"Morro dos Ventos Uivantes": ou será que não? (O Morro dos Ventos Uivantes/Divulgação)
Repórter de Casual
Publicado em 9 de fevereiro de 2026 às 20h03.
Há uma escolha curiosa (e talvez premonitória) no cartaz de "Morro dos Ventos Uivantes", nova empreitada de Emerald Fennell nos cinemas: o nome do filme aparece entre aspas. A pontuação sozinha, no entanto, não é bem o suficiente para amparar as liberdades criativas dessa nova trama, que chega às telonas no Dia dos Namorados norte-americano, 12 de fevereiro.
O longa é mais uma adaptação para o cinema do clássico da literatura inglesa de Emily Brontë, datado de 1847. Antes dele, vieram pelo menos outras 10, com destaque para a de William Wyler, de 1939, que recebeu oito indicações ao Oscar; e para a de Peter Kosminsky, de 1992, com Ralph Fiennes e Juliette Binoche. Todas distintas entre si, claro, mas reverentes à essência visceral de Brontë na retratação gótica da crueldade humana.
É algo que parece ter se perdido na roupagem mais "pop", sensual e anacrônica que Fennell traz em 2026, agora com Margot Robbie e Jacob Elordi nos papéis principais. Aqui, a idealização do romance obsessivo, ao melhor estilo do cinema da Geração Z, é soberana frente à real crítica da obra original.
E não por acaso, tem um roteiro que muito se aproxima aos exageros dramáticos de produções como 50 Tons de Cinza e até, em certos pontos, da saga Crepúsculo.
A trama de Brontë narra a problemática relação entre Heathcliff, um órfão adotado pela família Earnshaw, e Catherine, a filha do senhor de Morro dos Ventos Uivantes, uma propriedade localizada em Yorkshire (Reino Unido). Quando ela decide se casar com o polido Edgar Linton, para ascender socialmente, Heathcliff dedica o resto da vida a um plano cruel e meticuloso para arruinar as duas linhagens familiares. Eventualmente, ele acaba sendo assombrado pelo fantasma de Cathy.
Longe do romantismo pueril, o livro de 1800 é um mergulho sombrio no que há de mais bruto na alma humana. Explora relações que passam por abuso e violência e traz os elementos de um romance gótico ao transformar drama em maldição — capaz de atravessar gerações, inclusive.
A mais nova produção da Fennell, por outro lado, avança por uma estrada diferente. Não que ela não trabalhe os aspectos tóxicos da relação entre Cathy e Heathcliff; de alguma forma — ainda que um tanto quanto rasa —, a problemática está lá. Mas a interpretação da diretora é mais focada no caráter obsessivo, que se feito sem cuidado, abre espaço para idealização romântica.
No filme, ela acontece no sensual jogo de corpo de Robbie e Elordi, no plano macro do rosto dos atores e principalmente na escolha dos diálogos entre eles, que são o puro suco do drama.
A partir desse recorte, a comparação com 50 Tons de Cinza e Crepúsculo não é infundada. Essas duas sagas são guiadas pelo mesmo formato que Fennell explora em "Morro dos Ventos Uivantes", pautadas no exagero dramático, com um toque erótico (em maior ou menor intensidade), e simpatizantes das relações tóxicas.
Curiosamente, são tramas baseadas em outros livros e reescritas por fãs (as famosas fanfictions) — o pilar da nostalgia para a Geração Z, que cresceu lendo essas histórias.
Margot Robbie e Jacob Elordi em "Morro dos Ventos Uivantes" (O Morro dos Ventos Uivantes/Divulgação)
O formato do filme, aliás, se esforça tanto para se encaixar dessa nova juventude que perde a força narrativa. Diferente do livro, onde o desejo é reprimido e sufocante, o longa de Fennell está repleto do "sexo da Geração Z": exuberante, sensual, mas estranhamente contido por roupas e ângulos que evitam a nudez explícita.
É uma escolha narrativa feita para impressionar sem chocar, algo que o público dessa idade já mostrou preferir. Não transmite as nuances que a história precisa passar do ponto mais profundo — aquele que vai te fazer refletir por si próprio e não consumir algo já mastigado, pronto para engolir.
A montagem de Fennell também parece ignorar o tempo de maturação que a história exige, e opta por um ritmo frenético de cenas curtas, sem tempo de respiro. É uma estrutura que mimetiza no cinema os "edits" do TikTok: picos rápidos de dramaticidade desenhados para entregar doses imediatas de dopamina.
A presença da música de Charli XCX complementa o formato. Não entenda mal, a trilha sonora está longe de ser ruim e a faixa da diva pop é ótima, mas sustenta a estética do consumo rápido que o filme apresenta e a Geração Z tanto anseia.
O resultado é uma trama rasa, problemática no efeito que quer causar no público e desprovida da crítica feroz contida na obra original de Brontë.
Cenários de "O Morro dos Ventos Uivantes" (O Morro dos Ventos Uivantes/Divulgação)
Isso dito, nem tudo em tela é assim tão ruim. Esse padrão geracional, que vive com os olhos colados na moda "aestethic" do Pinterest, se completa no longa pela exuberância dos cenários e dos figurinos. A parte técnica é um espetáculo à parte — e é aqui que o filme se justifica.
O figurino, assinado pela lendária Jacqueline Durran, é deslumbrante, ainda que anacrônico. Os tecidos e cortes são notoriamente mais modernos do que a era na qual o filme se passa, mas representam muito bem a ascensão de Cathy na alta sociedade. Tanto os vestidos quanto as joias escolhidas são mesmo um deleite para quem assiste.
Margot Robbie em "O Morro dos Ventos Uivantes" (O Morro dos Ventos Uivantes/Divulgação)
A cenografia acompanha essa beleza hipnotizante. A casa onde Cathy e Heathcliff crescem mantém uma fidelidade vitoriana rústica e melancólica. Mas é quando Cathy enriquece que a produção brilha: a nova residência é o ápice do design de luxo. A obsessão do tema está estampada em cada detalhe, das cores das paredes e do chão aos objetos decorativos.
A qualidade técnica arremata o roteiro idealizado também pelo padrão estético. E, ironicamente, consegue ser um ponto mais crítico e profundo do que todo o roteiro e a direção.
Essa estética belíssima de "Morro dos Ventos Uivantes" quase salva a falta de química autêntica entre Elordi e Robbie, que foi tão trabalhada na divulgação do filme, mas que, na prática, não se aplica na mesma intensidade da propaganda. É um problema que tem várias origens.
Começa já no fato de que "Morro dos Ventos Uivantes" dedica pouco tempo à infância de Cathy e Heathcliff, o que é o primeiro grande erro do roteiro. No livro, os traumas dessa fase são o que moldam a personalidade maldosa dos adultos. No longa, essa transição soa rasa. As experiências dos personagens são supérfluas para o amadurecimento de uma crueldade. Não à toa, ela aparece muito tímida ao longo do filme (e não convence).
Margot Robbie em "O Morro dos Ventos Uivantes" (O Morro dos Ventos Uivantes/Divulgação)
A problemática continua na escolha do elenco principal. Margot Robbie é, sem dúvida, uma das melhores atrizes de sua geração e incorpora muito bem a essência da personagem que interpreta. No entanto, e que isso não soe etarista — porque não o é — está madura demais para o papel. Cathy é uma marcada pela imaturidade e pela dificuldade da transição para a vida adulta. A atriz, que tem presença e a experiência de sobra, emula uma estranheza que desconecta o espectador.
Elordi, que parece ter sido escalado por ser a "figura do momento", entrega um Heathcliff calmo demais. O papel exigia bruteza, uma energia obsessiva e selvagem que ele não alcança. No livro, inclusive, o personagem é descrito como cigano, um homem não-branco, o que traz uma camada essencial de crítica social e preconceito que a diretora preferiu ignorar.
Tudo junto isso junto contribui para que essa sensação dramática, sensual e latejante entre os dois atores soe mais estranha do que romântica, de fato.
Jacob Elordi em "O Morro dos Ventos Uivantes" (O Morro dos Ventos Uivantes/Divulgação)
Em suma, "Morro dos Ventos Uivantes" é um filme tonteante no visual, mas emocionalmente anêmico. Vai agradar quem busca um "aesthetic" gótico para as redes sociais, mas deve frustrar quem esperava encontrar os cruéis Heathcliff e Catherine Earnshaw.
E quando é assim, verdade seja dita, aspas não são suficientes. É melhor não ostentar o mesmo nome do livro.