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Lula começa campanha onde iniciou trajetória política e vê queda em vantagem sobre Flávio

Economia, aliança partidária e tempo de TV favorecem presidente; investigações sobre seu filho e ex-chefe de gabinete são pontos de atenção

Imagem do documentário 'Peões', de Eduardo Coutinho, lançado em 2004 (Divulgação)

Imagem do documentário 'Peões', de Eduardo Coutinho, lançado em 2004 (Divulgação)

Ivan Martínez-Vargas
Ivan Martínez-Vargas

Repórter especial em Brasília

Publicado em 16 de agosto de 2026 às 08h00.

Última atualização em 16 de agosto de 2026 às 11h33.

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Faltavam dois dias para a posse de João Figueiredo, último presidente da ditadura militar que governou o Brasil por 21 anos, quando, a 1.000 quilômetros de Brasília, cerca de 60 mil pessoas se reuniram no Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), para uma assembleia convocada pelos sindicatos dos metalúrgicos do ABC paulista. Era 13 de março de 1979, e o presidente do sindicato de São Bernardo e Diadema, Luiz Inácio Lula da Silva, de 33 anos, discursou de pé, sobre mesas de plástico colocadas no gramado e sem equipamento de som. A cada frase, o líder sindical precisava interromper o discurso para que suas palavras fossem repetidas pela multidão. Começava naquele dia uma greve geral que acabou em 12 de maio sem que todas as reivindicações dos sindicalistas fossem atendidas, mas que estabeleceu as bases de novas paralisações pelo país no ano seguinte, tornou Lula nacionalmente conhecido e, nas palavras do ex-metalúrgico e hoje presidente, "foi onde tudo começou".

Neste domingo, 47 anos, cinco meses e três dias depois do grande ato sindical na Vila Euclides, um Luiz Inácio de 80 anos volta ao estádio para lançar oficialmente sua sétima campanha presidencial. Lula chega à disputa para conquistar um quarto mandato tendo como principais rivais o antipetismo, que turbina sua rejeição — de 52%, segundo a pesquisa Quaest divulgada em 14 de agosto —; e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que a encarna e tende a ser seu rival em um eventual segundo turno. A rejeição do filho de Jair Bolsonaro é ainda ligeiramente maior, de 54%.

No ato que dá o pontapé inicial em sua campanha, Lula vai discursar para cerca de 20 mil militantes, capacidade máxima atual do estádio. A multidão não será mais formada por metalúrgicos, e sim por simpatizantes vindos em caravanas mobilizadas pelo PT.

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Lula e a primeira-dama, Rosângela da Silva, a Janja, durante Convenção Nacional do PT, em 3 de agosto (Miguel Schincariol/AFP)

O simbolismo da volta à Vila Euclides contrasta com uma disputa muito mais apertada do que o petismo desejaria encontrar na largada oficial da campanha. A Quaest mostra Lula com 43% das intenções de voto em um segundo turno contra Flávio Bolsonaro, que aparece com 40%. Como a margem de erro do levantamento é de dois pontos percentuais, os dois estão tecnicamente empatados. No primeiro turno, o presidente lidera, com 38%, contra 31% do senador bolsonarista. Em julho, Lula tinha 45% e Flávio, 37% na simulação de segundo turno, uma vantagem de oito pontos, segundo o mesmo instituto.

O cenário reforça uma avaliação recorrente entre aliados do presidente: Lula começa a campanha como favorito, mas sem a vantagem que se esperaria de um presidente que disputa a reeleição com indicadores econômicos favoráveis.

A economia oferece ao presidente alguns dos principais argumentos para pedir mais quatro anos no Palácio do Planalto. O Ministério da Fazenda projeta crescimento de 2,3% do PIB neste ano; a inflação acumulada em 12 meses medida pelo IPCA está em 4,44%; e a taxa de desemprego chegou a 5,4% no trimestre encerrado em junho, segundo o IBGE.

Para Aldo Fornazieri, cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp), o presidente deveria ter chegado a agosto com uma distância mais confortável em relação ao principal adversário, mas sua principal dificuldade é a falta de uma comunicação eficaz e de uma estratégia digital mais assertiva.

O governo não conseguiu converter esses resultados em uma narrativa capaz de ampliar sua base eleitoral. A aprovação de Lula, que em julho tinha saldo positivo (48% de aprovação contra 47% de desaprovação), oscilou negativamente na última pesquisa Quaest: 48% da população desaprovam a gestão petista, ante 46% que a aprovam.

"O atual mandato do Lula se caracterizou do início ao fim pela comunicação deficiente. Não consegue capitalizar nem mesmo o que ele tem de positivo, que é a resistência ao tarifaço imposto por Trump ao Brasil. Foi um governo passivo, sem nenhum tipo de confronto. Foi conciliador em demasia e dirigido pelo Centrão", afirma".

Para ele, embora a Vila Euclides preserve enorme força simbólica para a trajetória pessoal de Lula, o ato deste domingo não representa propriamente uma volta às origens. "Em termos de conteúdo e estrutura, o PT hoje é um partido mais institucionalizado, que vive das verbas partidária e eleitoral e das estruturas que as instituições oferecem a quem tem cargo político, apesar de ainda ter respaldo dos movimentos sociais", diz Fornazieri.

 

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Lulinha e ex-chefe de gabinete

Reservadamente, aliados de Lula que participam da campanha dizem que já esperavam uma redução da vantagem de Lula nas últimas semanas, sobretudo depois que novas investigações passaram a atingir pessoas próximas ao presidente.

O principal foco de desgaste é Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho de Lula, alvo de três novos inquéritos da Polícia Federal por suspeitas de tráfico de influência. Dois deles foram autorizados pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), e outro é relatado pelo ministro Flávio Dino.

As investigações autorizadas por Mendonça apuram suspeitas de que Lulinha tenha usado sua proximidade com o governo para favorecer interesses privados. Uma delas investiga possível atuação em negócios do setor de cannabis medicinal junto ao Ministério da Saúde; a outra examina uma suposta interferência em contratos envolvendo a Dataprev, estatal vinculada ao governo federal. Até o momento, não há denúncia ou condenação contra o filho do presidente, que nega irregularidades.

Fábio Luís da Silva, known as Lulinha

Lula ao lado dos filhos Fábio Luís (ao centro) e Luís Cláudio em 2018, durante missa em São Bernardo do Campo (NELSON ALMEIDA / AFP/Getty Images)

O caso se aproximou ainda mais do núcleo presidencial quando veio a público que Marco Aurélio Santana Ribeiro, ex-chefe de gabinete de Lula conhecido como Marcola, havia recebido dinheiro de Roberta Luchsinger, empresária amiga de Lulinha investigada pela PF.

Marcola havia deixado a chefia de gabinete do presidente para trabalhar na coordenação das agendas da campanha à reeleição, mas se afastou da equipe depois da repercussão do episódio. Ele afirma que o dinheiro recebido de Luchsinger foi um empréstimo pessoal, de R$ 249 mil e já quitado.

Para Fornazieri, a campanha de Lula não conseguiu construir rapidamente uma resposta política. "Os marqueteiros não armaram uma estratégia de defesa para esses episódios e o governo chegou castigado ao início da campanha", afirma.

Economia, aliança e tempo de TV

Apesar de aparecer tecnicamente empatado com Flávio Bolsonaro nas pesquisas, Lula começa a campanha com vantagens estruturais que nenhum de seus 12 adversários conseguiu reproduzir. O petista é o único candidato presidencial apoiado por uma coligação de partidos. Sua aliança reúne sete legendas: as federações formadas por PT-PCdoB-PV e PSOL-Rede, além de PSB e PDT.

A aliança partidária garante ao presidente o maior espaço na propaganda eleitoral gratuita de rádio e televisão, 27% superior ao de Flávio Bolsonaro em cálculo da EXAME. A estimativa é que, somados dois blocos diários de propaganda presidencial, Lula disponha de 11 minutos e 4 segundos, contra 8 minutos e 40 segundos do candidato do PL.

A vantagem dá ao petista mais instrumentos para tentar reduzir sua rejeição, apresentar as entregas econômicas do governo e disputar eleitores menos ideológicos, considerados decisivos em uma eleição polarizada. Lula também preserva uma expectativa de vitória maior que a dos adversários: na Quaest divulgada em 14 de agosto, 56% dos entrevistados dizem acreditar que ele vencerá a eleição, independentemente de sua preferência, contra 27% que apostam em Flávio.

Debilidades da campanha de Flávio

Além disso, os problemas não se restringem ao campo governista. Flávio Bolsonaro chega ao início do período eleitoral já sob sucessivas crises. Uma delas envolve sua relação com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, ainda não plenamente explicada.

O senador reconheceu ter pedido ao banqueiro dinheiro para financiar Dark Horse, filme sobre seu pai, Jair Bolsonaro. Reportagens e mensagens reveladas durante as investigações mostraram a interlocução entre Flávio e Vorcaro e o senador prometeu divulgar a prestação de contas do filme, mas até agora não o fez. Sabe-se, apenas, que Vorcaro destinou ao menos R$ 63 milhões à produção.

Além disso, em julho, veio a público uma foto em que Flávio Bolsonaro e Luiz Phillipi Mourão, o 'Sicário', chefe de uma milícia privada organizada por Vorcaro, aparecem juntos, sem camisa. O senador, à época, disse não reconhecer a foto nem conhecer Mourão, morto em março de 2026.

O mais recente foco de críticas à campanha de Flávio foi a escolha do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice em sua chapa: a Polícia Federal faz uma apuração preliminar sobre uma acusação de estupro de vulnerável contra o parlamentar, que nega o crime. O caso está sob relatoria do ministro Gilmar Mendes, no STF, e ainda é marcado por versões contraditórias. A investigação busca determinar se há elementos que respaldem a abertura de um inquérito.

É nesse confronto de rejeições que a campanha começa. Lula e Flávio têm mais da metade do eleitorado dizendo que não votaria neles: 54% rejeitam o filho de Jair Bolsonaro e 52%, o presidente Lula.

Quase meio século depois de precisar da voz de milhares de metalúrgicos para fazer seu discurso chegar ao fundo do estádio da Vila Euclides, Lula retorna ao local para iniciar sua última campanha, munido de uma vantagem eleitoral ainda tímida, maior apoio partidário do que os adversários e mais tempo de televisão e rádio. O desafio agora é convencer uma parcela do eleitorado que já o conhece há décadas de que reelegê-lo é melhor do que devolver o poder à família que Lula derrotou quatro anos atrás.

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