Revista Exame

Eleição do cansaço: eleitor mantém Lula e Flávio no centro da disputa, mas dá sinais de desânimo

Pesquisas mostram fadiga da polarização, enquanto esquerda e direita encaram o desafio da sucessão de lideranças

Corrida eleitoral: eleitor médio não está empolgado com as candidaturas  de Lula e Flávio, mas a polarização entre ambos está consolidada (Nelson Almeida/AFP/Getty Images)

Corrida eleitoral: eleitor médio não está empolgado com as candidaturas de Lula e Flávio, mas a polarização entre ambos está consolidada (Nelson Almeida/AFP/Getty Images)

Ivan Martínez-Vargas
Ivan Martínez-Vargas

Repórter especial em Brasília

Publicado em 30 de julho de 2026 às 06h00.

O mundo era outro quando, em 1940, pesquisadores da Universidade de Columbia passaram sete meses acompanhando 600 eleitores em um condado de Ohio, nos Estados Unidos. Não havia televisão, internet ou redes sociais, e os americanos ainda não haviam entrado na Segunda Guerra Mundial. Paul Lazarsfeld, Bernard Berelson e Hazel Gaudet estudaram, por sete meses, para saber quem mantinha o voto, seguia indeciso ou mudava de candidato nas eleições presidenciais naquele ano e, principalmente, por quê. O trabalho deu origem a The People’s Choice, e a conclusão foi que as campanhas e a cobertura midiática não costumam transformar, em massa, as opiniões do público. Em geral, apenas reforçam predisposições e consolidam escolhas que já vinham sendo formadas.

Quase nove décadas depois, a eleição brasileira de 2026 expõe um paradoxo. O eleitor demonstra cansaço em relação aos protagonistas da polarização, mas continua orbitando em torno deles. Luiz Inácio Lula da Silva tenta um quarto mandato aos 80 anos. Flávio Bolsonaro busca herdar o capital político de Jair Bolsonaro, que cumpre pena de 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado em 2022. O desejo de renovação do eleitorado brasileiro aparece nas pesquisas, mas ainda não se converteu em apoio relevante a uma alternativa.

A pesquisa do instituto Quaest de julho resume essa contradição. Lula tem 40% das intenções de voto no primeiro turno, contra 28% de Flávio. Num eventual segundo turno, o presidente aparece com 45%, ante 37% do senador. Ao mesmo tempo, 51% dizem que Lula não merece mais quatro anos no Palácio do Planalto. Flávio, por sua vez, tem rejeição de 57%, a maior entre os nomes testados.

Lula, pré-candidato à reeleição: o petista vai disputar sua última eleição presidencial aos 80 anos como incumbente. O presidente é o favorito na disputa, apesar dos modestos índices de aprovação de seu governo (Ricardo Stuckert/Lula Oficial/Flickr)

O resultado antecipa uma transição que irá além das urnas. Depois de 2026, a esquerda terá de encontrar uma liderança capaz de manter unida a coalizão hoje organizada por Lula. A direita decidirá se continuará sob o comando dos Bolsonaro ou se migrará para outro nome conservador ou radical. Quem vier depois terá de governar um país mais velho, com mais pressão sobre a Previdência, a saúde e as contas públicas, além de responder a mudanças no trabalho, na tecnologia e nas bases sociais do eleitorado.

O cientista político Antônio Lavareda, presidente do conselho do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), recorre ao The People’s Choice para lembrar que a eleição não se decide apenas pela preferência declarada. Mobilização também pesa. Em julho, segundo o Ipespe, apenas 16% dos brasileiros disseram ter muito interesse pelo pleito, praticamente a mesma proporção de quatro anos atrás. Outros 55% afirmaram ter algum interesse, percentual também estável.

A estabilidade esconde um envolvimento limitado. Em uma disputa apertada, o lado mais mobilizado tende a ter vantagem no comparecimento. “Quem perde mais eleitores para a abstenção? O lado que tiver eleitores menos entusiasmados”, diz Lavareda. Para os mais pobres, votar envolve custos diretos e indiretos, como transporte, tempo e organização da rotina. Quanto menor a motivação, maior o risco de a intenção captada na pesquisa não chegar à urna. O baixo entusiasmo também dificulta a entrada de alternativas no campo de visão do eleitor. Em sondagem do Ipespe, sete de cada dez entrevistados se lembram de que Lula e Flávio são candidatos neste ano. Ronaldo Caiado, terceiro mais lembrado, aparece em cerca de 30% das respostas. Em uma campanha curta, reconhecimento vale mais do que novidade.

Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência: senador acumula reveses, como a percepção pública de que ele é responsável pelo tarifaço dos EUA contra o Brasil, sua relação com Daniel Vorcaro e conflitos com Michelle (Vittor Sales/PL/Divulgação)

Terceira via improvável

Ainda há espaço para movimento, mas ele tem se reduzido, o que leva à conclusão de que a polarização, em 2026, está cristalizada, com um favoritismo pelo menos momentâneo de Lula. Os indecisos passaram de 5% em abril para 11% em julho, segundo dados da Quaest; outros 35% afirmam que ainda podem mudar de voto, mas esse contingente caiu em relação a abril (quando era de 43%), sinal de que parte do eleitorado começa a fechar posição sem necessariamente estar animada com a escolha.

Lourdes Sola, pesquisadora sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP, avalia que o sentimento prevalecente no eleitorado é, de fato, um desencanto, mas não indignação, o que é positivo. A distinção ajuda a explicar por que o desejo de mudança ainda não abriu caminho para um outsider. A indignação, argumenta a cientista política, tende a abrir espaço para outsiders com discurso radical. O desencanto, por outro lado, tende a produzir afastamento e voto defensivo.

Para ela, parte do centro e da centro-direita tenta se afastar do bolsonarismo sem aderir a Lula, mas ainda não encontrou um nome com força nacional.

Renovação não chega às urnas

O desgaste de Lula tem um componente geracional. O presidente participa da vida pública desde o fim dos anos 1970, e disputou a Presidência pela primeira vez em 1989. Hoje, em seu terceiro mandato, prepara-se para concorrer à sua sétima eleição presidencial. Cláudio Couto, professor da Fundação Getulio Vargas, identifica uma espécie de fadiga que alcança até mesmo eleitores dispostos a votar no presidente. “É muito tempo de estrada. Parte do público gostaria de uma mudança de guarda, mas pode escolher Lula novamente por não enxergar um sucessor com força para enfrentar a direita”, afirma ele. A leitura é reforçada pelos dados: 51% disseram à Quaest em julho que Lula não merece outro mandato, mas eram 59% em abril. Entre os independentes, a parcela contrária caiu de 71% para 54%, enquanto a favorável subiu de 22% para 38%. A melhora acompanhou a recuperação do governo: a aprovação chegou a 48%, ante 47% de desaprovação.

Envelhecimento da população: o Brasil terá, a partir de 2030, a população idosa superando em 20% a de crianças (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Pesa nessa conta a sucessão de crises em que a pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) está envolvida, desde a revelação de sua relação próxima com o banqueiro Daniel Vorcaro, que a pedido dele investiu, de maneira sigilosa, 63 milhões de reais na produção de Dark Horse, filme que retrata a vida de Jair Bolsonaro. As rusgas públicas de Flávio com a madrasta, Michelle, e sua identificação pela maioria do eleitorado como um dos responsáveis pelo novo tarifaço dos Estados Unidos contra o Brasil também dificultam o desenvolvimento de sua candidatura. Flávio também enfrenta um problema diferente. Sua candidatura representa renovação de idade, mas depende da continuidade política da família. Entre junho e julho, ele perdeu apoio entre eleitores da direita não bolsonarista, de 82% para 74%. Para Couto, a queda de Flávio e a recuperação de Lula são movimentos relacionados. “Se o Flávio piora, quem olha para o Lula começa a achá-lo um pouco melhor”, diz. Em uma eleição de rejeições elevadas, o voto pode expressar menos adesão do que comparação.

Para além dos problemas de seu opositor, favorecem Lula os números da economia brasileira, que têm desemprego em baixa, -inflação anual abaixo dos 5% e crescimento, ainda que tímido, do PIB. Nesse quadrante econômico, Lavareda afirma que há também um paradoxo. Dois terços dos brasileiros disseram à Quaest que os alimentos encareceram nos últimos 12 meses, e 55% consideram mais difícil encontrar emprego. Só 20% afirmam que a economia melhorou nesse período, enquanto 43% enxergam piora. “Quem olha esse quadro pode pensar que o presidente tem pouca chance de se reeleger, mas o que conta mais para o eleitor não é a percepção sobre o passado, e sim sua perspectiva, ou sua esperança, em relação ao futuro. E isso ainda é positivo”, afirma ele. Quando a pergunta se volta para o futuro, 39% dos entrevistados esperam melhora da economia, e só 27% preveem deterioração.

Polarização protege favoritos

A dificuldade de Caiado, Romeu Zema e Renan Santos não decorre apenas do baixo conhecimento. O sistema de dois turnos leva o eleitor a acompanhar o primeiro já pensando no duelo final. Pesquisas, alianças e voto útil antecipam a pergunta sobre quem tem mais chance de derrotar o adversário rejeitado. Lavareda argumenta que o segundo turno organiza a lógica do primeiro desde o início. No Brasil, esse mecanismo se combinou com uma divisão sedimentada desde 1994 entre o PT e uma força antipetista. Primeiro foi o PSDB. Desde 2018, o bolsonarismo ocupa esse espaço. O petismo e o antipetismo continuam estruturando as disputas nacionais, avalia Couto, ainda que o nome da direita possa mudar. Por isso, o enfraquecimento de Flávio não beneficia automaticamente uma terceira via. Pode levar votos a outro conservador, mas também melhora a posição relativa de Lula. Uma piora na avaliação do governo, da mesma forma, tende primeiro a recompor o campo bolsonarista. Emanoelton Borges, CEO da Alfa Inteligência, estima que cerca de um quarto do eleitorado deseja uma terceira opção. O problema, segundo ele, é que os candidatos alternativos ainda se concentram em debates ideológicos, enquanto o eleitor menos identificado com os polos quer respostas para segurança pública, economia e saúde. O centro, nessa leitura, não busca necessariamente moderação. Busca eficácia.

Direita além dos Bolsonaro

Uma derrota de Flávio seria o segundo revés presidencial consecutivo do bolsonarismo. Isso enfraqueceria a sucessão familiar, mas não eliminaria a direita radical consolidada desde 2018. “A perspectiva do bolsonarismo como dinastia me parece frágil. O que não me parece frágil é como movimento”, diz Sola. A rejeição a Flávio pode afastar setores do centro e da direita tradicional, sem dissolver as identidades e os ressentimentos que sustentam a base bolsonarista. Para Couto, a ultradireita ganhou autonomia e pode caminhar sem depender de um Bolsonaro na cabeça da chapa. Se a família perder hegemonia, governadores, parlamentares ou lideranças surgidas fora dos partidos tradicionais poderão disputar esse eleitorado. Aldo Fornazieri, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, vê Tarcísio de Freitas como um dos nomes mais bem posicionados. A opção pela reeleição em São Paulo preserva sua estrutura e pode projetá-lo para 2030. Fornazieri também chama atenção para a capacidade da direita de lançar lideranças jovens e mobilizar afetos nas ruas, nas redes e na religião. Nesse campo, lideranças como Michelle Bolsonaro e Nikolas Ferreira têm um ativo que falta à centro-direita tradicional: a capacidade de mobilizar uma base engajada e relativamente fiel.  A sucessão não precisa restaurar o modelo do antigo PSDB. O espaço pode ser ocupado por uma liderança mais radical, combinando -antipetismo, -conservadorismo nos costumes e discurso duro sobre segurança. As eleições estaduais ajudarão a definir quem chegará a 2030 com mandato, partido e projeção nacional.

Esquerda sem Lula

A sucessão também é difícil na esquerda porque Lula não apenas lidera o PT eleitoralmente. O presidente arbitra conflitos, organiza distintas correntes e mantém sob a sua candidatura grupos com opiniões diferentes em temas diversos, dos costumes à economia. “O Brasil sem Lula na urna começa no dia seguinte ao segundo turno”, resume Lavareda. Mesmo reeleito, o presidente abrirá imediatamente a disputa por 2030. À direita, Tarcísio, Zema e outros nomes já possuem bases próprias. Na esquerda, possíveis sucessores ainda dependem mais do endosso de Lula. Fernando Haddad, João Campos e Camilo Santana aparecem entre as possibilidades, mas nenhum reúne hoje a centralidade política e o alcance popular do presidente. Para Fornazieri, Lula sempre foi maior do que o PT. Sua saída tende a agravar as dificuldades do partido para eleger bancadas, prefeitos e lideranças nacionais.

Há também uma crise de narrativa. Fornazieri avalia que a esquerda perdeu capacidade de mobilizar afetos e de oferecer um horizonte convincente. O discurso centrado em programas sociais já não basta para responder às inseguranças produzidas pela crise ambiental, pelas guerras, pela tecnologia e pela sensação de instabilidade permanente. A direita radical explora medo, religião e ressentimento com mais eficácia. Lourdes Sola amplia o diagnóstico. Para ela, está em crise não apenas uma liderança, mas um projeto. O campo progressista ainda não formulou respostas mobilizadoras para a globalização, a inteligência artificial e as mudanças no trabalho. Concentrada na defesa das instituições e na reação à extrema direita, a esquerda deixou em segundo plano uma agenda própria para o futuro.

Obra no Rio de Janeiro: próximo governo terá de conciliar investimentos com maior pressão sobre as contas públicas, a Previdência e os serviços públicos (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

A troca geracional na política ocorrerá ao mesmo tempo que o Brasil envelhece. O fim do bônus demográfico reduzirá proporcionalmente a população em idade de trabalhar e ampliará a pressão sobre Previdência, saúde e contas públicas. Para Sola, essa mudança obrigará o sistema político a enfrentar novas reformas previdenciária e administrativa num ambiente de baixa confiança institucional e fragmentação partidária. Um país mais velho demandará mais gastos com aposentadorias, cuidados de longa duração e doenças crônicas, enquanto terá uma parcela relativamente menor da população financiando esses sistemas.

A sociedade também se tornou mais escolarizada e urbana. O eleitor com ensino médio ganhou peso, e as antigas bases sociais já não respondem aos mesmos mecanismos de mobilização. Identidades partidárias convivem com cobranças por segurança, renda, serviços públicos e oportunidades num mercado de trabalho afetado pela tecnologia. A eleição de 2026 talvez não entregue a renovação desejada por parte dos brasileiros. Lula e Flávio continuam sendo os principais beneficiários das predisposições acumuladas nos últimos anos. Como observaram Lazarsfeld, Berelson e Gaudet, campanhas tendem mais a consolidar escolhas do que a produzir conversões em massa. Depois das urnas, porém, esquerda e direita terão de procurar sucessores e projetos para um país diferente daquele que produziu a polarização atual. Mais velho, com menor margem fiscal e novas demandas sociais, o Brasil exigirá respostas que não cabem apenas na repetição do lulismo ou do bolsonarismo. O paradoxo de 2026 está aí: a eleição pode reproduzir a disputa do passado enquanto acelera a transição para o futuro.

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