Revista Exame

O código virou arte

O Figma virou sinônimo para a criação de aplicativos, mas enfrenta uma pergunta desconfortável da era da IA: se qualquer um pode criar, quem paga por uma ferramenta de design?

O CEO do Figma Dylan Field no palco do Config: ele comandou a década que levou o Figma do navegador à Bolsa de Nova York, e agora aposta a empresa na era da IA (Figma/Divulgação)

O CEO do Figma Dylan Field no palco do Config: ele comandou a década que levou o Figma do navegador à Bolsa de Nova York, e agora aposta a empresa na era da IA (Figma/Divulgação)

André Lopes
André Lopes

Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 30 de julho de 2026 às 06h00.

Cerca de 10.000 participantes lotaram o Moscone Center, um dos principais centros de eventos de São Francisco, para ver as novidades do Figma, a plataforma de design usada por dois terços das empresas do índice Fortune 500, que reúne as maiores dos Estados Unidos. Não se via nem sequer um terno na Config, a conferência anual da companhia. Jovens de ecobag, Adidas Samba e New Balance circulavam com MacBooks e copos de matchá. Nas paredes do espaço, que costuma receber encontros corporativos como a Dreamforce, da Salesforce, grafismos e ilustrações em verde-limão, laranja e azul tomavam conta do ambiente, quase como um mural de escola de arte — e não um evento de tecnologia. É a cara do Figma: mesmo depois de abrir capital na Bolsa de Nova York, em julho de 2025, e virar um negócio avaliado em 12 bilhões de dólares, a empresa continua se vestindo como a startup que nasceu em 2012.

O Figma é uma espécie de Google Docs do design. Em vez de texto, o que se cria ali são as telas de aplicativos e sites, botões, menus, cada passo do caminho que o usuário percorre, com uma equipe inteira desenhando no mesmo arquivo, ao mesmo tempo, rodando de qualquer navegador. Antes de um aplicativo de banco ou de delivery chegar ao celular, ele segue um processo de silos, sendo concebido por designers e programado por desenvolvedores. Foi nesse cenário colorido que o cofundador e CEO Dylan Field subiu ao palco para responder a uma pergunta que já não é hipotética: se a inteligência artificial hoje pula etapas, faz a interface e gera código a partir de um simples comando de texto, o que sobra para o designer fazer?

Público do Config no Moscone Center: designers viraram audiência disputada no Vale do Silício (Config/Divulgação)

A resposta veio em forma de máxima: “O código não é o oposto do design. O código é matéria-prima do design”. E de um lançamento, batizado de Code Layers. A novidade coloca o código-fonte de um aplicativo, o texto que os programadores escrevem para fazer o software funcionar, dentro do mesmo ambiente em que os designers fazem a “arte”. Na prática, um designer pode agora abrir o “motor” do aplicativo, testá-lo, editá-lo e devolvê-lo ao time de tecnologia sem sair do programa que já usa, um território que, até aqui, era exclusivo dos desenvolvedores. O anúncio mira um problema que já ganhou apelido no mercado: “AI slop”, algo como “gororoba de IA”. É como o setor batizou as telas que saem prontas de um comando, mas ignoram a identidade visual da empresa, quebram a lógica de navegação e dão mais trabalho para corrigir do que para refazer do zero. O atalho vira gambiarra e alguém, quase sempre um designer, defende o Figma, entra depois para arrumar a casa.

O que o Figma propõe, na prática, é uma virada de poder: o designer deixa de ser quem desenha a tela que o time de tecnologia depois implementa e passa a decidir o que entra em produção, com o código chegando até ele já validado, e às vezes até gerado, dentro do próprio ambiente de design. É quase uma guerra silenciosa que o Figma tem interesse comercial para que os dois lados ganhem. No Brasil, essa disputa já saiu do palco de São Francisco e chegou a bancos, healthtechs e a 35% das empresas listadas na bolsa. No jargão que se espalha pelo Vale do Silício, o conjunto de regras que mantêm a IA na direção certa ganhou um nome emprestado da equitação: harness, palavra em inglês para o arreio que guia o cavalo. A ideia, hoje popularizada pela incensada Anthropic, da IA Claude, é simples: quanto mais autônoma a IA fica, mais importa o que se põe ao redor dela, não só o modelo em si.

Débora Mioranzza, do Figma: à frente da expansão latino-americana da plataforma de design (Figma/Divulgação)

O dinheiro que está sendo apostado nesse controle é de um tamanho difícil de exagerar. As ferramentas de programação por IA movimentaram 12,8 bilhões de dólares em receita neste ano, mais que o dobro dos 5,1 bilhões de 2024, ano em que se tornaram mais populares, e hoje mais da metade do código publicado nos diretórios do GitHub, principal plataforma para desenvolvedores, já nasce com ajuda de IA. É um mercado que troca de líder dependendo da régua: em número de usuários, o GitHub Copilot, da Microsoft, segue impossível de alcançar em uso corporativo, mas o Claude Code, da Anthropic, já responde por 54% do setor quando se trata do uso geral, segundo a Menlo Ventures.

A régua de valuation é a mais clara evidência do apetite dos investidores. A Cursor, editor de código nativo de IA, saiu de 9,9 bilhões de dólares em valor de mercado em junho de 2025 para uma rodada em negociação a 50 bilhões de dólares em abril deste ano, com a receita anualizada saltando de cerca de 100 milhões para 2 bilhões de dólares em 13 meses. A Cognition, dona do Devin e do recém-renomeado Devin Desktop, o antigo Windsurf, foi avaliada em 26 bilhões de dólares depois de multiplicar por 13 sua receita em um ano, valor maior que o da própria Cursor. É a aposta de que agentes autônomos de programação têm um teto de mercado maior do que qualquer SaaS tradicional. E é justamente nesse teto que o Figma enxerga o seu espaço: enquanto Cursor e Cognition brigam para escrever o código, ele aposta que haverá sempre uma fatia que o usuário de fato vê e toca, e que nenhum agente de programação vai reivindicar sozinho.

Wander Cunha, do Santander: no banco, o desenvolvedor júnior aprende perguntando à IA, sem esperar a agenda de um sênior abrir (Santander/Divulgação)

A pergunta que fica por trás desses números é sobre quem paga a conta da velocidade. Se o código sai mais rápido, mas verboso ou fora do padrão da empresa, o trabalho não desaparece, só migra para quem revisa. “Existe um burnout invisível dos engenheiros: o código gerado aumentou muito, e cria mais trabalho para quem está do outro lado revisando”, diz Claudio Franco, cofundador e CEO da Tivita, à EXAME. Na healthtech brasileira, que adotou a Anthropic como modelo de fronteira e tem 100% do time com acesso a Claude Code ou Claude Cowork, o sintoma é código tecnicamente correto, porém inchado, dez linhas onde caberia uma, e a empresa chegou a construir plugins próprios só para forçar respostas mais enxutas.

O efeito sobre o emprego é o ponto mais disputado do debate. Um estudo da Universidade Stanford mostrou queda de quase 20% no emprego de desenvolvedores de 22 a 25 anos entre o fim de 2022 e julho de 2025, justamente o público que entrava no mercado fazendo o trabalho repetitivo que a IA hoje faz sozinha. Mas a resposta das empresas não é unânime: enquanto startups cortam vagas de entrada, a IBM anunciou que vai triplicar a contratação de desenvolvedores juniores nos Estados Unidos em 2026, apostando que abrir mão desse pipeline hoje custa caro amanhã, quando faltarem os seniores que só se formam depois de anos praticando.

No Santander, essa compressão já é mensurável. A F1RST, a empresa de tecnologia do grupo no Brasil, integrou o Devin Desktop ao Flame, seu design system, dentro de um pipeline batizado de AI DLC — e cada desenvolvedor júnior aprende perguntando à própria IA, e não esperando a agenda de um sênior abrir. “Squads que tinham dez pessoas hoje produzem quase o mesmo volume de código com quatro ou cinco”, afirma à EXAME Wander Cunha, Head de Data & AI Transformation do Santander. É o cenário que a Stanford descreve em números, acontecendo em tempo real dentro de um banco de 5.000 desenvolvedores.

Claudio Franco, CEO da Tivita: a healthtech criou plugins próprios para obrigar a IA a escrever código mais enxuto (Tivita/Divulgação)

Do lado do design, o Figma tenta ocupar o mesmo território por outra porta: se o código vira mais barato e mais rápido de produzir, o valor migra para quem decide o que vale a pena construir. O Itaú Unibanco é o exemplo que a própria empresa exibe como vitrine na América Latina. Segundo Débora Mioranzza, Go To Market do Figma na região, o banco usou o Figma Make integrado ao seu design system para que a própria equipe de acessibilidade construísse protótipos navegáveis por leitor de tela sem depender de um desenvolvedor, redução de custo acima de 95% e, pela primeira vez, pessoas com deficiência visual participando dos testes já na etapa de design, população que soma 7,9 milhões de brasileiros, segundo o IBGE. “Sem a orientação das regras de design da empresa, você até gera um código com IA, mas não com a maturidade de algo pronto para ir ao mercado e aos consumidores”, afirma Mioranzza. Sinal de que, em um mundo em que tudo pode ser regenerado em segundos, escolher o que tem qualidade ainda está em mãos humanas. É nela que mora, agora, a verdadeira arte.

*André Lopes, de São Francisco, Califórnia

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