Creator Economy: empresas priorizam engajamento e autenticidade, abrindo espaço para influenciadores de nicho ampliarem seus ganhos (Imagem gerada com IA)
Freelancer
Publicado em 26 de julho de 2026 às 12h02.
A ideia de que apenas grandes influenciadores conseguem viver da internet está ficando para trás. Uma nova geração de criadores de conteúdo tem construído carreiras sustentáveis com audiências menores, impulsionada pelo interesse crescente das marcas em perfis que entregam proximidade, credibilidade e alto engajamento.
A mudança acontece porque as empresas passaram a olhar além do número de seguidores. Em campanhas de marketing, criadores com comunidades menores costumam gerar taxas de interação superiores às de grandes influenciadores, aumentando o potencial de conversão e fortalecendo o relacionamento entre marcas e consumidores.
Esse movimento criou espaço para uma espécie de "classe média" da creator economy. Em vez de depender de milhões de seguidores, muitos profissionais conseguem transformar públicos de alguns milhares de pessoas em uma fonte consistente de renda por meio de parcerias comerciais, programas de afiliados e produção de conteúdo patrocinado.
A norte-americana Abi Platock, de 25 anos, é um exemplo dessa tendência. No ano passado, ela dividia a rotina entre um cargo de marketing corporativo em Nova York e a produção de conteúdo nas redes sociais durante o tempo livre. Com a publicação de um ou dois vídeos por dia, ela conquistou audiência ao compartilhar dicas de carreira, beleza e registros do cotidiano.
Ela fechou seu primeiro contrato publicitário quando ainda tinha cerca de 8 mil seguidores no TikTok. O acordo mostrou que o mercado já remunera criadores com comunidades altamente engajadas, desde que o conteúdo tenha relevância para determinado público.
“Fechei meu primeiro contrato publicitário na casa dos quatro dígitos, e para mim foi um momento de grande revelação”, diz Platock à Bloomberg, sobre sua parceria com a marca de desodorantes Secret. “É totalmente possível ter sucesso sem ter centenas de milhares de seguidores.”
Hoje, Platock reúne cerca de 25 mil seguidores em diferentes plataformas. Em 2026, ela já fechou contratos com marcas que somam aproximadamente US$ 25 mil e projeta encerrar o ano com cerca de US$ 50 mil em receita gerada pela criação de conteúdo.
@abiplat Facial balancing! I’ve been dying to try it and consider me obsessed @Ratio NYC #creatorsearchinsights #facialbalancing #botox #howtoglowup #glowupseries
Outro caso, citado pela Bloomberg, é o do dentista Bonsa Nemera, de 28 anos. Durante a semana, ele cumpre plantões de 12 horas em uma clínica odontológica pública de Nova York. Fora do expediente, produz conteúdo para TikTok e Instagram, onde reúne cerca de 100 mil seguidores com vídeos sobre higiene bucal, odontologia e avaliações gastronômicas. Aos 28 anos, o dentista residente recebe um salário anual de US$ 76 mil, mas afirma já ter fechado aproximadamente US$ 180 mil em contratos publicitários com sua atuação como criador de conteúdo ao longo deste ano.
@bonsanemera #ListerinePartner Putting my biggest fear as a Dentist to rest with LISTERINE® Total Care EXTRA Mild and On-the-Go mouthwash!
A trajetória de Platock acompanha uma transformação no mercado publicitário. Cada vez mais, as marcas direcionam investimentos para microinfluenciadores, criadores com comunidades menores, geralmente de até 100 mil seguidores, que entregam maior proximidade com o público.
Segundo Ali Grant, co-CEO da Digital Department, essa estratégia permite que as empresas trabalhem com diversos criadores ao mesmo tempo, alcançando diferentes nichos sem elevar os custos da campanha. "Eles estão contratando vários microcriadores em grande escala, em vez de contratar alguns macrocriadores, pelo que poderia ser o mesmo custo", afirmou, à Bloomberg.
O principal diferencial está no engajamento. Grant explica que uma taxa de 3% já é considerada elevada, enquanto alguns microinfluenciadores ultrapassam os 10%. O indicador mede a frequência com que os seguidores interagem com o conteúdo por meio de curtidas, comentários, compartilhamentos e salvamentos.
Os números reforçam essa tendência. De acordo com a agência de marketing ATTN, microinfluenciadores registram uma taxa média de engajamento de 3,2%, quase três vezes superior aos 1,1% observados entre macroinfluenciadores, que possuem mais de um milhão de seguidores. Um estudo da American Marketing Association também aponta que, embora grandes influenciadores gerem cerca de seis vezes mais receita, os custos das campanhas com esses perfis podem ser até 18 vezes maiores.
O mercado de influência também cresce em escala. A indústria global de influencer marketing saiu de cerca de US$ 1,7 bilhão em 2015 para uma projeção de US$ 33 bilhões em 2025, refletindo o avanço das redes sociais como canal de publicidade e vendas.
Nesse cenário, plataformas como TikTok, Instagram Reels e ferramentas de afiliados ampliaram as possibilidades de monetização, permitindo que criadores diversifiquem suas receitas e construam carreiras mais estáveis.
Apesar da carreira como criador de conteúdo oferecer potencial de ganhos acima da média do mercado tradicional (nos Estados Unidos, o salário médio de um profissional de escritório é de US$ 69 mil anuais, de acordo com o Glassdoor), no universo das redes sociais, porém, a renda depende da frequência de campanhas, do interesse das marcas e do engajamento da audiência, fatores que exigem atualização constante e tornam a estabilidade financeira mais difícil de manter.
A realidade, porém, ainda está longe de ser uniforme. Segundo um relatório divulgado em 2025 pelo Influencer Marketing Hub, cerca de 57% dos 3 mil criadores de conteúdo em tempo integral entrevistados afirmaram ganhar menos do que o necessário para manter um padrão de vida confortável apenas com a produção de conteúdo. Além disso, a renda costuma variar significativamente ao longo do ano, influenciada por mudanças nos algoritmos, disponibilidade de campanhas publicitárias e tendências das plataformas.
Abi Platock resume essa dinâmica: "Você pode ter um mês em que não ganha nenhum dólar, ou pode ter um mês em que ganha US$ 10 mil."
O modelo de negócios dos criadores também está sujeito às decisões das plataformas. A suspensão do TikTok nos Estados Unidos por cerca de 12 horas, durante o debate sobre uma possível proibição do aplicativo, reforçou essa dependência. Mudanças nos algoritmos, nas regras de monetização e nos critérios de recomendação podem alterar rapidamente o alcance das publicações e o potencial de receita.
É também o caso da youtuber brasileira Bel Rodrigues, de 32 anos, que, em um vídeo publicado em maio deste ano em seu canal, relatou que a monetização da plataforma Twitch mudou bruscamente de um mês para o outro. "Na pandemia, em 2020 e 2021, foram os anos em que mais ganhei dinheiro na internet por causa da Twitch. Na época, todas as métricas da plataforma não eram regionalizadas e a remuneração era baseada nos preços dos Estados Unidos. Logo depois de dar entrada na minha casa, a Twitch regionalizou e foi uma bomba para muitos streamers. Muita gente perdeu muito dinheiro de um mês para o outro, como foi o meu caso. Passei a ganhar nem 1/8 do que eu ganhava antes."
Essa incerteza é o combustível para que influenciadores como Anna Fenstermacher prefiram equilibrar as duas carreiras. A influenciadora da Flórida, de 30 anos, reúne cerca de 33 mil seguidores no TikTok e afirma ter faturado aproximadamente US$ 140 mil com conteúdo sobre decoração e moda no ano passado. Ao mesmo tempo, manteve um emprego em tempo integral no setor de hotelaria, que lhe oferece renda fixa, plano de saúde e previdência privada.