Revista Exame

A conta da floresta

Bilhões em capital público e privado correm para a restauração florestal no Brasil. O teste deixou de ser financeiro e passou a ser operacional

Desafio: a corrida agora é transformar o passivo ambiental em floresta, carbono, biodiversidade e renda (Mario Tama/Getty Images)

Desafio: a corrida agora é transformar o passivo ambiental em floresta, carbono, biodiversidade e renda (Mario Tama/Getty Images)

Publicado em 25 de junho de 2026 às 06h00.

Plantar floresta sempre custou caro. A novidade é que, no Brasil, alguém começou a pagar por isso, e em contratos de décadas. E o capital chegou a quem nunca olhou para uma árvore pensando em retorno. Microsoft e Meta -assinaram contratos de crédito de carbono que se estendem até 2040. Gestoras como Axa e Bain Capital aportaram centenas de milhões de dólares em startups de restauração. O BTG (do mesmo grupo controlador da EXAME) levantou recentemente 370 milhões de dólares para uma nova estratégia florestal, e em março o governo realizou seu primeiro leilão de concessão de floresta pública para recuperar área desmatada.

O tamanho do mercado ajuda a explicar o apetite. O país conta com cerca de 100 milhões de hectares de pastos degradados com potencial de recuperação, perto de 12% do território nacional. Um estudo do Instituto Escolhas, think tank ambiental, projeta que restaurar 12 milhões desses hectares (a meta brasileira oficial) poderia gerar receita superior a 770 bilhões de reais em crédito de carbono, madeira e alimentos. E o World Resources Institute (WRI) calcula que a atividade poderia adicionar 141 bilhões de dólares à economia brasileira até 2050.

A restauração em larga escala começa muito antes do plantio: a produção de mudas nativas é um dos elos fundamentais para transformar investimentos bilionários em florestas de pé (Luciano Candisani/Votorantim/Divulgação)

Segundo o sistema Prodes, do Inpe, o desmatamento caiu 50% na Amazônia e 32% no Cerrado em 2025, na comparação com 2022, e a meta oficial é zerar a derrubada até 2030. Mas parar de derrubar não recompõe o que já caiu. Restaurar é mais caro e mais lento do que proteger, e é nesse segundo movimento que o país engatinha: menos de 2% da meta nacional de restauração havia sido incorporada a projetos de 2022 a 2024, segundo a Coalizão Brasil.

É nessa lacuna que o capital privado quer entrar. Sobram terra, demanda e dinheiro. Mas parece faltar o que separa a promessa do projeto entregue: a engenharia financeira que destrava o crédito, a segurança jurídica que conforta o investidor de prazo longo e a cadeia de operadores capaz de plantar tudo o que vem sendo prometido. O retorno se confirma na escala e na velocidade que o discurso anuncia?

Por que uma empresa planta floresta?

Thiago Picolo, CEO da Re.green, startup de restauração florestal, divide quem procura o setor em dois grupos. De um lado, empresas que investem em restauração para compensar as próprias emissões. De outro, as que enxergam ali um ativo financeiro a ser desenvolvido e revendido, lógica mais comum entre tradings e companhias de petróleo. A Re.green, até aqui, só trabalha com o primeiro grupo.

Entre esses clientes, duas motivações se destacam. A primeira é a pressão de acionistas, funcionários e sociedade sobre empresas que consomem recursos naturais, caso hoje das companhias de tecnologia questionadas pelo gasto de energia e água dos data centers. A segunda, ainda incipiente, é a antecipação a obrigações regulatórias, comprando agora um crédito que a lei pode vir a exigir adiante.

Não é só quem vive da terra que procura. No próximo dia 1o de julho, uma equipe começa a plantar mudas nativas num trecho degradado entre o leste do Pará e o oeste do -Maranhão. A execução é da Re.green. A floresta, porém, é compromisso de uma empresa que não vende nada extraído do solo: a Vivo, que assumiu restaurar 800 hectares ao longo de 30 anos.

Thiago Picolo, CEO da Re.green: “O dinheiro para a restauração chegou. O desafio agora é plantar na escala que o mercado promete" (Re.green/Divulgação)

Para a operadora, no entanto, o motor não é financeiro. “Surgiu da nossa ambição de liderar um projeto de relevância, alinhado ao Marco Global da Biodiversidade, e não da busca por retorno financeiro”, afirma -Joanes Ribas, diretora de sustentabilidade da Vivo. A companhia prevê gerar créditos a partir de 2031, mas diz que não pretende usá-los para compensar as próprias emissões, e sim disponibilizá-los a clientes.

O contrato vem antes da árvore

A mecânica que sustenta os grandes projetos é o offtake, que consiste em fechar a venda antes de plantar. Em vez de procurar comprador depois de a floresta crescer, a empresa de restauração desenha o projeto com o cliente e assina um contrato de compra de parte dos créditos que serão emitidos ao longo de 20 ou 30 anos, com preço e volume predefinidos. Só então levanta o capital para executar.

A diferença é decisiva na hora de financiar. É muito mais fácil chegar a um banco com um contrato de 20 anos assinado por uma Microsoft ou uma Nestlé do que pedir dinheiro para um projeto sem comprador garantido. Por isso essas iniciativas costumam nascer grandes. E a escolha da área é, segundo Picolo, o cerne da vantagem competitiva: a Re.green roda um algoritmo que cruza chuva, solo, vegetação, histórico de desmatamento, preço da terra e presença de territórios indígenas e quilombolas para eleger onde a restauração gera mais carbono pelo menor custo. O compromisso não termina no plantio. A área é monitorada ao longo de todo o contrato e por um período ainda maior pela certificadora, já que os projetos são pensados para durar meio século.

Mais rentável que o boi?

Picolo afirma que a restauração já gera rentabilidade competitiva com outros usos da terra, “seguramente” melhor do que a pecuária extensiva, atividade de baixo retorno, muitas vezes tocada por pecuaristas ausentes e com poucos animais por hectare. Diante do eucalipto, a comparação fica mais equilibrada. A floresta nativa leva vantagem em terrenos acidentados, onde a cultura comercial não compensa porque a colheita em morro é cara e difícil.

O argumento já atravessa setores que nada têm a ver com plantar árvore. A Nestlé investe em recuperação de áreas porque sua matéria-prima está em risco. A companhia estima que metade da área de cultivo de café arábica pode desaparecer até 2050 por causa do clima, e uma geada atípica de dois dias em 2021 já afetou a safra seguinte. Só neste ano, anunciou dois projetos de restauração no Brasil, em parceria com a Re.green e a fabricante de cacau Barry Callebaut, para recuperar cerca de 8.000 hectares em regiões produtoras de café e cacau da Bahia e do Pará.

Na mineração, a lógica é de licença para operar. A Vale assumiu em 2019 o compromisso de recuperar e proteger 500.000 hectares de florestas até 2030, fora de suas áreas de atua-ção. Já protegeu 200.000 hectares e recuperou mais de 18.000, com aportes do Fundo Vale, que em 15 anos destinou 430 milhões de reais a projetos socioambientais. Em Carajás, no Pará, onde extrai minério há quatro décadas, mantém em pé uma extensa faixa de floresta nativa, condição para continuar operando.

Para a CBA, do grupo Votorantim, a floresta é insumo industrial. A reserva Legado das Águas, com 31.000 hectares de Mata Atlântica preservada no interior de São Paulo, ajuda a abastecer as hidrelétricas que movem a produção de alumínio. É o que mantém a intensidade de carbono da companhia em um dos menores patamares do setor, quase 25% abaixo da média mundial. São teses distintas de retorno operando sob o mesmo rótulo.

Joanes Ribas, diretora de sustentabilidade da Vivo: a companhia assumiu o compromisso de restaurar 800 hectares de áreas degradadas entre o Pará e o Maranhão ao longo de 30 anos (Vivo/Divulgação)

O agro entra na conta

Se há um setor capaz de mudar a escala do reflorestamento é o agronegócio. Não como adversário, mas como aliado. É o que defende a segunda edição do estudo O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global, produzido por uma coalizão que reúne os Institutos Arapyaú e Itaúsa, a Indústria Brasileira de Árvores, o Imazon e a Agroicone, entre outros, e que será levado às três COPs da ONU neste ano.

O argumento desmonta a oposição entre plantar lavoura e conservar mata. Parte relevante da conservação brasileira já está dentro das fazendas, nas áreas de Reserva Legal e de Preservação Permanente. E o país já provou que dá para reduzir a derrubada sem travar o campo: entre 2004 e 2012, o desmatamento da Amazônia caiu 80% enquanto a produção agropecuária da região praticamente dobrou. Para o produtor, o replantio de terrenos inclinados ou degradados ajuda a regularizar -passivos do Código Florestal e abre uma fonte nova de renda via crédito de carbono. Um levantamento da -Agroicone, organização de soluções para o agronegócio, com o movimento Floraz identificou, em cenário conservador, cerca de 2,6 milhões de hectares aptos à restauração em 8.000 propriedades.

Para Beto Veríssimo, cofundador do Imazon, instituto de pesquisa sobre a Amazônia, o país reú-ne condições raras para liderar essa agenda, com cerca de 500 milhões de hectares de florestas nativas e domínio das tecnologias de conservação, restauração e silvicultura. As florestas não apenas estocam carbono; elas regulam chuvas e sustentam a produção agrícola. Um estudo publicado em 2026 na revista Communications Earth & Environment, do grupo Nature, estimou que a Amazônia Legal gera precipitações avaliadas em cerca de 20 bilhões de dólares por ano para a agricultura brasileira.

Roberto Waack, presidente do conselho do Instituto Arapyaú: “A floresta precisa deixar de ser vista apenas como uma agenda ambiental e passar a ocupar um lugar estratégico na economia” (Leo Lara/Fundação Renova/Divulgação)

Garantia é gargalo

Se o offtake resolve a ponta da demanda, a do financiamento ainda trava. O BNDES tem sido um dos principais apoiadores do setor, sobretudo via Fundo Clima. Mas, para conceder o crédito, exige garantia, uma fiança difícil de obter num setor tão novo. Picolo descreve o problema com franqueza. Bancos comerciais não sabem precificar o risco de uma empresa de restauração porque nunca o fizeram antes. Não há histórico comprovado de desempenho, nem departamento preparado para avaliar quanto vale uma floresta em formação. A Re.green levou o que chama de “trabalho hercúleo” para conseguir sua primeira fiança, de 187 milhões de reais, dividida entre Itaú e Bradesco.

“Se é difícil para a gente, imagina para empresas que ainda não têm a reputação construída. Aí fica quase impossível”, diz Picolo. O estudo da coalizão Arapyaú reforça o diagnóstico de que o capital privado ainda se concentra em mercados menos arriscados, e ampliar o fluxo de recursos não bastará sem mecanismos de de-risking, garantias e estruturas de blended finance que combinem dinheiro público e privado.

O EcoInvest e o dinheiro que virou bilhão

Do lado do Estado, o instrumento que mais mobilizou capital é o -EcoInvest, programa do Tesouro Nacional lançado em 2024 para atrair investimento externo para a transformação ecológica. Marcelo Furtado, head de sustentabilidade da Itaúsa, explica que o programa importa porque ataca três gargalos de uma vez. O primeiro é o hedge cambial, que protege o investidor estrangeiro da volatilidade do real em prazos longos. O segundo é o alinhamento entre dinheiro público e privado, com o recurso público entrando como garantidor de um volume bem maior de capital privado. O terceiro é iluminar áreas em que o capital natural brasileiro ainda não é precificado, criando o próprio reconhecimento desse valor.

“A gente não está mais conversando de milhões, já está falando de bilhões. E isso é solução climática”, diz Furtado. Os números dão a dimensão do salto. Por meio de quatro leilões desde 2023, o programa mobilizou cerca de 140 bilhões de reais em recursos públicos e privados para a recuperação de terras degradadas, restauração, bioeconomia e infraestrutura verde. De uma das rodadas, lembra o executivo, só o Itaú captou 8 bilhões de reais. O recado, para ele, é o de um “pragmatismo visionário”, em que dá para ganhar dinheiro e resolver o problema ao mesmo tempo. Nem todo operador, porém, entra pela mesma porta: Picolo afirma que a Re.green captou principalmente via Fundo Clima, do -BNDES, cujas condições considera ainda mais aderentes à atividade.

A redução do desmatamento na Amazônia: 50% nos últimos três anos marcam uma mudança de foco; no Pará, aumenta a aposta na recuperação de áreas degradadas e na restauração florestal em larga escala (Leo Lara/Fundação Renova/Divulgação)

Falta quem opere

O sinal mais claro de que o mercado ainda é embrionário veio do próprio governo. Em 25 de março, a Re.green venceu o primeiro leilão federal de concessão de floresta pública para restauração, a Flona do Bom Futuro, em Rondônia, como única concorrente. Vai gerir 51.200 hectares por 40 anos, dos quais cerca de 6.300 serão restaurados, com investimento estimado em 87 milhões de reais. Um dos dois lotes não atraiu nenhum interessado. A leitura de Garo Batmanian, diretor-geral do Serviço Florestal Brasileiro, foi reveladora: a baixa concorrência tem menos a ver com o risco do projeto do que com o ineditismo do setor. Não há, hoje, grandes empresas operando em regeneração, apenas startups. E o governo já estrutura outras sete concessões de restauração em florestas federais.

Esse é o paradoxo que a pauta expõe: sobra de tudo, menos quem execute. A cadeia que deveria pôr a mão na terra, formada por viveiros, manejadores, tecnologia de monitoramento e certificação, ainda não ganhou corpo. A Reservas Votorantim, que decidiu vender mudas além de crédito de carbono, acredita que, se a meta de recuperar 12 milhões de hectares fosse acionada de uma vez, não haveria mudas suficientes no país. Não que falte concorrência: no páreo com a Re.green estão Mombak, Biomas, Systemica e o Timberland Investment Group, do BTG. Assim como o braço florestal do banco, que levantou 370 milhões de dólares em abril, a Mombak já captou mais de 250 milhões de dólares — de nomes como BNDES, Banco Mundial e o fundo de pensão canadense CPP — e vende crédito a cerca de 100 dólares a tonelada, acima da média de mercado. O setor já existe; ainda é raso, porém, em número de operadores capazes de entregar na escala prometida.

Recado dado, ritmo a engatar

Para Roberto Waack, presidente do conselho do Instituto Arapyaú, o desafio é deslocar o capital natural da agenda ambiental para o centro da economia. As florestas brasileiras, argumenta, têm potencial de se consolidar como classe de ativos atrativa ao mercado financeiro, gerando valor por carbono, água, biodiversidade, resiliência climática e segurança alimentar. O que ainda não existe, diz, são os mecanismos financeiros capazes de transformar esse patrimônio em ativo reconhecido e precificado.

É um resumo preciso do momento. O reflorestamento brasileiro reúne hoje o que poucos mercados emergentes têm ao mesmo tempo: o maior estoque de carbono tropical do mundo, a demanda de big techs dispostas a pagar prêmio por integridade, um banco de desenvolvimento atuante e um programa federal que já mobiliza dezenas de bilhões. A peça que ainda não se encaixou está do lado de quem executa, não de quem financia. Garantias que destravem o crédito, regras fundiárias e tributárias estáveis e uma indústria de viveiros e manejo são o que separa o anúncio da floresta de pé. Plantar virou um bom negócio no papel; agora o teste é no campo.


O TAMANHO DA APOSTA

Os números mostram por que a floresta entrou no radar de empresas, investidores e governos

100 milhões de hectares de pastos degradados têm potencial de recuperação, cerca de 12% do território nacional.

  12 milhões de hectares é a meta oficial de restauração até 2030, reafirmada no Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa.

  Menos de 2% dessa meta havia sido incorporada a projetos de restauração entre 2022 e 2024.

  -50% foi a queda do desmatamento na Amazônia em 2025 ante 2022, segundo o Prodes/Inpe; no Cerrado, a redução foi de 32%.

  140 bilhões de reais em recursos públicos e privados foram mobilizados pelo EcoInvest em quatro leilões desde 2023.

  187 milhões de reais foram a primeira fiança obtida pela Re.green, dividida entre Itaú e Bradesco, para destravar crédito do BNDES.

100 dólares por tonelada é o preço praticado pela Mombak no crédito de remoção, acima da média de mercado para reflorestamento.

  1 milhão de hectares é a área que o governo pretende conceder à iniciativa privada para restauração apenas em florestas federais.

141 bilhões de dólares é quanto a restauração pode adicionar à economia do país até 2050, segundo o WRI.

Fontes: Inpe (Prodes); Instituto Escolhas; Coalizão Brasil; Serviço Florestal Brasileiro; WRI; Tesouro Nacional.


Acompanhe tudo sobre:1288

Mais de Revista Exame

Termômetro do Emmy: as séries que devem fazer barulho na premiação de 2026

Da semente ao mercado

Como é a vida casual da equipe que faz a Casual EXAME

Governo deve pensar uma solução macro para o agro, diz Tereza Cristina