Revista Exame

'2027 está com cheiro de 2015', diz Sérgio Vale

Sérgio Vale, da MB Associados, fala sobre a perspectiva para a economia brasileira e seu impacto na próxima eleição

Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associado: o próximo presidente precisará agir para evitar o início de uma nova crise econômica (Leandro Fonseca /Exame)

Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associado: o próximo presidente precisará agir para evitar o início de uma nova crise econômica (Leandro Fonseca /Exame)

Luciano Pádua
Luciano Pádua

Editor de Macroeconomia

Publicado em 25 de junho de 2026 às 06h00.

Última atualização em 25 de junho de 2026 às 06h15.

Um estudo recente de Sérgio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados e colunista da EXAME, mostra que inflação e desemprego afetam de forma muito diferente eleitores de Lula e Jair Bolsonaro, ajudando a explicar por que a economia ainda sustenta o presidente, mesmo em meio à polarização política.

“O eleitor do Bolsonaro é mais ideológico. A questão econômica fica mais de fora”, diz Vale. “Já o eleitor do Lula é o econômico, de baixa renda, para quem inflação e desemprego são absolutamente essenciais.”

Seja quem for o presidente em 2027, aponta o economista, ele (ou ela, se alguma candidata se habilitar) enfrentará um ano com “cheiro de 2015”, momento que marcou o ápice da crise econômica da década passada.

Há paralelos como deterioração fiscal, baixa produtividade, necessidade de maior abertura comercial e novas reformas estruturais. “O fiscal está muito pior do que naquela época. Temos um déficit e uma dívida muito mais difíceis de serem tratados”, diz Vale. Será necessário fazer o famigerado ajuste fiscal e, desta vez, por várias frentes.

“Se chegarmos a 2027 sem ajuste fiscal adequado, o câmbio vai subir com mais intensidade e entraremos num cenário mais de crise”, afirma. Em conversa com a EXAME, Vale tratou das perspectivas para a economia brasileira e de seu impacto nas eleições que se avizinham.

Um estudo recente seu mostra como a economia afeta a aprovação de diferentes presidentes. O que os dados mostraram?

Tentei construir uma série histórica longa para comparar vários presidentes. Fomos até o governo de Fernando Henrique Cardoso [FHC], para medir o chamado índice de miséria [a soma entre inflação e taxa de desemprego], um termômetro do bolso do consumidor. Colamos isso com a popularidade dos presidentes e fizemos uma estimativa para tentar captar como o índice de miséria se relaciona com a aprovação dos presidentes ao longo do tempo. O estudo mostrou que, para o ex-presidente Jair Bolsonaro, ele tem menos impacto. E o governo Lula 3 é o mais impactado. Ou seja, se sobe 1 ponto percentual o índice de miséria, o Lula 3 tem um impacto cerca de três vezes maior do que a gestão de Bolsonaro, em torno de seis meses de quando acontece esse choque. Basicamente, essa diferença está em quem é o eleitor de cada lado.

Em que sentido?

O eleitor do Bolsonaro é mais ideológico. A questão econômica fica mais de fora. Já o eleitor do Lula é o eleitor econômico, de baixa renda, para quem inflação e desemprego são absolutamente essenciais. Não que isso não seja essencial para o eleitor do Bolsonaro, claro. Mas para o eleitor do Lula é quase uma questão de fato existencial. Também podemos adicionar o efeito de tempo de Presidência. Lula está no terceiro mandato, há um desgaste de questões que apareceram ao longo da história. Não conseguimos explicar a popularidade de Lula hoje só pelas variáveis econômicas ou deste momento. O índice de miséria é o mais baixo da história, abaixo do que estava às vésperas do primeiro mandato do FHC e do final do primeiro mandato de Lula, duas reeleições. Isso indicaria que Lula seria reeleito com facilidade estrondosa. Ainda bem para ele que a economia está maravilhosa. Não fosse isso, a vida dele estaria muito mais complicada, pois, dado esse indicador que a gente percebeu, a população estaria muito mais arisca.

Manifestação dividida por muro na Esplanada, em 2016: polarização muda aprovação de eleitores a presidentes e interpretações sobre a economia (Juca Varella/Agência Brasil)

O que dizem os dados econômicos mais recentes pensando nas eleições?

Estamos em junho e o último dado de inflação foi ruim [avanço de 0,58% em maio, último dado], mas já estava na conta. O Lula terá uma salvaguarda, digamos assim, para tudo o que está acontecendo: dizer que é culpa da guerra que Donald Trump fez ou do El Niño. Quando olhamos até a eleição, o índice de miséria não parece que vai explodir. A taxa de desemprego entra a partir de agora em queda sazonal. A taxa de inflação está em 4,7% [acumulado de 12 meses]. Até o final do ano, estimo em 5,4%. No momento crítico da eleição, não devemos ter taxas de inflação explosivas, como nos últimos meses.

Sua análise aponta para dois Brasis que não conversam. Como avalia isso?

É esse efeito da polarização que vivemos no mundo em que a mesma história econômica para um é totalmente diferente para outro. Em outros momentos do passado, não era assim. O próprio Lula, quando foi eleito em 2002, tinha uma trajetória de esquerda e havia um medo sobre isso, mas ele ganhou em quase todos os estados do país. Depois disso, a política fiscal desandou, tudo o que já conhecemos aconteceu na economia e estamos onde estamos hoje, com o agravante das redes sociais. Hoje, temos talvez uns 20% a 30% de eleitores fora dessa polarização. Essa massa de pessoas que vai ser disputada. Nesse sentido, o Lula se fortalece. Desde a virada de popularidade que teve no final de 2024, acendeu o sinal amarelo no Planalto e rapidamente eles responderam. Saiu um monte de proposta, como crédito consignado ao setor privado, Pé de Meia, isenção do Imposto de Renda até 5.000 reais. Um monte de coisa para construir a narrativa para a eleição. E o gasto está subindo com força agora para gerar justamente isso. O eleitor bolsonarista não se importa com isso. Para ele, o Lula é o Lula da Lava Jato e do Mensalão. Nessa polarização, com o antilulismo muito presente e um lulismo também muito forte, haverá um meio de campo que vai definir para cada lado. A economia vai chegar com dois anos de crescimento acima de 3%. A taxa de desemprego historicamente baixa, com a população ocupada. A inflação subiu, mas está relativamente baixa.

Apesar de uma economia aquecida, a aprovação de Lula parece ter um teto. A inadimplência explica parte disso?

A inadimplência está alta, construída ao longo desses últimos anos com juros elevados e um consumidor que está consumindo como se não houvesse amanhã e tem dificuldade de pagar as contas. O que o governo faz, como fez no primeiro ano do terceiro mandato? O Desenrola. Funcionou: na minha estimativa, caiu 3,5 pontos percentuais a inadimplência da população mais pobre. Depois disso, volta-se ao que estava de inadimplência. É um paliativo que ajuda a população no curto prazo. Ela vai pagar a conta, mas não muda estruturalmente para ela deixar de se endividar novamente. Há duas coisas aqui. Uma é a situação dos juros, que estão caros. Outra é a questão das bets. Nesse caso, um problema é que não temos informação consistente desses números, de quem e como está gastando.

Que economia o próximo presidente receberá em 2027?

O ano de 2027 está com cheiro de 2015. Mas não é um 2015 no sentido do PIB que caiu 3,5%. Longe disso. Hoje, não tem Lava Jato nem as mesmas questões, mas o fiscal está muito pior até do que naquela época. Temos um déficit e uma dívida muito mais difíceis de serem tratados. Agora, o Congresso também virou parceiro de desestruturação da questão fiscal no Brasil. Então, temos um ajuste fiscal muito mais difícil para acontecer em 2027. Vai ter que ser na estrutura de arrecadação, no gasto tributário — os subsídios — e na estrutura de gastos. Hoje, temos carga tributária e gasto muito elevados. Teremos de mexer em todas as contas. Não tem jeito. E o tamanho da dívida exige um superávit cada vez maior só para conseguir estabilizá-la. É preciso algo perto de 3% do PIB de superávit para estabilizar a dívida. Quem entrar terá de fazer um freio de arrumação forte e um belo ajuste fiscal.

Como seria esse ajuste fiscal?

De partida, duas coisas ajudariam muito, desafogariam expectativas negativas e gerariam um cenário positivo. A primeira seria tirar a vinculação da valorização do salário mínimo da Previdência. Não faz sentido econômico dar aumento real [às pensões de aposentados]. Além disso, há os mínimos constitucionais de educação e saúde, regra que o governo resgatou no início do mandato [15% e 18% da Receita Corrente Líquida para saúde e educação, respectivamente]. Seria necessário tirar os mínimos e colocá-los dentro do arcabouço fiscal, além de ajustar o próprio arcabouço para um crescimento de gasto menor, entre 1% e 1,5% ao ano. Também teria de mexer nas emendas [do Congresso, que somam 60 bilhões de reais em 2026]. E algum aumento de arrecadação teria que acontecer.

Extração de petróleo: 40% do PIB está ligado a commodities, em setores que destravam crescimento ante outros que envelheceram (Germano Lüders/Exame)

Qual é o custo de não fazer o ajuste?

O que vemos hoje: o gasto sobe com força e vai desacelerar, os juros estão elevados por causa do risco fiscal e da incerteza mundial e interna. Se chegarmos a 2027 sem ajuste fiscal adequado, o câmbio vai subir com mais intensidade e entraremos num cenário mais de crise. Mas há um sentimento de piora por duas razões: a incerteza internacional e a própria piora que o governo está causando na parte fiscal, junto com o Congresso, com pautas-bombas, por exemplo. Quem entrar vai ter de parar seis meses e se concentrar nisso. Não fazer isso é o risco de você ter esse “míni 2015”. O juro real nas NTN-B [títulos do Tesouro] já está em quase 9%, que é justamente essa percepção de risco global, mas principalmente daqui de dentro. É um governo pressionando gastos, pautas-bomba que vêm do Congresso, piso mínimo de salário para várias categorias. Quer dizer, uma festa que já vimos acontecer em 2022. A conta chega. E não vai chegar daqui a alguns anos; virá no ano que vem.

Serão necessárias mais reformas da Previdência?

Temos uma Previdência que foi ajustada em 2019. Há muita coisa ainda para ajustar: regimes de militares, de toda a categoria policial do Brasil, também teremos de aumentar a idade mínima. Falei de três frentes para o fiscal, mas na verdade há uma quarta frente, que é a previdenciária. Isso vai ter de voltar à discussão no ano que vem. É inescapável. Estamos em um processo que, em algumas décadas, o déficit brasileiro na Previdência virará 10% do PIB se nada for feito. É uma bomba já armada, concreta e que não tem nenhuma sinalização de um ajuste mais efetivo acontecendo pelo governo.

Além do fiscal, há a baixa produtividade. Como lidar com isso?

Existe um Brasil que, de forma milagrosa talvez, dados todos os problemas, funciona. Temos uns 40% a 45% do PIB que é dependente das commodities e composto de produtos e bens que geram um potencial de crescimento enorme. Esses setores são produtivos, recebem investimento e correspondem a uma parcela grande do PIB brasileiro. Conseguem destravar crescimento e produtividade. O agro brasileiro é um dos mais produtivos do mundo. O restante, a indústria e outros segmentos, envelheceram no sentido de que, em vez de se aproximarem de quem é mais rico e fazer acordos comerciais interessantes, se fecharam. Nos últimos 40 anos, indústrias que deram certo mundo afora foram as que se juntaram a países mais ricos. Em suma, o crescimento existe, mas uma parte da economia puxa a produtividade para baixo. Depende de fazer acordos comerciais, uma abertura econômica importante. E há outro buraco histórico nosso: a questão educacional. Não conseguimos fazer políticas coordenadas nesse sentido para de fato mudar o patamar de educação. Em um artigo recente, estimei quando foi o ponto em que o Brasil se desconectou do mundo em termos de PIB per capita. E foi ali no começo dos anos 1980. O mundo continuava crescendo, mas o Brasil estagnou e se descolou do mundo. O PIB brasileiro hoje é 42% menor do que poderia ser se tivéssemos seguido naquela trajetória. Ou seja, temos 42% de PIB que se perdeu no caminho. A gente se perdeu com hiperinflação, substituição de importações, investimentos errados nos anos 1970 e apostas equivocadas.

Em reformas estruturantes, o que andou?

Na frente tributária, o governo Lula teve duas coisas interessantes. Uma foi a reforma tributária. É o legado desse governo. Com altos e baixos, alíquota alta, exceções por todos os lados, mas é um salto histórico em relação ao que tínhamos. Espero que ela não se desfaça nos próximos anos. A outra, um legado intangível, é o discurso de que a população mais pobre paga muito imposto. A população mais rica no Brasil não paga o tanto de imposto que precisaria em comparação a outros países. Houve essa questão positiva de trazer essa discussão à baila. Tem muita resistência, especialmente do Congresso. Em 2027, será necessário pensar numa estrutura de a população mais rica, de fato, pagar mais impostos. Precisaríamos reorganizar para tirar o peso da tributação da empresa em si e passá-lo para a renda da pessoa que vai pagar. Os números mostram: hoje, quanto mais alto o nível de renda, menos imposto a pessoa paga. Não faz sentido econômico.

E ela vai entregar o que promete?

Com certeza. Como falei, é o legado do Lula, a melhor reforma que foi feita. Haverá um ganho de produtividade, especialmente na indústria, mas o maior ganho é de simplificação, de eficiência para as empresas, que vai ser enorme. Precisamos evitar que todas essas exceções que apareceram virem brechas no futuro para aumentar exceções e gerar judicialização. Foi o grande tormento do sistema tributário brasileiro no passado. Foi uma reforma criativa ao extremo, ao digitalizar tudo, com um comitê que vai acompanhar toda a transição, e com incentivo à formalização. Isso se junta ao Pix, que também tem um processo de formalização. Se alguém quer estar dentro do sistema de crédito, de um sistema de compra de bens e serviços, precisa estar formalizado. Sem isso, fica fora do jogo hoje. Essa estrutura do Pix com a estrutura tributária que está sendo criada tem um potencial enorme de inclusão, de trazer gente para o sistema. Isso vai gerar aumento de produtividade.

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