'A Odisseia': Professora de estudos clássicos afirma que o blockbuster privilegia o espetáculo e considera que as imagens do filme entram em conflito com a mensagem defendida pelo roteiro (Divulgação)
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Publicado em 6 de agosto de 2026 às 20h11.
"A Odisseia" conquistou as bilheterias e transformou um poema de quase 3 mil anos em um dos maiores eventos cinematográficos de 2026. A recepção, porém, não foi unânime. Uma das críticas mais contundentes veio de Emily Wilson, uma das principais estudiosas da obra de Homero e autora da tradução que inspirou Christopher Nolan em seu próprio processo de adaptação, que voltou a questionar as escolhas do diretor na adaptação para os cinemas.
Professora de estudos clássicos da Universidade da Pensilvânia, Wilson publicou um novo texto na revista The Atlantic em que descreve "A Odisseia" como "visualmente impressionante" e "emocionalmente vazio". Para a especialista, o longa apresenta menos coerência e emoção do que outros grandes filmes de ação.
Wilson já havia feito duras críticas ao filme em um texto publicado pela London Review of Books. Na ocasião, classificou o roteiro de Nolan como "abismal" e afirmou que teria "vergonha de ter escrito qualquer parte" do material.
No artigo, Wilson apontou como um dos principais problemas de "A Odisseia" a interpretação da chamada "Lei de Zeus", conceito mencionado diversas vezes pelos personagens. A ideia está ligada à hospitalidade e ao dever de receber estrangeiros e pessoas vulneráveis com respeito, inclusive pela possibilidade de serem deuses disfarçados.
No filme, a criação do Cavalo de Troia é apresentada como uma grande violação desse princípio. Odisseu, interpretado por Matt Damon, utiliza o cavalo como um presente enganoso para entrar em Troia e atacar a cidade. Para Wilson, a associação feita pelo roteiro apresenta problemas dentro do próprio contexto da guerra.
A tradutora argumenta que gregos e troianos já estavam em conflito havia dez anos e, portanto, não mantinham uma relação de anfitriões e hóspedes. Na avaliação dela, seria mais coerente discutir a própria invasão de Troia e a participação de Odisseu na guerra do que transformar o Cavalo de Troia no principal símbolo dessa ruptura moral.
Wilson também questiona a maneira como o longa combina esse discurso com suas imagens. Segundo ela, enquanto o roteiro ressalta a importância da humanidade e da compaixão, a direção concentra sua atenção no espetáculo e na logística das grandes sequências.
A especialista cita justamente a invasão de Troia como exemplo. Para ela, a câmera dedica mais atenção ao deslocamento do enorme cavalo, aos edifícios em chamas, aos portões da cidade e aos mecanismos envolvidos na destruição do que às consequências humanas do ataque.
"O roteiro nos diz claramente que as pessoas importam, mas a câmera nos mostra que o que importa é o desafio mecânico de mover objetos pelo espaço", escreveu Wilson.
A tradutora chega a comparar o próprio filme a um Cavalo de Troia. Em sua análise, "A Odisseia" apresenta um discurso sobre bondade e compaixão, enquanto suas imagens valorizam outros aspectos da história. É a partir desse contraste que Wilson define o blockbuster de Nolan como "visualmente deslumbrante e emocionalmente vazio".
A avaliação de Wilson, porém, contrasta com a recepção do público e o desempenho comercial de "A Odisseia". O longa recebeu nota "A" no CinemaScore em seu fim de semana de estreia e rapidamente se consolidou como um dos maiores sucessos de bilheteria de 2026.
Em apenas três semanas em cartaz, a produção arrecadou US$ 414 milhões nos Estados Unidos e alcançou US$ 930 milhões mundialmente.