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Patente do Ozempic cai em cinco dias. Quais empresas se beneficiam?

Com a quebra da exclusividade da semaglutida, empresas como Hypera Pharma, Biomm, EMS e Eurofarma se posicionam para disputar o mercado das canetas emagrecedoras, que já movimenta bilhões no Brasil

Ozempic: Novo Nordisk ainda tenta reverter quebra de patente (Roberto Pfeil/picture alliance/Getty Images)

Ozempic: Novo Nordisk ainda tenta reverter quebra de patente (Roberto Pfeil/picture alliance/Getty Images)

Caroline Oliveira
Caroline Oliveira

Colaboradora na Exame

Publicado em 15 de março de 2026 às 08h00.

A patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic, cairá em 20 de março no Brasil. O mesmo ocorrerá em outros mercados relevantes, como China, Índia, Turquia e Canadá.

Baseado em hormônios intestinais que regulam a liberação de insulina e o apetite, o medicamento tornou-se um fenômeno comercial nos últimos anos. O mercado das chamadas “canetas emagrecedoras” movimentou cerca de R$ 10 bilhões no Brasil, após praticamente dobrar de tamanho no último ano.

A coincidência das datas de expiração nesses mercados estratégicos representa um desafio para o o laboratório dinamarquês Novo Nordisk, detentor da exclusividade do medicamento. Isso porque esses países juntos concentram cerca de 40% da população mundial e aproximadamente 33% das pessoas com obesidade no planeta.

A perda da exclusividade de produção pode gerar perdas bilionárias para o detentor da patente ao longo do tempo, à medida que versões genéricas e biossimilares chegam ao mercado. Ao mesmo tempo, abre uma disputa entre farmacêuticas interessadas em entrar em um segmento altamente lucrativo, impulsionado pelo crescimento da obesidade e pela forte demanda por tratamentos eficazes.

Disputa entre concorrentes

Com o fim da exclusividade, fabricantes de genéricos e biossimilares passam a disputar espaço em um mercado restrito a poucos participantes, como o Novo Nordisk e o Eli Lilly, fabricante do Zepbound e Mounjaro.

A nova geração de medicamentos baseados em agonistas do receptor GLP-1 — classe terapêutica à qual a semaglutida pertence — tornou-se um dos principais motores de crescimento da indústria farmacêutica global.

No Brasil, farmacêuticas com forte presença em medicamentos similares e genéricos podem se beneficiar da abertura do mercado. Entre elas estão empresas como a Hypera Pharma, a Biomm, a EMS, a Eurofarma e a Cimed, que têm capacidade industrial para o desenvolvimento das canetas e, inclusive, já possuem solicitações regulatórias em andamento.

A Eurofarma, por exemplo, lançou, em outubro de 2025, duas versões de semaglutida em parceria com a Novo Nordisk: Poviztra, voltado para obesidade e sobrepeso, e Extensior, destinado ao tratamento do diabetes tipo 2.

Já o presidente da Hypera, Breno Oliveira, afirmou na sexta que a farmacêutica deverá ter uma grande aceleração de vendas nos próximos meses com a quebra da patente. Durante conferência com analistas após a publicação dos resultados da Hypera no quarto trimestre, o executivo disse que, por enquanto, nenhuma autorização foi dada pela Anvisa, mas que acredita que serão um dos primeiros a ter o registro avaliado pela agência.

No Brasil, as aprovações para a produção de semaglutida devem começar a ser concedidas nas próximas semanas, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ainda assim, a falta de regulamentação definitiva às vésperas da queda da patente pode provocar atrasos na chegada dos novos medicamentos às farmácias.

A EMS, maior farmacêutica do país e uma das empresas mais adiantadas no processo de registro, afirma que suas canetas poderão chegar às farmácias cerca de três meses após a aprovação da Anvisa. Desde o ano passado, a farmacêutica já produz fármacos baseados na liraglutida, outra molécula da Novo Nordisk cuja patente expirou anteriormente. Nesse cenário, as vendas poderiam começar ainda no segundo semestre.

Mesmo assim, o cronograma ainda depende de fatores logísticos e regulatórios. A importação de insumos, a escala de produção e a distribuição em um país de dimensões continentais podem provocar atrasos adicionais.

Preço ao consumidor

Apesar da expectativa de maior concorrência, a queda de preços pode ser mais limitada do que se imagina inicialmente. Nenhuma das canetas brasileiras deverá ser classificada como genérica, categoria que exige um desconto mínimo de 35% em relação ao medicamento de referência. Os registros submetidos à Anvisa são, em sua maioria, de produtos similares, classificação que permite descontos menores, em torno de 20%.

Com base nos preços atuais, isso significa que as versões nacionais poderiam chegar ao mercado a partir de R$ 1.039,76, considerando que o Ozempic hoje custa cerca de R$ 1.299,70.

Ainda assim, não se descarta uma disputa mais agressiva por preços. Após a queda da patente, a Novo Nordisk pode ampliar descontos para tentar conter o avanço de concorrentes brasileiros, que, por sua vez, também podem reduzir preços para ganhar participação no mercado.

Na semana passada, a farmacêutica dinamarquesa anunciou promoções para o Wegovy: a caneta com a dose inicial passou a ser oferecida gratuitamente na compra de uma unidade com dosagem mais alta, utilizada posteriormente pelo paciente após a fase inicial de adaptação ao medicamento.

Novo Nordisk pode contestar quebra de patente

A empresa ainda avalia recorrer da decisão judicial que negou a extensão de sua patente, solicitada sob a justificativa de compensar o tempo necessário para a concessão do registro. No Brasil, o prazo de 20 anos de proteção começa a contar a partir do pedido da patente, e não da data de concessão.

A Novo Nordisk argumenta que teria perdido anos de exclusividade aguardando a análise do registro e, por isso, deveria ter direito a uma prorrogação. Segundo a companhia, a extensão permitiria manter a exploração exclusiva da molécula presente no Ozempic e no Wegovy por mais 12 anos, o que levaria a proteção até 2038.

Após derrotas no Superior Tribunal de Justiça (STJ), a farmacêutica pode levar a discussão ao Supremo Tribunal Federal (STF). Especialistas, no entanto, consideram improvável uma reversão, já que a decisão poderia afetar não apenas o caso do Ozempic, mas todo o sistema de patentes do país.

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