinda do exterior e aumento da cautela com a disputa eleitoral e, principalmente, com os rumos da política fiscal brasileira.

O chefe de alocação de investimentos e sócio da AW Capital, Gabriel Magno, considera que o comportamento atual do câmbio ainda tem características de uma oscilação de curto prazo depois de uma queda expressiva da moeda americana, apoiada pelo resultado das eleições no 1º turno.

A pressão externa também cresceu depois da divulgação da inflação dos Estados Unidos. O Índice de Preços ao Consumidor (CPI, em inglês) de setembro veio acima das expectativas, reforçando a possibilidade de uma política monetária mais dura pelo Federal Reserve (Fed).

Juros americanos mais elevados tendem a aumentar a atratividade dos ativos dos Estados Unidos e podem retirar recursos de mercados emergentes, pressionando moedas como o real.

Economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung também avalia que ainda não há elementos suficientes para definir uma nova tendência. Eventos importantes, principalmente no cenário eleitoral brasileiro, ainda precisam ocorrer antes que seja possível identificar uma direção mais duradoura para o câmbio.

Sua expectativa é que, no curto prazo, o dólar permaneça próximo de R$ 5, alternando movimentos acima e abaixo dessa região. Já Renan Pieri, professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), segue linha semelhante e ressalta que a proximidade das eleições aumenta naturalmente a volatilidade do câmbio.

'Difícil cravar. Boa parte desse movimento parece mais oscilação de curto prazo, muito ligada ao noticiário eleitoral e ao humor lá fora. Em ano de eleição o câmbio balança bastante, então eu teria cuidado em chamar isso de nova tendência. Só dá para falar em tendência se a alta se sustentar depois que a poeira da eleição baixar", esclarece.

Por que o dólar voltou aos R$ 5?

A alta atual ocorre depois de um período de forte valorização da moeda brasileira. Na sexta-feira, 9, o dólar havia encerrado a R$ 4,9851, acumulando queda de 4,44% na semana, movimento favorecido pela entrada de capital estrangeiro e pela reprecificação das expectativas eleitorais.

Parte desse movimento começou a ser devolvida nos últimos pregões. Na terça-feira, 13, o dólar à vista avançou 0,71%, para R$ 5,0204, mesmo em uma sessão de enfraquecimento da moeda americana no exterior.

A combinação sugere que fatores domésticos tiveram peso importante na correção. Depois da forte valorização dos ativos brasileiros, pesquisas eleitorais indicando uma disputa mais apertada no 2º turno reduziram parte do entusiasmo que havia tomado os mercados na semana passada.

Hoje, o ambiente externo acrescentou mais um elemento de pressão. Segundo Sung, a inflação americana mais forte aumentou as apostas em juros mais elevados nos EUA e fortaleceu o dólar globalmente.

Os especialistas avaliam que, agora, será necessário observar se as pressões atuais persistirão depois da definição eleitoral e, principalmente, quais serão os sinais enviados sobre a condução das contas públicas.

Eleição pesa agora; fiscal deve pesar depois

No curtíssimo prazo, o cenário político tende a exercer influência relevante sobre o dólar porque cada nova pesquisa pode alterar as expectativas para o resultado das eleições e, consequentemente, para a política econômica a partir de 2027.

"Passado o 2º turno, o foco deve voltar para o fiscal, ou seja, o que o próximo governo vai sinalizar sobre as contas públicas”, afirma Pieri.

"E o cenário externo nunca sai do radar: juros americanos e apetite global por risco mexem com todas as moedas emergentes, não só com o real. No fim, é uma combinação dos três, e o peso de cada um muda de semana para semana", acrescenta o professor.

Magno acredita "será uma mescla de todos esses fatores; entretanto, eu colocaria mais peso sobre o cenário fiscal no Brasil, pois há uma urgência e a necessidade de entregar este ajuste fiscal muito grande."

Sung também considera o cenário político e fiscal doméstico preponderante para a dinâmica do dólar nos próximos meses. Para ele, o resultado eleitoral, a profundidade do ajuste fiscal e as reformas econômicas colocadas em prática pelo governo que assumirá em 2027 serão determinantes para estabelecer um novo patamar para a moeda.

O que poderia levar o dólar ainda mais para cima?

Para Magno, a ausência de um pacote fiscal compatível com o esperado pelo mercado, combinada a uma inflação persistente nos EUA e na Europa e à manutenção de juros elevados nas principais economias desenvolvidas, poderia fazer com que o dólar permanecesse acima de R$ 5 de maneira mais consistente.

Pieri acrescenta outros possíveis gatilhos, como um resultado eleitoral mal recebido pelos investidores ou uma turbulência externa que reduza o apetite por ativos de países emergentes. A própria trajetória dos juros brasileiros também entra nessa equação.

"A queda dos juros aqui também pode deixar o real menos atrativo", afirma o professor da FGV.

Quanto maior a remuneração oferecida pelos ativos brasileiros em comparação aos títulos de economias desenvolvidas, maior tende a ser, mantidas as demais condições, a atratividade do real para investidores estrangeiros. Uma redução desse diferencial pode diminuir esse incentivo.

No caminho contrário, Pieri avalia que um compromisso fiscal considerado crível, acompanhado de redução da incerteza política e de um ambiente internacional mais favorável, poderia ajudar o dólar a voltar para níveis inferiores aos atuais. "Mas nenhum desses caminhos está garantido", ressalta.

Magno também considera que uma combinação entre ajuste das contas públicas, contenção de despesas, nomeações técnicas para o governo e melhora das condições externas poderia levar a moeda americana novamente para níveis bem abaixo de R$ 5.

Quem ganha e quem perde com dólar mais alto?

Em linhas gerais, companhias exportadoras podem ser favorecidas porque recebem parte relevante de suas receitas em moeda americana, enquanto mantêm parcela dos custos em reais. O benefício, contudo, varia de acordo com a estrutura de cada empresa, seus custos, nível de endividamento e estratégias.

Empresas dependentes de insumos importados ou com dívidas relevantes em dólar tendem a enfrentar o efeito contrário, já que a valorização da moeda americana pode elevar despesas e pressionar margens.

"Em geral ganham fundos cambiais, investimentos no exterior, certificados que representam ações de empresas estrangeiras (BDRs, em inglês) e ações de exportadoras, que faturam em dólar. Perdem as empresas que dependem muito de insumo importado ou têm dívida em dólar", afirma Pieri.

O professor acrescenta que a influência do câmbio não fica restrita às empresas diretamente expostas ao dólar. Uma moeda americana persistentemente mais valorizada pode encarecer produtos e matérias-primas importados, adicionar pressão sobre a inflação e reduzir o espaço para cortes da Selic.

Já na renda fixa, Magno vê que uma valorização persistente do dólar pode contribuir para manter os juros elevados por mais tempo, favorecendo investimentos pós-fixados.

No cenário inverso, com uma moeda mais baixa e menor pressão inflacionária, o Banco Central teria mais espaço para reduzir os juros, o que poderia beneficiar ativos prefixados e empresas mais sensíveis ao ciclo de queda da Selic.

É hora de aumentar a exposição ao dólar?

Apesar da volta da moeda para cima de R$ 5, os três especialistas convergem em tentar identificar o momento exato para comprar ou vender dólar é uma estratégia arriscada. Pieri considera mais adequado enxergar a exposição internacional como parte da diversificação estrutural de uma carteira, e não como uma aposta.

Magno também defende a construção gradual da posição internacional. Para ele, comprar ativos no exterior aos poucos reduz o risco de concentrar todos os recursos em uma cotação específica e permite aproveitar eventuais momentos de queda da moeda.

Na avaliação de Sung, por outro lado, fazer um preço médio por meio de compras graduais permite ao investidor participar de uma eventual valorização do dólar sem depender de acertar o menor nível da moeda e, ao mesmo tempo, aproveitar novas quedas caso o real volte a ganhar força.

Nova tendência para o dólar? Ainda é cedo para afirmar

A volta do dólar à região acima dos R$ 5 aumenta a atenção dos investidores, mas os sinais disponíveis ainda são insuficientes para caracterizar uma mudança definitiva de tendência.

A alta ocorre depois de uma valorização expressiva do real e em um momento especialmente sujeito a oscilações, com pesquisas eleitorais alterando as expectativas domésticas ao mesmo tempo em que a inflação americana volta a pressionar as projeções para os juros dos EUA.

A definição do 2º turno tende a retirar uma parte dessa incerteza, mas deve abrir uma nova etapa de avaliação do câmbio, desta vez concentrada nas propostas econômicas do vencedor e na capacidade de apresentar um ajuste fiscal considerado convincente pelo mercado.

Do lado externo, a trajetória da inflação e dos juros americanos continuará funcionando como um fator adicional de pressão ou alívio sobre moedas emergentes.

Para que a atual alta seja interpretada como uma nova tendência, será necessário que a moeda permaneça pressionada mesmo depois da definição eleitoral, apoiada por uma combinação mais duradoura de riscos fiscais internos e condições externas desfavoráveis.

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