Revista Exame

Canetas emagrecedoras turbinam vendas nas farmácias, mas não a bolsa

Ozempic, Wegovy, Mounjaro: a disrupção do GLP-1 é comparada à IA, mas o impacto em ações do varejo farmacêutico ainda é limitado

Sucesso nas vendas, perdas na bolsa: apesar da expansão acelerada do medicamento, as ações das principais varejistas farmacêuticas acumulam perdas em 2026 (Eduardo Frazão/Exame)

Sucesso nas vendas, perdas na bolsa: apesar da expansão acelerada do medicamento, as ações das principais varejistas farmacêuticas acumulam perdas em 2026 (Eduardo Frazão/Exame)

Publicado em 30 de julho de 2026 às 06h00.

O efeito das canetas emagrecedoras já chegou ao carrinho dos supermercados, às araras das lojas de roupa e à conta do bar. No ano passado, esse mercado movimentou US$ 66,4 bilhões, e até 2033 a previsão é chegar a US$ 185,3 bilhões.

No Brasil, projeções estimam que esse segmento pode saltar dos atuais R$ 10 bilhões para R$ 50 bilhões até o fim da década. As cifras vêm mexendo com os ponteiros de faturamento das farmácias, único canal oficial de vendas desses medicamentos no país. Mas não chegaram a de fato criar valor aos acionistas dessas empresas de maneira relevante. Na bolsa, os efeitos desse fenômeno foram bem moderados até agora.

Os análogos do GLP-1, como a liraglutida, a semaglutida e a tirzepatida, imitam um hormônio produzido naturalmente pelo organismo humano. Desenvolvidos inicialmente para o tratamento de diabetes, passaram a ser indicados também para obesidade.

Ao induzirem a sensação de saciedade como efeito colateral e levarem à perda de peso, as “canetinhas” provocaram uma revolução no dia a dia das pessoas. Segundo a NielsenIQ, aproximadamente 90% dos usuários alteraram os hábitos alimentares. Seis em cada dez reduziram os gastos com bares, restaurantes e lazer para bancar um tratamento que pode custar quase três salários mínimos por mês.

“É uma disrupção tão grande quanto a inteligência artificial”, compara Lucas Esteves, analista de varejo do Santander Brasil. O acesso a essa classe de medicamentos ainda é restrito, levando-se em conta a renda média do brasileiro. Estimativas do Itaú BBA apontam para uma base de até 2 milhões de usuários no país. O número não é desprezível, mas revela que há muito potencial a ser explorado.

Impacto para além das farmacêuticas: Riachuelo vê faltar peças PP e reduz modelagem com avanço das canetas emagrecedoras (Leandro Fonseca/Exame)

Hoje símbolo de status, as canetas emagrecedoras eram tabu. “Muitas pessoas tinham vergonha de dizer que estavam tomando e até deixavam de sair de casa por causa dos enjoos”, lembra Esteves.

Os primeiros tratamentos com canetas emagrecedoras utilizavam a liraglutida, agonista que demandava aplicações diárias. A semaglutida chegou em 2019 com o Ozempic, da Novo Nordisk, e as picadas passaram a ser semanais. O Wegovy, da mesma fabricante, desembarcou no mercado cinco anos depois com indicação específica para tratamento de obesidade.

A americana Eli Lilly elevou ainda mais o tíquete médio desse mercado ao trazer a tirzepatida para o Brasil em maio do ano passado, com tratamento mensal que pode custar entre R$ 3,1 mil e R$ 4,1 mil.

Além de ser um análogo do GLP-1, o Mounjaro também é agonista do hormônio GIP, estimulando a produção de insulina e reduzindo o apetite por alimentos ricos em açúcar. Chegou a ser conhecido como “Ozempic dos famosos” antes de ser lançado oficialmente no país. “Hoje as pessoas falam com orgulho que usam Mounjaro ou Ozempic”, diz o analista do Santander.

Em menos de dois anos, as canetas passaram de produto de nicho a uma fatia relevante das vendas de grandes redes do país.

O Itaú BBA calcula que o GLP-1 já responde por 12% da receita da RD Saúde, maior rede de farmácias do país, e estima que essa participação chegará a 19% até 2030. A RD faturou 12 bilhões de reais de receita bruta no primeiro trimestre deste ano. Procurada, a companhia optou por não participar da reportagem.

A Panvel, por sua vez, confirma que as canetas responderam por 11,2% do faturamento recorde de R$ 1,57 bilhão obtido nos três primeiros meses do ano. Só a receita com GLP-1 cresceu 88,4% em relação ao mesmo período em 2025, quando o Mounjaro ainda não era vendido no Brasil. Na Pague Menos, o crescimento foi ainda maior, de 157%, levando a participação dessa classe de medicamentos para 9,1% da receita.

O CEO da varejista cearense, Jonas Marques, estima que as canetas já tenham movimentado R$ 17,7 bilhões neste ano no Brasil, quase dobrando, em um semestre, a cifra do ano passado inteiro. Só a Pague Menos cresceu 80% em 2026 em relação ao mesmo período de 2025 com esse produto.

Levantamento da IQVIA calcula que a receita com GLP-1 no Brasil cresceu 110,5% no período de 12 meses até abril deste ano. As canetas foram fundamentais para o crescimento de dois dígitos (11,7%) do faturamento do varejo farmacêutico, de R$ 255,1 bilhões. Sem elas, a expansão teria sido de 8,6%.

Jonas Marques, CEO da Pague Menos: “O mercado de ­GLP-1 já movimentou 17,7 bilhões de reais neste ano” (Leandro Fonseca/Exame)

O efeito que não chegou

Na bolsa, a história é outra. As ações das principais varejistas farmacêuticas acumulam perdas em 2026. No acumulado do ano até 16 de julho, os papéis da RD Saúde recuaram 20,43%. Pague Menos caiu 43,19%. Panvel, cerca de 7%.

Ao explicar esse descompasso, analistas voltam ao ano de 2024, quando as empresas sofreram forte desvalorização com o avanço dos marketplaces sobre categorias de maior margem, como perfumaria e higiene pessoal. “Com Mercado Livre e Amazon ganhando espaço nesses segmentos, investidores passaram a questionar o potencial de margem das farmácias”, diz Lucas Esteves.

O cenário para as ações de farmácias também é impactado por fatores macroeconômicos, que vão além das canetas. Na condição de varejistas, essas empresas sofrem com juros elevados e o maior endividamento das famílias. A migração do investidor de bolsa para empresas de tecnologia nos Estados Unidos também reduziu o apetite pelos papéis do setor.

O efeito das canetas chega à aviação: a perda de peso dos passageiros pode ajudar a reduzir os custos das aéreas (Richards/AFP/Getty Images)

Mas o GLP-1 não passou totalmente despercebido pelos investidores e, por um tempo, até ajudou a melhorar a percepção sobre as companhias. Em 2025, com um produto de tíquete maior como o Mounjaro no mercado, as ações da Pague Menos subiram 92,7%, enquanto RD Saúde e Panvel avançaram 11,2% e 36,3%, respectivamente.

Neste ano, porém, o entusiasmo deu lugar a “um ajuste de expectativas”, segundo Luiz Guanais, analista de varejo e consumo do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME).

A quebra da patente da semaglutida abriu espaço para a entrada de concorrentes nacionais, e os preços dos medicamentos começaram a cair, sobretudo no último mês. O barateamento das canetas emagrecedoras promete levar para as farmácias brasileiras um consumidor que compra GLP-1 fora do mercado formal.

“Para cada caixa vendida hoje, duas podem estar sendo comercializadas via contrabando ou manipulação”, afirma o analista de varejo do BTG.

As redes têm a chance de absorver uma demanda hoje atendida por um mercado paralelo, que cresce à revelia da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Mas o investidor ainda tem dúvidas se as varejistas vão conseguir compensar com volume de vendas a queda relevante de preço.

“No curto prazo, o investidor enxerga apenas a queda dos preços. O aumento de volume e a melhora das margens dos genéricos ainda levam tempo para aparecer nos resultados”, explica Guanais.

Historicamente, os genéricos tendem a ser mais rentáveis para as farmácias do que os medicamentos com patente, que têm pouca flexibilidade de preços e envolvem custos maiores. “Medicamentos de referência costumam gerar margens brutas de 15% a 16% para as farmácias”, explica Esteves. Com os similares, as margens chegam a dobrar.

As redes de farmácias precisam investir em estoques de medicamentos de alto valor e em armazenamento e logística próprios para esse tipo de produto, o que pressiona o capital de giro.

“O evento das canetas emagrecedoras é mais positivo do que negativo para o setor, mas talvez não na magnitude que se esperava. O mercado percebeu que elas aumentam as vendas, mas não necessariamente as margens”, diz Renato Cesar Chanes, analista da Ágora Investimentos.

Os números das varejistas farmacêuticas no segundo trimestre de 2026 não devem impressionar tanto quanto os do primeiro. Pela primeira vez vão ser comparados a um período em que o Mounjaro já estava no mercado.

“Os resultados das drogarias ainda vão ser bons, mas com alguma desaceleração”, prevê Guanais. “A expectativa é que a redução dos preços impulsione os volumes e faça o crescimento acelerar ao longo do ano.”

Na Panvel, o avanço nas vendas de GLP-1, que chegou perto da casa dos 90%, “tende a ficar mais próximo dos 40% ou 50%”, diz Antônio Napp, CFO da companhia. “É um ritmo mais estrutural, porém ainda muito forte.”

Mounjaro na bolsa: impulsionada pelos medicamentos para obesidade, a Eli Lilly ultrapassou 1 trilhão de dólares em valor de mercado (Angela Weiss/AFP/Getty Images)

Um ano de Mounjaro no Brasil

Se o varejo farmacêutico ainda não respondeu conforme o esperado ao fenômeno do GLP-1, o mesmo não se pode dizer das farmacêuticas que produzem esses medicamentos.

Em novembro passado, a Eli Lilly se tornou a primeira empresa do setor a ultrapassar o valor de mercado de 1 trilhão de dólares, entrando em um clube seleto de companhias dominado pelas big techs. O valor das ações quintuplicou em cinco anos.

No Brasil, mercado onde as “canetinhas” estão presentes em 4,6% dos lares, segundo a Nielsen, o Mounjaro movimentou R$ 13,54 bilhões em vendas desde que foi lançado. O desempenho surpreendente da tirzepatida fez a Eli Lilly revisar suas projeções para o país.

A expectativa é que a receita da operação brasileira mais do que dobre em 2026 em relação a 2025. A companhia estima que o Mounjaro já tenha impactado quase 3 milhões de pacientes brasileiros.

A patente da tirzepatida dura até junho de 2036, o que dá um bom fôlego para a empresa até a entrada de similares. Mas isso não a deixa imune às pressões do mercado, avaliam os analistas.

Em junho, a EMS lançou o Ozivy, a primeira caneta de semaglutida produzida no Brasil com o aval da Anvisa. E a farmacêutica entrou na corrida disposta a dar trabalho à concorrência, com preços 30% mais baixos que os praticados no mercado. As vendas começaram com duas canetas de 1 mg por R$ 863,22, o equivalente a R$ 431,61 por unidade.

Em menos de um mês, outra promoção baixou o preço do medicamento para pouco mais de R$ 300. Após o lançamento do “Ozempic brasileiro”, a fabricante americana também lançou um programa de descontos em pacotes combinados do Mounjaro que variam de R$ 2,25 mil a R$ 4,5 mil.

Antônio Napp, CFO da Panvel: “O crescimento de 80% deve desacelerar para 40% a 50%, o que é um ritmo estrutural, mas ainda forte” (Leandro Fonseca/Exame)

“Ainda que a semaglutida seja um medicamento menos efetivo que a tirzepatida, não deixa de ser uma pressão para a Eli Lilly. Isso se soma aos problemas que a empresa enfrenta hoje com o mercado informal”, afirma Guanais.

A Eli Lilly reconhece “um crescimento preocupante” de produção industrial da tirzepatida disfarçada de manipulação, além de contrabando de produtos que chegam ao país sem garantia de procedência.

“Temos conhecimento de amostras com contaminação, impurezas e até substâncias completamente diferentes do que anunciavam. Esse é o problema de saúde pública que nos preocupa — muito mais do que qualquer disputa de mercado”, diz Felipe Berigo, diretor-executivo da unidade de Cardiometabolismo da Eli Lilly.

A Novo Nordisk perdeu espaço com a queda da patente da semaglutida. Na bolsa, as ações da farmacêutica despencaram quase 48% em 2025 e seguem no vermelho neste ano, com queda superior a 0,6%. Agora, a companhia busca recuperar o fôlego apostando na ampliação do acesso, novas indicações e expansão do portfólio.

A empresa tenta incluir o GLP-1 no sistema público de saúde e recentemente fez um segundo pedido à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). A primeira tentativa foi rejeitada no ano passado. Desta vez, a companhia defende um escopo mais restrito para o medicamento no SUS, voltado a pacientes de maior risco cardiovascular.

No México, a abertura de uma loja oficial da Novo Nordisk dentro do Mercado Livre, em junho, chamou a atenção dos investidores e chegou a provocar reação negativa nas ações de farmácias brasileiras, diante do temor de que um modelo semelhante pudesse reduzir o papel das varejistas como intermediárias da venda de medicamentos.

“A parceria entre a Novo Nordisk e o Mercado Livre no México é uma iniciativa local, desenvolvida de acordo com o contexto regulatório e comercial daquele país. Globalmente, a companhia continua acompanhando e avaliando inovações nos canais de distribuição”, disse a empresa. No Brasil, medicamentos com prescrição médica ainda não podem ser vendidos por marketplace.

O futuro das canetas

Tanto Novo Nordisk quanto Eli Lilly avançam no desenvolvimento de versões orais dos tratamentos, uma mudança que pode ampliar o acesso e transformar novamente a dinâmica da categoria, principalmente na América Latina, avalia o BTG.

A Novo já submeteu à Anvisa o pedido de aprovação da versão oral do Wegovy (semaglutida oral) para sobrepeso e obesidade, enquanto a Lilly também trabalha em alternativas sem aplicação injetável. “É o ciclo de vida de um produto farmacêutico.

As moléculas atuais tendem a perder valor com o tempo, à medida que expiram as patentes, surgem genéricos e os preços caem. Ao mesmo tempo, a indústria investe no desenvolvimento de tratamentos mais eficazes e com menos efeitos adversos”, afirma Chanes, da Ágora.

Ozempic: Novo Nordisk tenta recuperar o fôlego com ampliação de acesso, novas indicações e expansão do portfólio (Florian Gaertner/Photothek /Getty Images)

Alguns analistas temem que o GLP-1 possa ser o novo Viagra. A pílula azul também chegou ao mercado com preço alto e acesso restrito, até que a quebra de patente o transformou em um produto massificado. Mas executivos do varejo farmacêutico minimizam a comparação.

O CEO da Pague Menos diz que as canetas fazem parte de uma revolução médica. “É comparável à penicilina. O GLP-1 é a droga do século. Trabalhei 30 anos na indústria farmacêutica global, em três continentes, e nunca vi uma droga com tantos benefícios”, diz Marques.

A indústria farmacêutica já encontrou sua nova mina de ouro. O desafio agora é convencer a bolsa de que esse apetite bilionário também será capaz de engordar os lucros das varejistas e os preços de suas ações.

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