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Carajás, a mina 'descoberta ao acaso' que pode conectar a Vale à eletrificação

Região na Amazônia concentra cobre de alto teor e pode responder por até metade do valor da companhia

Carajás: Foi nessa região isolada, a 700 quilômetros de Belém, que a Vale construiu uma engrenagem que integra mina, ferrovia e porto (Germano Lüders/Exame)

Carajás: Foi nessa região isolada, a 700 quilômetros de Belém, que a Vale construiu uma engrenagem que integra mina, ferrovia e porto (Germano Lüders/Exame)

Letícia Furlan
Letícia Furlan

Repórter de Mercados

Publicado em 25 de abril de 2026 às 10h00.

Uma das maiores operações de mineração do mundo nasceu de uma descoberta acidental na Amazônia — e hoje pode ser a chave para redefinir o futuro da Vale. Em Carajás, no sudeste do Pará, a companhia não só sustenta sua liderança global em minério de ferro como abriga um ativo que ganha cada vez mais protagonismo: o cobre.

Foi nessa região isolada, a 700 quilômetros de Belém, que a Vale construiu uma engrenagem que integra mina, ferrovia e porto — e que hoje pode sustentar sua transição para uma nova economia.

Durante décadas, Carajás foi sinônimo de minério de ferro. A operação responde por cerca de 170 milhões de toneladas por ano, escoadas por uma ferrovia de quase 1.000 quilômetros até o Porto de Ponta da Madeira, no Maranhão. Essa estrutura foi o alicerce da expansão global da companhia.

Mas o que está por baixo da terra vai além do ferro. A região concentra os principais ativos de cobre da Vale — e já responde por mais de 75% da produção do metal da companhia. Em 2025, foram 290 mil toneladas extraídas em Carajás, de um total de 382 mil.

O número ainda é pequeno perto do volume de minério de ferro. Mas o valor é outro. Uma tonelada de cobre pode custar cerca de 13 mil dólares — até 100 vezes mais do que o minério. Esse diferencial ajuda a explicar por que o ativo ganhou prioridade dentro da companhia.

Eletrificação no centro da estratégia

Hoje, o cobre é visto como peça central na estratégia da Vale para capturar tendências estruturais como eletrificação, inteligência artificial e transição energética. Motores elétricos, redes 5G e data centers dependem diretamente do metal.

A demanda global reflete isso. Segundo a S&P Global, o consumo deve saltar de 28 milhões de toneladas em 2025 para 42 milhões até 2040. Sem novos projetos, o mercado pode enfrentar um déficit de 10 milhões de toneladas.

É nesse cenário que Carajás se destaca como uma das maiores reservas de cobre de alta qualidade do mundo — com teor médio de até 2%, muito acima da média global.

Na prática, isso significa menos custo de processamento e maior eficiência operacional — um diferencial raro em um setor pressionado por licenciamento ambiental e escassez de novas áreas.

A Vale já decidiu onde apostar. Dos US$ 3,5 bilhões anunciados recentemente para metais, 100% serão destinados ao cobre em Carajás nos próximos cinco anos. A meta é ambiciosa: dobrar a produção para 700 mil toneladas até 2035 e atingir 1 milhão de toneladas nos anos seguintes.

Se atingir esse volume hoje, a companhia estaria entre as cinco maiores produtoras globais de cobre — ao lado de gigantes como Codelco, BHP e Freeport-McMoRan — com potencial de faturamento superior a US$ 10 bilhões.

Outro ponto joga a favor da operação paraense: a infraestrutura já está pronta. Diferentemente de novos projetos, que podem levar até 15 anos entre licenciamento e operação, Carajás permite expansão com menor risco e maior previsibilidade.

Além disso, a estratégia passa por aproveitar estruturas existentes. Projetos satélites como Bacaba, Cristalino e 118 devem prolongar a vida útil de complexos como Sossego para além de 2060, utilizando plantas já instaladas.

O resultado é uma combinação rara: escala, qualidade do minério e capacidade de expansão dentro de um mesmo sistema logístico já consolidado. Para analistas, isso explica por que Carajás é frequentemente descrito como “o melhor ativo do mundo” no setor.

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