Casual

Azzas 2154 e LVMH: marcas trocam de mãos e redesenham o mapa do luxo

Enquanto a LVMH vende a Marc Jacobs, bilionários assumem o controle de hotéis históricos e grifes aceleram a expansão no Brasil

Alexandre Birman, da Arezzo, e Roberto Jatahy, no anúncio da fusão das empresas (Leandro Fonseca/Exame)

Alexandre Birman, da Arezzo, e Roberto Jatahy, no anúncio da fusão das empresas (Leandro Fonseca/Exame)

Gustavo Frank
Gustavo Frank

Jonalista colaborador

Publicado em 2 de setembro de 2026 às 14h21.

Priorizar nos meus resultados Google
Tudo sobreLuxo
Saiba mais

O mercado do luxo está passando por uma redistribuição de forças que atravessa moda, hotelaria e geografia. A LVMH fechou a venda da grife Marc Jacobs para uma joint venture formada pela WHP Global e pela G-III Apparel Group, encerrando quase três décadas de controle sobre a marca americana. No mesmo período, um grupo de bilionários de origens bem diferentes vem assumindo o controle de algumas das redes hoteleiras mais tradicionais do mundo, quase sempre longe dos holofotes. Enquanto isso, marcas como Dior, Chanel e Hermès aceleram a abertura de lojas no Brasil, atraídas pelo crescimento da população de alta renda no país.

Os três movimentos, à primeira vista distintos, mostram como o setor de luxo tem reorganizado seus ativos. Conglomerados abrem mão de marcas consideradas secundárias, investidores individuais assumem hotéis com décadas de história e grifes internacionais concentram esforços em mercados emergentes com maior potencial de consumo.

A saída da Marc Jacobs do grupo francês

Marc Jacobs segue à frente da grife que leva seu nome, agora sob nova estrutura de controle após a saída da LVMH ( Franco Origlia/Getty Images)

A venda da Marc Jacobs finalizou neste mês, após meses de negociação que começaram a ser reportadas ainda em maio pelo Financial Times. O negócio ficou em torno de US$ 925 milhões, cerca de R$ 4,8 bilhões, e envolveu a formação de uma joint venture entre WHP Global e G-III Apparel Group, cada uma com metade da propriedade intelectual da marca. A G-III também assumiu o negócio operacional, com mais de 100 lojas, e firmou um contrato de licenciamento de longo prazo para tocar varejo, atacado e comércio eletrônico.

Marc Jacobs permanece como diretor criativo da grife que leva seu nome, criada em 1984 em parceria com Robert Duffy. A LVMH havia adquirido o controle da marca em 1997, o mesmo ano em que o designer assumiu a direção criativa da Louis Vuitton. Com a venda, a WHP Global passa a somar Marc Jacobs a um portfólio que já reúne Vera Wang, Rag & Bone e G-Star.

A operação faz parte de uma revisão de portfólio dentro da LVMH, que nos últimos meses também se desfez da rede de lojas DFS na China e, antes disso, das marcas Off-White e Stella McCartney. O grupo segue com um caixa robusto, o que dá à companhia margem para negociar prazos e valores nas vendas em andamento.

Reorganização de portfólio também aparece no Brasil

Azzas

Fachada da Azzas 2154, grupo formado pela fusão entre Arezzo&Co e Grupo Soma em 2024. A empresa agora se divide entre Alexandre Birman e Roberto Jatahy, com a Farm sob processo de venda (Divulgação)

O mesmo tipo de movimento visto na LVMH, com a venda de marcas consideradas secundárias, tem correspondência dentro do mercado brasileiro. A Azzas 2154 fechou um acordo que separa os negócios de Alexandre Birman e Roberto Jatahy, desfazendo, pouco mais de dois anos depois, a combinação entre Arezzo&Co e Grupo Soma que deu origem ao grupo em 2024.

Birman fica com as operações ligadas à Arezzo&Co e ao universo de calçados e bolsas, enquanto Jatahy assume as marcas de moda feminina que vieram do antigo Soma.

A Farm, no entanto, ficou de fora dessa divisão e segue como propriedade conjunta dos dois empresários enquanto corre um processo de venda conduzido pelo Morgan Stanley. As estimativas de valor variam bastante entre os bancos consultados, de R$ 3,7 bilhões pelo Citi a R$ 5,5 bilhões pelo J.P. Morgan, o que ajuda a explicar por que os sócios preferiram manter a marca em conjunto até que surja uma proposta considerada atraente.

Bilionários discretos no controle de hotéis de luxo

Four Seasons Resort Mykonos: situado no alto da baía de Kalo Livadi (Four Seasons /Divulgação)

Enquanto a LVMH reduz sua presença em moda, outro fenômeno ganha força na hotelaria. Bilionários de setores completamente diferentes, da tecnologia ao petróleo, vêm comprando participações relevantes em bandeiras hoteleiras conhecidas do mundo todo, muitas vezes sem qualquer exposição pública sobre o negócio.

Bill Gates é um dos nomes por trás dessa movimentação. Pela Cascade Investment, ele elevou sua fatia na rede Four Seasons para mais de 70%, tornando-se o acionista majoritário de uma das marcas mais conhecidas da hotelaria de luxo. Do outro lado do mundo, o empresário indiano Mukesh Ambani, dono da Reliance, comprou uma participação relevante no Mandarin Oriental de Nova York, um dos hotéis mais cobiçados de Manhattan.

O próprio Bernard Arnault, comandante da LVMH, também tem seus interesses fora da moda. O grupo pagou pela rede Belmond, que reúne endereços históricos como o Hotel Cipriani, em Veneza. No Oriente Médio, o sultão de Brunei controla a Dorchester Collection, dona do Beverly Hills Hotel e do Hôtel Plaza Athénée, em Paris, enquanto o empresário emiradense Khalaf Al Habtoor construiu um grupo com 14 hotéis sob bandeiras como Waldorf Astoria, Ritz-Carlton e Hilton.

Em Dubai, Mohamed Alabbar aproveitou a força da Emaar para criar marcas próprias de hospedagem, entre elas Address, Vida e Rove, além de uma parceria com a Armani para hotéis assinados pela grife italiana. Já Abbas Sajwani, ainda muito jovem para os padrões do setor, comandou pela AHS Properties a compra do Shangri-La Dubai, um dos edifícios mais altos da cidade dedicados à hotelaria. Juntos, esses nomes mostram como parte da riqueza global tem migrado silenciosamente para tijolo, mármore e serviço de quarto.

O Brasil na rota de expansão das grifes

Enquanto conglomerados reorganizam moda e hotelaria fora do país, o Brasil se consolidou como destino de expansão para marcas de luxo globais. A Dior inaugurou recentemente sua maior loja no país, uma flagship no Shopping Cidade Jardim, em São Paulo, com roupas, joias, itens de decoração, fragrâncias e sala reservada para clientes de alto consumo. A grife já prepara uma segunda unidade para 2027.

No mesmo shopping, a Chanel projeta uma loja ainda maior, a Hermès prevê uma unidade espaçosa e a Prada também avança com planos de expansão. Loro Piana e Alaïa preparam suas primeiras operações no país. O movimento acompanha o crescimento da população brasileira de alta renda, que já passa de 1 milhão de pessoas e segue em trajetória de alta até o fim da década, de acordo com a Bloomberg.

O setor de luxo brasileiro cresceu em ritmo bem mais acelerado que a média mundial nos últimos anos, puxado sobretudo por moda e itens pessoais. Parte dessa operação é conduzida pelo Iguatemi, que administra uma rede de shoppings e outlets e cuida diretamente da importação, logística, contratação e comércio eletrônico de marcas estrangeiras no país.

Marcas nacionais como PatBO e Adriana Degreas seguem caminho distinto, apostando em peças de fabricação artesanal e expansão internacional para ganhar espaço dentro do mesmo mercado. Outras optam por se associar a grupos maiores, o que garante capital e estrutura logística, mas também implica dividir decisões de investimento e governança com sócios externos.

Acompanhe tudo sobre:LuxoModaHotéis

Mais de Casual

Time Out Market trará 17 cozinhas e estrelados Michelin para o Conjunto Nacional

Por que a Zara está fechando parcerias com grandes nomes da moda

Bvlgari leva três lançamentos em titânio ao Geneva Watch Days 2026

O que assistir no streaming em setembro de 2026?