O presidente Lula, o vice, Geraldo Alckmin e o ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, junto à primeira-dama, Rosângela da Silva, a Janja; Ana Estela Haddad; e Lu Alckmin (Ivan Martínez-Vargas/EXAME)
Repórter especial em Brasília
Publicado em 10 de setembro de 2026 às 17h31.
O fim da vantagem numérica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas pesquisas de intenção de voto e o temor quanto aos impactos da crise no Supremo Tribunal Federal (STF) na campanha petista têm exacerbado a insatisfação de aliados de Lula com a condução de sua campanha.
Em meio à insatisfação manifestada reservadamente por lideranças do Partido dos Trabalhadores e de partidos aliados, o presidente do PT, Edinho Silva, agendou uma série de reuniões para tentar baixar a temperatura. Nesta quinta-feira, 10, Edinho convocou uma reunião da Executiva Nacional do PT em formato híbrido e, na sexta-feira, um encontro com movimentos sociais e centrais sindicais, em São Paulo.
Nos últimos dias, a EXAME ouviu de integrantes do governo, lideranças do PT e de siglas aliadas uma série de críticas à condução da campanha e ao papel de Edinho Silva nela.
A escalada da crise no STF, na última semana, é vista por aliados como um risco para fortalecer o discurso oposicionista que associa Alexandre de Moraes a Lula, no momento em que o ministro do Supremo é questionado por suas relações com Daniel Vorcaro.
Após a reunião da Executiva Nacional do PT, Edinho afirmou a jornalistas que a campanha teve erros, como na produção de material, como panfletos, e admitiu que é preciso ser mais enfático sobre as propostas de Lula para os próximos anos, como a reforma do Judiciário, com mandatos para ministros de cortes superiores; e, na área da segurança pública, a retomada de territórios hoje controlados por facções.
"A gente precisa ser mais enfático sobre o que estamos defendendo para a sociedade. A reforma do Judiciário, a reforma político-eleitoral, uma defesa da renda das famílias, traduzir a defesa da soberania, dizendo por que a gente defende que não haja interferência política no país. Se dissermos que é importante que a riqueza dos minerais críticos gere empregos de qualidade aqui, a população entende", afirmou Edinho.
Uma liderança do PT paulista afirma reservadamente que, em meio ao embate dos ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes, a campanha de Lula "dormiu no ponto".
Esse mesmo integrante do partido afirma que a manifestação de Lula na quarta-feira, 9, na qual o presidente critica vazamentos seletivos de documentos e pede o levantamento do sigilo dos processos relacionados ao caso Master, é acertada, mas demorou.
Diante da gravidade do maior crime financeiro da história do Brasil, o povo brasileiro precisa de explicações e medidas imediatas para enfrentar a crise institucional que tomou conta do Poder Judiciário.
Se faz necessário mais transparência e não vazamentos seletivos que…
— Lula (@LulaOficial) September 9, 2026
Outros dois aliados de Lula afirmam que faltam à campanha rumo e capacidade de reação diante das crises nas últimas semanas. A postura da ex-ministra Gleisi Hoffmann quando Mendonça afastou preventivamente o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, é citada por essas lideranças como exemplo a ser seguido.
Em uma postagem no próprio dia da decisão de Mendonça, Gleisi afirmou que afastar Andrei era "proteger e premiar os criminosos do Master, do INSS, da Carbono Oculto e dos traficantes de drogas que a PF combateu como nunca no governo do presidente Lula".
No movimento sindical, lideranças de centrais que apoiam o governo Lula criticam também a ausência de membros de movimentos sociais no núcleo de coordenação da campanha de Lula, hoje restrito a aliados próximos. Mesmo dentro do PT, dirigentes têm criticado, por exemplo, decisões do núcleo decisório da campanha, como o tom da propaganda de rádio e TV de Lula e a ausência de material de campanha nos estados.
Mesmo com a vantagem de ter um tempo de televisão maior que o do principal adversário, a campanha de Lula é criticada por aliados. Um petista que já participou de campanhas anteriores classifica os programas como apáticos e protocolares. O programa de TV mais recente, de 7 de setembro, ressaltou a defesa da soberania nacional em relação ao tarifaço, em linha com o desfile na Esplanada dos Ministérios, mas não abordou, por exemplo, a crise do STF.
A insistência da campanha em priorizar a discussão sobre a defesa da soberania, que é considerado um tema já desgastado no debate público, também é criticada por parlamentares aliados.
O tom das peças, que mais ressaltam números do governo do que falam de futuro, preocupa petistas, aliados e membros do governo ouvidos pela EXAME. Um integrante da gestão Lula diz que a campanha se encontra na defensiva e perdendo terreno, mas as peças de TV denotam uma campanha que ainda se considera favorita.
Um integrante do PT que atua diretamente na campanha, mas não na coordenação, argumenta que a defesa das entregas do governo, como desemprego em baixa, inflação controlada e crescimento econômico, precisa ser feita, mas é insuficiente para arregimentar mais votos para Lula. Falta, diz ele, dar destaque a bandeiras mais concretas para um eventual quarto mandato, como o fim da escala 6x1.
Os presidentes Donald Trump e Lula, durante reunião na Malásia, em 26 de outubro de 2025: insistência da campanha na temática da soberaina nacional gera questionamentos entre aliados petistas (Ricardo Stuckert/PR)
A militância de base da campanha também tem reclamado da falta de material de divulgação, seja de peças digitais para redes sociais, seja de panfletos e bandeiras. Há reclamações desse tipo em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Ceará, de acordo com membros de diretórios estaduais do PT ouvidos pela EXAME.
No ato inaugural da campanha, no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, em 16 de agosto, Lula já havia pedido à militância empenho na divulgação de sua campanha e disse que era fazer chegar as propostas e as realizações sociais do governo diretamente ao eleitorado.
Na ocasião, o PT criou grupos de Whatsapp com militantes presentes na Vila Euclides para distribuir material de campanha em rede, mas sem permitir a interação entre os militantes nem receber sugestões. O ritmo das mensagens, desde então, foi lento, de duas por dia. Apenas nesta semana, após reclamações, os grupos de mobilização da campanha passaram a permitir que apoiadores enviassem sugestões de ações e materiais.
Markus Sokol, um dos fundadores do PT e ex-membro da Executiva Nacional da sigla, afirma que faltam, também, panfletos e mobilizações junto à militância de base nos estados. A EXAME apurou que a reclamação tem sido frequente em diversos estados e que já houve pedidos da militância em São Paulo e Minas Gerais para a produção de mais material da campanha de Lula.
"Em São Paulo, não tem panfleto da campanha de Lula, apenas de candidatos proporcionais (deputados estaduais e federais), e, quando chegam, as peças têm uma linguagem que não dialoga com o eleitor, falam de passado, que o país mudou. É verdade que mudou para melhor, mas as pesquisas mostram que a percepção é de que o país está longe do que se esperava. É preciso falar de futuro", diz Sokol.
Edinho admitiu, nesta quinta-feira, que o PT errou ao descentralizar a produção do material e delegar sua distribuição aos estados. Agora, o presidente da sigla disse que essa tarefa voltará a ser centralizada.
"Não tem problema reconhecer erro na campanha. Planejou mal a elaboração de material. É evidente que é um erro de planejamento, porque tentamos fazer com que cada estado tivesse a sua elaboração de material e não funcionou, porque há estados em que as gráficas não têm a mesma estrutura para produzir e distribuir, e isso gerou um problema logístico, inclusive. Trouxemos de volta a produção para grandes centros para fazer a distribuição depois. Ninguém nega que teve um erro de planejamento", disse Edinho.