Leo Dell'Orco e Giorgio Armani ao fim de desfile em junho de 2021, primeira vez que os dois apareceram juntos na passarela (Reprodução/Instagram )
Jonalista colaborador
Publicado em 22 de junho de 2026 às 16h00.
Última atualização em 23 de junho de 2026 às 06h29.
Quando Giorgio Armani morreu, em setembro de 2025, aos 91 anos, deixou em funcionamento um plano de sucessão que vinha construindo há anos com a mesma atenção que dedicava a cada coleção. Em sua última entrevista, ao Financial Times, foi explícito sobre quem deveria conduzir a transição: citou Dell'Orco pelo nome, ao lado dos membros da família e da equipe de trabalho, e pediu que a sucessão fosse orgânica, sem rupturas. A frase não surpreendeu quem acompanha a grife de perto. Dell'Orco estava ao lado de Armani desde 1977, quando os dois se conheceram num jardim do bairro de Piazzale Libia, em Milão, depois que o italiano o viu cuidando de um cachorro aparentemente perdido. O dono do animal era Giorgio Armani.
Pantaleo Dell'Orco, nascido em Bisceglie, na Puglia, em novembro de 1952, passou mais de quatro décadas desenvolvendo as coleções masculinas da grife e acumulou também a presidência do conselho da Pallacanestro Olimpia Milano, o time de basquete dirigido por Armani desde 2008. Sob sua gestão, o clube conquistou dois títulos da liga italiana e chegou ao Final Four da EuroLeague em 2021. Fora das passarelas, era a pessoa a quem Armani confiava seus pensamentos mais privados, como o próprio designer escreveu em sua autobiografia, Per Amore, publicada em 2022.
Looks do desfile Giorgio Armani inverno 2026 masculino, apresentado em janeiro na Via Borgonuovo, em Milão (Divulgação)
Em janeiro de 2026, Dell'Orco apresentou sua primeira coleção à frente da Giorgio Armani, no subsolo do palácio da Via Borgonuovo, em Milão. A temporada foi a inverno 2026 masculina, a primeira da grife sem a assinatura do fundador. O desfile foi elegante e respeitoso com o que foi construído ao longo de cinquenta anos: alfaiataria fluida, sobretudos dramáticos de dupla face em cinza ardósia com golas em funil e uma paleta que escapou levemente do bege característico de Armani. Ao fim do desfile, chamou ao lado seu sobrinho Gianluca Dell'Orco, diretor de design masculino e colaborador da casa há 35 anos, para receber os aplausos juntos.
Um mês depois, em fevereiro, foi a vez do Emporio Armani. A coleção recebeu o título de Maestro e foi desenvolvida ao lado de Silvana Armani, sobrinha do fundador e responsável pelo feminino da linha. A alfaiataria estruturada dividiu a passarela com casacões, saias e vestidos, numa proporção que alternava construções amplas com modelagens mais próximas ao corpo. A decisão de unir o masculino e o feminino do Emporio numa mesma apresentação, a partir da temporada de outono de 2026, também partiu de Dell'Orco e Silvana, com base em algo que o próprio Giorgio já considerava antes de morrer.
Looks do desfile Emporio Armani inverno 2026, primeira coleção desenvolvida por Leo Dell'Orco e Silvana Armani após a morte do fundador (Divulgação)
Dell'Orco tem sido direto sobre os desafios do momento. Reconhece que o mercado deixa menos margem para riscos do que havia no passado e aponta o arquivo da grife, que Armani sempre se recusou a revisitar em vida, como uma das ferramentas mais valiosas para o que vem a seguir. Sobre parcerias futuras, manifestou interesse no design japonês e no trabalho da Comme des Garçons.
Enquanto concorrentes apostam em trocas de diretores criativos como estratégia de relançamento, a Armani segue um caminho oposto, de continuidade deliberada. O testamento de Giorgio Armani prevê a manutenção da independência da empresa por meio da Fundação Giorgio Armani e deixa aberta, apenas após cinco anos de sua morte, a possibilidade de venda parcial a grupos como LVMH, L'Oréal ou EssilorLuxottica. Dell'Orco tem dito que a prioridade, por ora, é seguir fazendo o que a grife sempre fez bem, sem se deixar pressionar pelo ruído do mercado.