Invest

Canetas emagrecedoras movimentarão R$ 50 bi até 2030: quem ganha e perde na bolsa

A expansão impulsionada pela entrada de genéricos deve redesenhar o consumo, favorecer farmácias e pressionar empresas de alimentos, diz o Itaú BBA

Canetas emagrecedoras: mercado pode saltar de R$ 10 bilhões alcançados em 2025 para cerca de R$ 50 bilhões até 2030 (Steve Christo - Corbis/Getty Images)

Canetas emagrecedoras: mercado pode saltar de R$ 10 bilhões alcançados em 2025 para cerca de R$ 50 bilhões até 2030 (Steve Christo - Corbis/Getty Images)

Publicado em 30 de março de 2026 às 13h12.

A rápida expansão das chamadas canetas emagrecedoras, medicamentos da classe GLP-1 como Ozemapic, Wegovy e Mounjaro, vem deixando de ser apenas uma tendência de saúde para se tornar uma força de transformação econômica, de acordo com analistas do Itaú BBA.

Em relatório, o banco apontou que esse mercado pode saltar de R$ 10 bilhões alcançados em 2025 para cerca de R$ 50 bilhões até 2030. "Entendemos que se trata de um fator de crescimento estrutural", destacaram os analistas Kelvin Dechen, Gustavo Troyano e Lucca Marquezini.

O crescimento projetado tem como principal gatilho a ampliação do acesso. Neste mês, essa indústria foi marcada pela queda da patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic, o que abriu caminho para a entrada de versões mais baratas, ainda que de forma gradual.

Hoje, o alto custo limita o uso a uma base estimada entre 1,5 milhão e 2 milhões de brasileiros, segundo o Itaú BBA, mas a expectativa é de que a redução de preços destrave uma demanda significativamente maior ao longo dos próximos anos.

Para os analistas, esse movimento não apenas amplia o mercado farmacêutico, como também redesenha padrões de consumo. "Trata-se de um vetor estrutural de crescimento, e não de uma tendência passageira", dizem em um trecho do documento.

Farmácias largam na frente

Entre os principais beneficiados estão as grandes redes de farmácias. Empresas como Raia Drogasil (RADL3), Panvel (PNVL3) e Pague Menos (PGMN3) têm capturado de forma desproporcional o crescimento desse mercado.

Em 12 meses, a ação de Pague Menos subiu 104%, enquanto Panvel registrou alta de 70% e Raia Drogasil subiu 24%. Segundo o relatório, essas companhias possuem participação no segmento de GLP-1 cerca de duas vezes superior à sua fatia no varejo farmacêutico total. O motivo está no perfil do produto que vão de medicamentos de alto valor, com forte giro e capazes de atrair fluxo para as lojas.

"As canetas emagrecedoras vêm ganhando participação no mix de receitas, atingindo, em média, cerca de 10% das vendas no quarto trimestre, ante aproximadamente 4/5% no mesmo período do ano anterior. Dessa forma, têm se consolidado como um vetor relevante de crescimento para o setor", afirma.

Mesmo com a expectativa de queda de preços com a chegada dos genéricos, o efeito líquido tende a ser positivo de acordo com a instituição financeira. A redução do custo deve ampliar o número de consumidores, compensando eventuais pressões de margem e sustentando o crescimento de receita e das ações no setor.

"Dadas as diversas incertezas envolvidas, entendemos que é difícil precificar integralmente esse movimento neste momento. Assim, avaliamos que a entrada dos genéricos tende a destravar valor para o setor e para as farmácias sob nossa cobertura, sustentando uma boa performance das ações", afirmam os analistas.

Ambev, M. Dias Branco e Camil entram no radar de risco

Se de um lado há vencedores, do outro começam a surgir sinais de alerta. O relatório também destaca que o uso desses medicamentos pode reduzir significativamente a ingestão calórica, em alguns casos, em até 40% em determinadas categorias, segundo estudos internacionais.

No Brasil, empresas como Ambev (ABEV3), M. Dias Branco (MDIA3) e Camil Alimentos (CAML3) aparecem como mais expostas a esse risco.

Isso porque seus portfólios estão concentrados em categorias que tendem a perder espaço no consumo de usuários de GLP-1, como bebidas alcoólicas, massas, biscoitos, arroz e produtos ricos em açúcar.

"Apesar disso, o impacto atual ainda é limitado, pois a base de usuários no Brasil permanece em níveis baixos e representa apenas uma parcela pouco relevante do mercado endereçável", disseram.

O banco pondera que, para mitigar esses efeitos, as empresas também vêm ampliando seu portfólio com linhas de produtos mais saudáveis que podem substituir itens tradicionais.

Proteína e Hyera viram oportunidade

Em contrapartida, a mudança de hábitos alimentares abre espaço para novas avenidas de crescimento. A perda de peso associada ao uso das canetas pode levar à redução de massa magra, estimulando uma maior demanda por proteínas para recomposição muscular.

Esse movimento posiciona o Brasil de forma estratégica, segundo o Itaú BBA, como fornecedor relevante de alimentos proteicos, uma tendência já observada globalmente e que pode beneficiar empresas expostas a essa cadeia.

No setor de saúde, a Hypera (HYPE3) desponta como uma das principais candidatas a capturar essa nova onda de crescimento. O banco avalia que a companhia pode entrar no mercado com versões mais acessíveis desses medicamentos, possivelmente a partir de 2026.

A estratégia, no entanto, envolve custos relevantes no curto prazo, como investimentos em marketing, força de vendas e promoção médica. Ainda assim, o movimento é visto como uma “nova avenida de crescimento”, com potencial de destravar valor no médio prazo, ainda que não totalmente precificado pelo mercado.

"Em termos de valor para a ação, o impacto depende muito do ritmo de adoção e da participação de mercado conquistada, funcionando hoje mais como uma opcionalidade do que como algo totalmente refletido no preço".

Acompanhe tudo sobre:MercadosOzempicObesidadeFarmáciasEmpresas abertasAçõesIbovespabolsas-de-valores

Mais de Invest

BTG lança assistente de IA que consolida despesas e gera previsão de gastos

Novas regras do Consignado do INSS reduzem limites, mas ampliam prazo de pagamento

A Marisa vai fechar? Entenda o que está acontecendo com a varejista de moda

Ibovespa cai forte com cenário eleitoral e dólar volta a ficar acima de R$ 5