ESG

Parceiro institucional:

logo_pacto-global_100x50

Manaus vira laboratório do MIT para estudar como reduzir o calor em cidades tropicais

Projeto vai monitorar temperaturas em diferentes pontos da capital amazonense e usar os dados para orientar mudanças em construções e regras urbanísticas

Parceria internacional vai analisar pontos de aquecimento urbano e criar modelo para avaliar alternativas de planejamento no clima amazônico (Divulgação)

Parceria internacional vai analisar pontos de aquecimento urbano e criar modelo para avaliar alternativas de planejamento no clima amazônico (Divulgação)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 2 de setembro de 2026 às 14h00.

Priorizar nos meus resultados Google

Manaus passou a integrar uma pesquisa internacional que pretende entender como o calor se distribui dentro da cidade e transformar dados sobre temperatura urbana em decisões de planejamento.

O estudo é conduzido pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), em parceria com a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e o Instituto Municipal de Planejamento Urbano (IMPLURB).

A iniciativa terá como um dos pontos de coleta de dados o Parque Mosaico, no bairro Tarumã, e vai monitorar as chamadas ilhas de calor, fenômeno em que áreas urbanizadas apresentam temperaturas mais elevadas do que regiões com maior presença de vegetação.

A proposta é desenvolver um modelo físico-matemático, ferramenta que combina dados ambientais e cálculos para simular condições térmicas, capaz de apoiar decisões sobre arquitetura, construção e legislação urbana.

O interesse pelo tema ocorre em uma cidade onde estudos anteriores já identificaram diferenças relevantes entre áreas urbanizadas e regiões de floresta.

Uma pesquisa publicada na Revista Brasileira de Meteorologia, que analisou Manaus por meio de imagens do satélite MODIS e dados de estações meteorológicas, estimou uma intensidade média da ilha de calor urbana de 1,87°C pelas observações e 1,80°C pelo modelo.

O levantamento também apontou que, entre agosto e setembro de 2009, a temperatura da superfície, medida a partir do aquecimento de elementos como telhados, ruas e solo exposto, chegou a aproximadamente 38°C a 42°C em áreas urbanizadas, enquanto regiões de floresta registraram valores próximos de 30°C a 38°C. Em determinados pontos analisados, a diferença entre áreas urbanas e florestais chegou a 12°C pelo satélite e 13°C pelo modelo.

Esses valores, porém, não representam necessariamente a temperatura do ar sentida pelas pessoas, já que a temperatura da superfície mede o aquecimento dos materiais e do solo. O dado é utilizado para entender como a urbanização altera o ambiente térmico dos bairros.

O mesmo estudo identificou que as áreas mais quentes estavam concentradas principalmente nas zonas Sul, Centro-Sul e Centro-Oeste de Manaus, regiões com maior densidade urbana. Entre os períodos de 2002–2005 e 2009–2012, houve aumento da temperatura média da superfície em diferentes bairros, associado à expansão urbana, substituição de áreas verdes e maior presença de materiais como concreto e asfalto.

Além das características da ocupação urbana, pesquisas sobre a evolução das ondas de calor indicam mudança no padrão térmico da capital amazonense. Uma análise de dados diários de temperatura máxima entre 1970 e 2019 encontrou tendência estatisticamente significativa de aumento na frequência, duração e intensidade desses eventos em Manaus.

O estudo apontou uma aceleração mais evidente a partir do período entre 1996 e 2002, com ondas de calor mais frequentes nas décadas seguintes. Uma análise posterior, baseada em dados até 2023, também indicou aumento desses episódios e avaliou possíveis impactos sobre a saúde cardiovascular de idosos.

A pesquisa liderada pelo MIT pretende transformar esse tipo de diagnóstico em informações aplicáveis ao desenho urbano. Segundo o projeto, os dados coletados poderão contribuir para mudanças em normas urbanísticas e orientar soluções construtivas adaptadas ao clima amazônico.

Calor e saúde na vida urbana

O aumento da exposição ao calor extremo tem sido associado a riscos para a saúde, especialmente entre grupos mais vulneráveis, como idosos, crianças, gestantes, pessoas com doenças cardiovasculares, respiratórias ou renais e trabalhadores expostos ao sol.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o estresse térmico um risco ambiental e ocupacional, com impactos que podem incluir desidratação, exaustão pelo calor, agravamento de doenças crônicas e aumento da sobrecarga cardiovascular.

No Brasil, um estudo da Fiocruz e da Universidade Federal da Bahia estimou cerca de 120 mil mortes associadas ao calor extremo entre 2000 e 2019 em todo o país.

Na capital amazonense, a relação entre calor e vulnerabilidade ainda depende de análises locais que cruzem dados meteorológicos com informações de atendimento e mortalidade. Entre os indicadores que podem ajudar nessa avaliação estão internações por doenças cardiovasculares, respiratórias, insuficiência renal, desidratação e outros efeitos associados à exposição térmica.

A pesquisa conduzida pelo MIT, Ufam e Implurb pretende avançar justamente na produção de dados específicos para a cidade. O Parque Mosaico será um dos primeiros pontos de monitoramento, enquanto outros locais devem ser incorporados nas próximas etapas do estudo.

Para o prefeito Renato Júnior (Avante), a participação de Manaus no projeto representa uma oportunidade de usar dados científicos no planejamento urbano.

“Manaus não vai apenas sentir os efeitos das mudanças climáticas, Manaus vai ajudar o mundo a entender como enfrentá-las. Quando o MIT escolhe nossa cidade como referência, isso mostra que estamos no caminho certo, estudando um planejamento urbano feito com ciência, com dados e, principalmente, pensando na vida de quem mora aqui”, afirmou.

O prefeito também declarou que os resultados devem ter aplicação prática. “Isso não é um estudo que vai ficar engavetado. É um estudo que vai virar um prédio mais fresco, uma rua mais arborizada, um bairro mais habitável. É o manauara sentindo, no bolso e no corpo, que a ciência pode melhorar sua vida todos os dias”, disse.

Acompanhe tudo sobre:ExclusivoManausCalor

Mais de ESG

Mundo deve ultrapassar limite de 1,5°C e corrida agora é para limitar danos, alerta ONU

Conta ambiental já pesa no PIB do Brasil; ignorá-la é erro de cálculo, afirma Giannetti da Fonseca

Zurich financia reabilitação para vítimas de acidentes de trânsito na AACD

Crescimento econômico não significa progresso nem felicidade, diz Gaya Herrington