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Eco Invest virou a maior prova da 'economia real' do clima, diz Marcelo Furtado

Head de sustentabilidade da Itaúsa esteve no ESG Summit 2026 e contou à EXAME sobre como o financiamento de soluções climáticas está acelerando a transição brasileira rumo à COP31 na Turquia

Marcelo Furtado, head de sustentabilidade da Itaúsa: "Resolver a crise climática é um bom negócio que transforma a nossa economia e a torna positiva para o clima, natureza e pessoas" (Eduardo Frazão)

Marcelo Furtado, head de sustentabilidade da Itaúsa: "Resolver a crise climática é um bom negócio que transforma a nossa economia e a torna positiva para o clima, natureza e pessoas" (Eduardo Frazão)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 15 de junho de 2026 às 17h00.

Última atualização em 15 de junho de 2026 às 17h49.

"Dá para ganhar dinheiro e resolver o problema". Essa é a equação que sustenta a agenda climática brasileira em 2026, segundo Marcelo Furtado, head de sustentabilidade da Itaúsa e diretor-executivo do Instituto Itaúsa.

Em entrevista à EXAME durante o ESG Summit, o executivo defende o que ele chama de "pragmatismo visionário": a ideia de que soluções climáticas só ganham escala quando também geram negócio, emprego e renda.

O exemplo mais recente é o EcoInvest, programa do Tesouro Nacional que combina recursos públicos e privados para financiar a transição ecológica.

No leilão mais recente, voltado à Amazônia, foram movimentados mais de R$ 13 bilhões, depois de uma rodada anterior que somou R$ 15 bilhões, dos quais o Itaú captou R$ 8 bilhões.

"Não estamos mais falando de milhões, são bilhões em jogo — e isto é solução climática", afirmou Furtado.

Os números marcam uma virada na forma como o mercado encara a agenda ESG: ela deixa de ser tratada como custo ou risco isolado e passa a aparecer como negócio dentro das grandes instituições financeiras.

Da COP30 à execução: as 128 soluções

Esse movimento de financiamento, segundo Furtado, é o desdobramento natural de um trabalho que começou ainda durante a COP30, em Belém.

Às vésperas da grande conferência climática, gigantes como Itaúsa, Bradesco, Itaú Unibanco, Natura, Nestlé, Marcopolo e Vale se uniram na iniciativa CASE (Climate Action Solutions & Engagement) para identificar, entre as centenas de soluções climáticas, quais já estariam maduras para receber investimento.

Após um filtro conduzido pela Accenture, em parceria com a SB COP e o CEBDS, o número caiu para 128 soluções já prontas, com linhas de financiamento ativas ou em estruturação.

É justamente essa base que deve orientar a postura do Brasil rumo à COP31, na Turquia, com forte protagonismo do setor privado. Agora, o objetivo agora é partir para a implementação.

"Nós já temos o plano, é hora de fazer acontecer e gerar valor", destacou o diretor da Itaúsa.

Resiliência, a nova régua dos negócios

Se o financiamento é a engrenagem visível do avanço, a adaptação climática é, para Furtado, o tema que ainda não encontrou seu "lugar na conversa" entre empresas.

Segundo ele, o mercado costuma tratar mitigação e adaptação como agendas separadas, mas isso não reflete como decisões de investimento são tomadas na prática.

"Quando você está sentado numa reunião de conselho que está decidindo investir, ninguém pensa em caixinhas diferentes. O pensamento é: meu negócio está preparado para os novos desafios e é resiliente?", refletiu.

Os "novos desafios" não se limitam ao clima e também envolvem também riscos geopolíticos e disrupções como a inteligência artificial. E é por isso que, na visão do executivo, a adaptação não deveria ser tratada como uma questão apenas de sustentabilidade e sim como um teste de sobrevivência do próprio negócio.

"Se você não quiser olhar pela lente ESG, olhe pela lente da resiliência. A minha empresa irá existir em 5 anos se eu ignorar eventos climáticos extremos que podem afetar minha cadeia de valor e a mudança do meu consumidor?", questionou.

O raciocínio está no centro das decisões dentro do portfólio da Itaúsa. Um dos exemplos que vem avançando de forma articulada entre empresas do grupo é o uso de biometano para descarbonização de setores intensivos em energia como o transporte.

A Aegea produz o biometano e a NTS trabalha para injetá-lo nos dutos de gás natural, reduzindo drasticamente as emissões da matriz que já está em operação.

Escolas como termômetro da adaptação

Outro projeto do portfólio do Instituto Itaúsa em curso, conduzido em parceria com Motiva, Dexco, Instituto Votorantim, foca na preparação de pequenos municípios para eventos climáticos extremos.

O foco são nas escolas, locais que retratam um paradoxo da crise climática: ao mesmo tempo em que se tornam abrigos para vítimas de desastres, deixam de funcionar como espaço de ensino podem levar meses para reabrir em caso de danos estruturais.

O resultado, segundo Furtado, é abandono escolar que raramente é contabilizado como custo econômico.

"Perder um aluno na escola significa perder produtividade na economia. E a gente não faz essa conta", afirma.

Para o diretor, esse tipo de indicador deveria orientar prefeitos na hora de planejar investimentos em infraestrutura: "Escola é um indicador de saúde do município."

'O instrumento mais sofisticado da transição verde'

Furtado descreve o EcoInvest como o mais sofisticado dos instrumentos hoje disponíveis para destravar capital verde no Brasil e atribui isso a três características específicas.

A primeira é a forma como o programa atrai investimento internacional: ele funciona como uma espécie de hedge cambial, reduzindo o risco de câmbio para quem aporta recursos de fora.

A segunda é o desenho da relação entre capital público e privado, em que o dinheiro público funciona quase como um garantidor, alavancando um volume de recursos privados muito maior.

A terceira é o efeito sobre setores da economia cujos ativos naturais ainda não são precificados pelo mercado: ao direcionar investimento para essas áreas, o programa cria um reconhecimento de valor que antes não existia.

Outro ponto que Furtado destaca é a origem do desenho do EcoInvest. Embora o programa tenha sido formatado pelo Tesouro Nacional, teve apoio decisivo do Nature Investment Lab, iniciativa que reúne hoje mais de 500 organizações e que também está à frente do acompanhamento pós-leilão.

Itaúsa, ICS, BNDES e Banco do Brasil integram o conselho que define as prioridades da entidade, e foi justamente a participação do Banco do Brasil que resultou no leilão voltado à Amazônia, já que o banco identificou a oportunidade de mobilizar sua rede de agências na região. No primeiro ano, direcionou R$ 1 bilhão para a região.

Ao reunir financiamento, sinergias de portfólio e projetos de adaptação territorial, o head de sustentabilidade resume o papel que a Itaúsa pretende ocupar nesse momento da agenda climática brasileira: serem alocadores de capital.

"O que realmente nos interessa é uma economia brasileira próspera e sustentável. O nosso papel é estar nos lugares que podem e devem transformar", destacou.

É essa a mensagem que pretende levar à COP31: a de que o Brasil é um país de soluções verdes, com potencial para exportá-las ao mundo.

"Resolver a crise climática é um bom negócio que transforma a nossa economia com maior produtividade e que é positiva para o clima, pra natureza e pras pessoas", conclui Furtado.

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