Ricardo Nunes, prefeito de São Paulo: “Nenhuma grande cidade funciona sem um centro forte.” (Prefeitura de São Paulo/Divulgação)
Repórter
Publicado em 30 de julho de 2026 às 06h00.
Última atualização em 30 de julho de 2026 às 07h33.
A recuperação do Centro de São Paulo tornou-se uma das principais vitrines da gestão de Ricardo Nunes (MDB). A estratégia da prefeitura combina mudanças na legislação, recursos públicos para a reforma de prédios ociosos, obras de infraestrutura, reforço da segurança, limpeza urbana e projetos de mobilidade. O objetivo é criar as condições para que moradores, turistas, comerciantes e empresas voltem a ocupar a região.
A aposta também passa pela iniciativa privada. A prefeitura criou um programa de R$ 1 bilhão que pode financiar, a fundo perdido, até 25% da reforma de imóveis sem uso no bairro. Ao mesmo tempo, requalifica calçadões, ruas comerciais, praças e viadutos e tenta adaptar o centro a uma economia menos dependente das tradicionais lojas de rua.
Em entrevista à EXAME, Nunes detalha as medidas, explica como pretende atrair novos negócios e apresenta o projeto de um veículo leve elétrico que deverá circular pela região.
Por que a recuperação do centro se tornou uma bandeira de sua gestão?
Quando virei prefeito, havia uma demanda muito forte da sociedade. O Centro estava muito feio. Eu já ouvia comerciantes e empresários quando era vereador, mas, depois que assumi a prefeitura, isso ficou ainda mais forte. Fui chamando a equipe e disse que precisávamos melhorar a região, fazer um trabalho bacana no centro.
Qualquer grande cidade precisa ter o centro como uma referência. São Paulo também foi muito abalada pela pandemia. Fizemos um plano de recuperação econômica, e uma das ações era incentivar eventos e o turismo. Mas como trazer turistas com um centro daquele jeito? Melhorar a região fazia parte dessa recuperação econômica. O centro é a sala da casa da gente.
Por onde a prefeitura começou essa transformação?
Primeiro, fizemos um mapeamento dos pontos cruciais em que o poder público precisava atuar. Houve uma grande alteração do marco legal. Aprovamos uma lei específica para o centro, com o objetivo de incentivar as pessoas a construir e reformar, reduzir taxas e conceder benefícios. Essa adequação da legislação foi fundamental.
Depois, levantamos os principais problemas. A Cracolândia era uma ferida de 30 anos na cidade. Fizemos um trabalho conjunto com o governo do estado e estruturamos a atuação em três pilares: atendimento à pessoa dependente para que ela possa se tratar, prisão dos traficantes e reurbanização dos espaços.
Também passamos a investir em requalificação urbana, segurança, iluminação e limpeza. Não se faz uma mudança significativa sem recursos.
Como funciona o programa criado para recuperar os prédios ociosos?
Percebemos que havia muitos prédios ociosos e que, mesmo com os incentivos, alguns investimentos não se viabilizavam para o mercado. O investidor não conseguia fazer a reforma e devolver vida àquele imóvel. Isso acabava deixando o centro com prédios sem atividade, que prejudicavam a região.
Por isso, lançamos um programa de investimento de R$ 1 bilhão. Cada empreendimento apresenta seu projeto à prefeitura, e o município pode colocar até 25% do valor da reforma a fundo perdido.
A prefeitura não pede esse dinheiro de volta financeiramente. O retorno que pedimos é que o imóvel tenha atividade, que volte a ser usado e deixe de ser mais uma ferida na cidade. Temos tido um grande sucesso. São dezenas de prédios que já passaram pelo processo ou estão prontos. Também ampliamos a área abrangida pelo programa.
O objetivo é transformar esses prédios principalmente em moradia?
Estamos vendo um número enorme de pessoas vindo morar no centro, muitos empreendimentos imobiliários e novos projetos. Não são apenas retrofits. Há também prédios novos sendo construídos.
Ao mesmo tempo, muitas empresas e muitos comércios estão vindo para cá. A ideia é que o centro tenha atividade. Quando um prédio volta a ser ocupado, ele traz moradores, trabalhadores, consumidores e circulação para o entorno.
Como estão as obras de requalificação dos calçadões?
No Triângulo Histórico, são 23 calçadões, com investimento de R$ 63 milhões. No Quadrilátero da República, são 14 ruas em processo de requalificação.
Não estamos apenas trocando o piso. Estamos substituindo toda a infraestrutura que fica embaixo: rede de água, drenagem, esgoto, energia, cabeamento e fibra óptica. Também há uma melhoria importante na acessibilidade.
Antes, havia áreas com pedra portuguesa que dificultavam o deslocamento de uma pessoa em cadeira de rodas. O novo piso é mais robusto e permite melhorar a acessibilidade. É uma obra de requalificação completa, não apenas uma mudança estética.
Além dos calçadões, quais outros espaços receberam investimentos?
Fizemos a reforma do Viaduto Santa Ifigênia e vamos trabalhar também no Viaduto do Chá. Houve a requalificação do Parque da Luz e do Largo do Arouche. Melhoramos muito a iluminação e aumentamos a limpeza.
Temos também as ruas temáticas da cidade, como a Rua das Motos, a Rua das Noivas, a rua dos eletrônicos, a dos equipamentos de cozinha e a Rua do Ouro. Estamos fazendo requalificações específicas nesses locais. Na Rua das Motos, o trabalho já foi concluído, e há outras intervenções em andamento.
A Praça Princesa Isabel é outro exemplo. Em 2021 e 2022, a imagem daquela área era assustadora, com barracos, traficantes e usuários de drogas. Hoje, você vê uma praça bonita, famílias passeando com seus animais, crianças no parquinho e pessoas fazendo caminhada. Fomos investindo e recuperando os espaços.
Qual é o papel da segurança nessa estratégia?
A segurança é fundamental. Ampliamos muito o efetivo da Polícia Municipal e da Polícia Militar. A Prefeitura de São Paulo investe hoje R$ 1,1 milhão por dia para ter 2.400 policiais militares a mais trabalhando durante as folgas.
Em vez de o policial fazer uma atividade privada de segurança em um comércio, ele pode realizar esse trabalho adicional de forma legal, dentro de um convênio entre a prefeitura e o estado, com remuneração paga pelo município.
Também implantamos o Smart Sampa, que é um marco para a cidade e vem sendo observado por municípios de todo o Brasil. É um sistema que utiliza tecnologia para aumentar a capacidade de atuação do poder público.
Como o Smart Sampa funciona na prática?
O sistema tem 50.000 câmeras. Mas apenas instalar as câmeras não seria suficiente para trazer eficiência. Elas contam com uma tecnologia importante de inteligência artificial.
O Smart Sampa faz reconhecimento facial de pessoas foragidas e lê placas de carros e motos com registro de roubo ou furto. Também consegue procurar um veículo a partir de suas características. Se uma moto usada em um crime não tiver a placa identificada, por exemplo, é possível informar ao sistema a cor da moto, as roupas da pessoa, o capacete e outras características. Ele procura essas informações em todas as câmeras e consegue identificar por onde o veículo passou.
Se colocarmos a placa de um carro no sistema, também conseguimos verificar o percurso que ele fez pela cidade. Isso permite que a polícia obtenha informações para localizar suspeitos e realizar prisões. Não seria possível manter uma pessoa olhando todas as câmeras durante 24 horas. A tecnologia faz esse monitoramento.
O Smart Sampa é usado apenas para segurança?
Não. Ele também auxilia na limpeza e na ordem urbana. Se houver um ponto de descarte irregular de lixo e o sistema identificar uma movimentação, pode emitir um alerta.
O sistema se conecta ainda ao transporte coletivo. São 12.000 ônibus e 7 milhões de passageiros por dia. Também há uma integração com a Companhia de Engenharia de Tráfego para a gestão do trânsito. São 7 milhões de veículos circulando diariamente em São Paulo, incluindo 1,4 milhão de motos.
Estamos implantando um sistema de semáforos inteligentes. As câmeras fazem a leitura do fluxo: se houver muitos carros na pista, o semáforo permanece aberto por mais tempo; se houver poucos, ele fecha. Não funciona apenas com um temporizador. A inteligência artificial adapta o sistema ao trânsito.
O estudo que temos indica que, quando a substituição for concluída no centro expandido, poderá haver uma melhora de 20% no trânsito. O Smart Sampa também recebe informações de outros equipamentos da cidade, como a telemetria dos piscinões. É um conceito mais amplo de cidade inteligente.
A recuperação do centro depende apenas da atuação do poder público?
Não. Uma das razões pelas quais o trabalho deu certo foi a união entre a prefeitura e o governo do estado. A prefeitura sozinha não conseguiria resolver tudo.
Também trabalhamos com a sociedade civil. Fazemos reuniões com entidades e organizações que atuam na região, como associações comerciais e movimentos ligados ao centro. Discutimos conjuntamente as prioridades, porque não é possível fazer tudo de uma vez.
Conseguimos aproximar o poder público e a sociedade civil. Hoje, o centro está muito visitado. Você vê a região lotada, especialmente aos sábados. Quando as coisas ficam bonitas, limpas e seguras, as pessoas vêm e se sentem bem.
O perfil econômico do centro mudou?
Esse é um desafio de São Paulo e também de outras cidades do Brasil e do mundo. O perfil do consumo mudou.
Quando eu era criança, morava no extremo da Zona Sul, e minha mãe vinha ao Mappin, no centro. Fazer compras ali era mais do que consumir: era um passeio do paulistano. As pessoas vinham ao centro para comprar copos, roupas ou qualquer outro produto.
Hoje, você pega o celular, escolhe o que quer e recebe em casa no dia seguinte. Também surgiram shopping centers em várias regiões da cidade. Isso criou uma concorrência muito forte para as lojas de rua, que sempre foram muito presentes no centro.
Quando uma loja fecha, é preciso entender que o perfil mudou. Não dá para ficar pensando que somente a abertura de lojas resolverá a região. É necessário readequar a cidade à realidade atual.
Qual é o novo papel do centro nessa realidade?
Temos investido para que São Paulo seja vista não apenas no Brasil, mas no mundo. A cidade está recebendo muitos turistas.
Quando você anda pela região, encontra grupos visitando a Catedral da Sé, o Mosteiro de São Bento, o Theatro Municipal, a Praça da República e a Liberdade. Existe um conjunto enorme de opções para que as pessoas tenham uma experiência cultural e vivenciem uma cidade tão importante para a América Latina.
O centro não pode depender somente do comércio tradicional. Ele também precisa reunir moradia, turismo, cultura, serviços, empresas e novos negócios.
A prefeitura tem atuado diretamente para atrair empresas?
Conversamos com empresas e ajudamos a procurar espaços. Há companhias trazendo funcionários e operações para a região central. A CNN, por exemplo, está procurando um local, e a prefeitura está ajudando nesse processo.
Também há empresas que voltaram a abrir unidades no centro, além de atacadistas e negócios de diferentes segmentos. Criamos um grupo para atender esse público e acompanhar empresas interessadas em ocupar a região.
O movimento não envolve apenas a abertura de lojas. Há empresas trazendo escritórios, equipes e operações. Temos interesse em facilitar essa aproximação e mostrar as oportunidades existentes no centro.
O que a prefeitura pretende fazer na área de mobilidade?
Temos o projeto do VLE, o veículo leve elétrico, com investimento previsto de R$ 2,5 bilhões.
Ele deverá fazer um circuito pela região central, passando pela Avenida São João e chegando próximo ao Brás, que é um grande polo de compras. Será como recuperar o bonde que existia no passado, mas com uma tecnologia do futuro.
O projeto já está em desenvolvimento. A proposta é fazer uma parceria público-privada, e o Tribunal de Contas já foi comunicado.
O veículo será semelhante a um bonde sobre trilhos?
Não terá trilhos. É uma tecnologia chinesa. O veículo terá rodas e seguirá marcadores instalados no trajeto. A tecnologia permite que ele acompanhe esses marcadores sem a necessidade de um motorista.
A ideia é reunir, no mesmo lugar, o passado, o presente e o futuro de São Paulo. O centro tem uma história muito rica, mas também precisa receber soluções modernas de mobilidade. O VLE fará parte desse novo circuito pela região central.
O que ainda é necessário para consolidar a recuperação do centro?
É preciso continuar investindo, cobrando e reunindo os diferentes atores. A recuperação dos centros aconteceu em grandes cidades de vários países. São Paulo também precisa ter uma região central que seja uma referência.
Não conseguimos fazer tudo de uma vez, por isso é necessário definir prioridades. O trabalho envolve legislação, segurança, limpeza, infraestrutura, moradia, turismo, comércio e empresas.
A transformação ocorre quando o poder público cria as condições, a sociedade participa e o setor privado volta a investir. É esse conjunto que permite recuperar o centro.
O que a gestão municipal faz para atrair negócios e moradores para o Centro
Retrofit | Incentivos fiscais e subsídios de até 25% do valor das obras para recuperar prédios antigos.
Requalificação urbana | Obras nos calçadões do Triângulo Histórico e do Centro Novo, além da recuperação de praças, viadutos e ruas temáticas do comércio.
Segurança | Ampliação do Smart Sampa, com 50.000 câmeras na cidade e monitoramento por inteligência artificial, além do reforço do efetivo da GCM e da PM.
Zeladoria| Reforço da limpeza urbana, modernização da iluminação em LED e recuperação de espaços públicos para ampliar a circulação de moradores e visitantes.
Incentivos aos negócios | Redução do ISS, benefícios de IPTU e estímulos para atrair empresas de tecnologia, comércio, serviços e economia criativa.