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Christopher Nolan usou inteligência artificial em 'A Odisseia'?

Com cenas impressionantes que vão dos porcos de Circe ao Ciclope, novo filme de Nolan levanta dúvidas sobre uso de inteligência artificial. Saiba como foram criados efeitos e cenários

'A Odisseia': Anne Hathaway protagonizou filme novo de Nolan (Reprodução)

'A Odisseia': Anne Hathaway protagonizou filme novo de Nolan (Reprodução)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 2 de agosto de 2026 às 08h00.

Em "A Odisseia", uma sequência de cenas pode parecer feita com inteligência artificial (IA) — dos porcos de Circe ao Ciclope na caverna. Mas, ao contrário do imaginário público, na verdade, os efeitos do filme são mais práticos do que especiais. E, dessa vez, a IA (e até mesmo o CGI) ficou de fora.

O diretor do filme, Christopher Nolan, já se mostrou contrário ao uso da tecnologia no cinema.

Em entrevista a um canal do YouTube, Nolan afirmou que a IA "é um cavalo de Troia", que, segundo Nolan, assim como o presente de grego dado aos troianos na história, é algo que "você acolhe em seu dia a dia", apenas para vê-la se transformar em "algo diferente e mais sombrio".

“Acho que a IA é um cavalo de Troia que todos sabem que os gregos estão dentro", disse. Para Nolan, a IA é como “um cavalo transparente, feito de vidro”.

“Nunca vi uma tecnologia avançar tão rapidamente e ser tão completamente rejeitada pelo público”, afirmou. “A desconfiança em relação a ela é extrema, principalmente entre os jovens. A reação aos vídeos de IA online é incrível, com pessoas da idade dos meus filhos imediatamente chamando-a de ‘lixo de IA’, cunhando esse termo e simplesmente rotulando-a.”

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Afinal, como as cenas foram feitas?

Uma das cenas que mais gerou dúvidas entre os espectadores foi a dos porcos de Circe, quando a deusa transforma os soldados de Odisseu em animais.

Para a criação da cena, foram usados efeitos práticos, animatrons e próteses físicas em vez de imagens geradas por computador (CGI, na sigla em inglês).  Os atores também usaram materiais maleáveis e mandíbulas móveis que lembram clássicos de terror.

O mais surpreendente, talvez, é o fato de que a atriz Samantha Morton, que interpreta Circe, esticou e moldou fisicamente a pele protética e as cabeças de manequim ao vivo no set, como se fossem argila úmida.

Além de tudo, houve um trabalho de câmera no qual ângulos específicos foram usados ​​para ocultar cortes e fazer transições perfeitas entre os atores e os objetos físicos.

A equipe também filmou imagens ao contrário para dar a impressão de que a comida estava sendo forçada a descer pela garganta dos homens.

O Cavalo de Tróia também não usou efeitos especiais. Para o filme, o departamento de arte de Nolan construiu um enorme adereço prático de 10,7 metros de altura, pesando entre 3,6 mil e quatro mil quilos, em vez de usar imagens geradas por computador.

A estrutura utilizada nas cenas gravadas nas praias do Marrocos era arrastada repetidamente pelas dunas e sofreu tanto desgaste que a equipe passou a brincar que ela tinha "nove vidas".

Sempre que partes começavam a ceder, o departamento de arte fazia novos reparos para mantê-la em condições de uso até o fim da produção.

Construído em módulos, o cavalo foi dividido em nove ou dez seções independentes. As peças viajaram em caixas separadas até o Marrocos, onde foram montadas no set antes do início das gravações.

A engenharia foi colocada à prova na sequência em que o cavalo é levado até Troia. A produção projetou o modelo para que centenas de figurantes e integrantes do elenco conseguissem puxá-lo sobre as dunas com cordas e rolos de madeira, reproduzindo o esforço que a cena exigia.

A Odisseia

Cavalo de Tróia: nem principal adereço do filme foi feito com CGI ou IA (Reprodução)

O realismo também se estendeu ao interior da construção. Em vez de gravar em um estúdio com efeitos digitais, os atores entraram na estrutura oca e filmaram em um espaço apertado, reforçando a sensação de confinamento vivida pelos personagens.

Nem mesmo o Ciclope ou os gigantes Lestrigões foram criados em CGI. Na Odisseia de Nolan, monstros da mitologia grega ganharam forma com animatrônicos gigantes, cenários construídos especialmente para as filmagens e efeitos produzidos diretamente diante das câmeras.

Os Lestrigões, descritos na mitologia como uma raça de gigantes canibais, foram retratados com a combinação de cenários monumentais, sistemas de cabos e a técnica de perspectiva forçada, que faz personagens e objetos parecerem muito maiores do que realmente são sem recorrer à computação gráfica.

Já o Ciclope foi representado por um animatrônico de cerca de 60 pés de altura construído dentro da Caverna de Nestor, na Grécia, local escolhido para as filmagens da sequência.

A estrutura mecânica permitiu que os atores contracenassem com uma criatura em escala real, enquanto o ator Bill Irwin emprestava voz e movimentos ao monstro durante as gravações, sincronizando a atuação diretamente no set.

E os cenários?

Cena do filme A Odisseia, dirigido por Christopher Nolan, mostrando dois personagens em uma estrutura de pedra sobre a praia.

'A Odisseia': nem mesmo os cenários foram feitos por CGI (Reprodução)

As paisagens de "A Odisseia" também foram filmadas sem recorrer a cenários virtuais. Nolan levou a produção para locações reais em seis países, registrando praias, cavernas e construções históricas com câmeras IMAX em vez de utilizar fundos digitais ou estúdios com tela verde.

Entre os cenários escolhidos está a Caverna de Nestor, na Grécia, que serviu de palco para o encontro entre Odisseu e o Ciclope.

A produção também gravou em praias e sítios históricos para preservar a escala e a iluminação naturais das cenas.

As sequências de batalha e dos exércitos espalhados pelo litoral seguiram a mesma lógica. Em vez de multiplicar personagens digitalmente, a equipe reuniu milhares de figurantes com figurinos completos para ocupar os cenários, ampliando a sensação de grandiosidade diretamente diante das câmeras.

Onde o CGI entrou em cena?

Embora a produção tenha priorizado efeitos práticos, o CGI não foi completamente descartado.

Os efeitos digitais foram usados de forma pontual, principalmente para remover cabos de segurança, equipamentos visíveis e outros elementos técnicos que não poderiam aparecer na imagem final.

Algumas sequências também receberam complementos digitais.

As cenas envolvendo o redemoinho no mar, por exemplo, combinaram movimentos reais da água — produzidos com o auxílio de jet skis — com aprimoramentos em computação gráfica para aumentar a intensidade do fenômeno sem substituir os efeitos capturados durante as filmagens.

A proposta de Nolan foi utilizar o CGI como ferramenta de acabamento, preservando cenários, criaturas, multidões e efeitos físicos sempre que possível para manter a escala e o realismo das imagens.

Como funciona a tecnologia do IMAX?

O IMAX combina câmeras de alta resolução, telas gigantes e um sistema de som desenvolvido para aumentar a sensação de imersão. O objetivo é fazer com que a imagem ocupe uma área maior do campo de visão do espectador.

As câmeras IMAX capturam mais detalhes do que as convencionais, enquanto as salas utilizam telas maiores — muitas delas com projeção a laser — para exibir imagens mais nítidas e brilhantes.

O sistema também conta com áudio multicanal calibrado para cada sala, criando uma experiência sonora que acompanha a escala das imagens na tela.

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