Donald Trump: presidente dos EUA retirou o presidente Nicolás Maduro do comando da Venezuela (Joe Raedle/AFP)
Editor de Macroeconomia
Publicado em 3 de janeiro de 2026 às 11h30.
Última atualização em 3 de janeiro de 2026 às 11h44.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na manhã deste sábado, 3, que as forças militares do país fizeram um "ataque em larga escala" à Venezuela. Na operação, os norte-americanos capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, segundo Trump.
A operação militar é o ápice da crescente tensão entre os dois países, que se cresceu significativamente em 2025. No último ano, os EUA bombardearam ao menos 20 embarcações no Caribe que estariam carregando drogas para o país norte-americano, segundo o governo Trump.
Apesar da pressão, os objetivos finais da estratégia de Trump ainda não estão totalmente claros. Ainda há muitas questões em aberto, como quem assumirá o comando da Venezuela após o ataque e até quando as forças americanas ficarão no país.
A Casa Branca, por sua vez, sustenta que a ofensiva responde a uma combinação de fatores estratégicos, que vão do combate ao narcotráfico à disputa geopolítica no hemisfério ocidental.
O governo Trump informou ao Congresso, em outubro, que os Estados Unidos consideram estar em um “conflito armado” com cartéis de drogas na América Latina. O governo Trump acusa Maduro de ter papel central no fluxo de drogas ilegais que chegam ao território americano. Maduro nega as acusações.
Nesse contexto, os EUA passaram a classificar como organizações terroristas estrangeiras o Tren de Aragua e o Cartel de los Soles, ampliando a base legal para operações militares, sanções e ataques a embarcações no Caribe e no Pacífico.
O Departamento de Justiça americano já havia denunciado Maduro por narcoterrorismo em 2020, ainda no primeiro mandato de Trump.
Dados oficiais dos EUA indicam que a Venezuela é rota de trânsito da cocaína destinada à Europa e aos Estados Unidos e abriga grupos criminosos internacionais, embora não seja fonte de fentanil — droga associada à maior parte das overdoses no país.
Em dezembro, Trump divulgou sua nova Estratégia de Segurança Nacional, defendendo a retomada da Doutrina Monroe, do século XIX, segundo a qual o hemisfério ocidental deve permanecer sob influência dos Estados Unidos.
O documento fixa a América Latina no centro das prioridades de política externa e associa a presença americana na região à contenção da influência da China, especialmente em áreas estratégicas como minerais críticos, energia e infraestrutura militar.
Sob sanções severas dos EUA, o governo Maduro aprofundou acordos energéticos e de mineração com China, Rússia e Irã — movimento visto em Washington como uma ameaça direta à influência americana no continente.
Segundo a Reuters, uma mudança de governo em Caracas, ou mesmo um enfraquecimento do regime atual, reforçaria significativamente a posição dos EUA na região.
A principal líder da oposição venezuelana, a vencedora do Nobel da Paz María Corina Machado, declarou apoio explícito à estratégia de Trump.
Em entrevista à CBS, ela afirmou que a Venezuela finalmente passou a ser tratada como prioridade de segurança nacional pelos Estados Unidos, algo que, segundo ela, a oposição vinha defendendo há anos.
Maria Corina Machado: a líder da oposição venezuelana foi vencedora do Nobel da Paz de 2025 (PEDRO MATTEY/AFP)
Após o ataque de Trump, especula-se que ela possa liderar um novo governo na Venezuela. A situação, porém, ainda é extremamente incerta no país, e o ministro da Defesa venezuelano, Vladimir Padrino Lopez, disse que resistiria.
Maduro afirma que o verdadeiro objetivo dos EUA é o petróleo venezuelano, hoje vendido majoritariamente à China.
A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, e analistas ouvidos pela Reuters avaliam que o acesso a esses recursos pode se tornar uma importante moeda de barganha nas negociações com Washington.
Imagem do incêndio em Fuerte Tiuna, o maior complexo militar da Venezuela, após uma série de explosões em Caracas no sábado, 3 (LUIS JAIMES/AFP)
Algumas empresas ocidentais seguem operando no país, entre elas a americana Chevron, que atua sob licença especial. Ainda assim, a indústria petrolífera venezuelana sofre com anos de sanções, queda de produção e falta de investimentos, equipamentos e peças.
Especialistas afirmam que, mais do que o petróleo em si, o incômodo central para Trump é a existência, no hemisfério ocidental, de um país rico em petróleo, minerais e terras raras alinhado a rivais estratégicos dos EUA, como China e Rússia.
Aliados políticos próximos de Trump, incluindo o secretário de Estado Marco Rubio, defendem há décadas uma postura dura contra o regime comunista de Cuba.
Para esse grupo, o governo Maduro — especialmente por meio do fornecimento de petróleo — é um pilar fundamental de sustentação do presidente cubano Miguel Díaz-Canel.
Um enfraquecimento do governo venezuelano, avaliam, reduziria a capacidade de resistência do regime cubano.
A pressão sobre Caracas também está ligada à política migratória americana. Trump constantemente cita que deportará imigrantes "criminosos" de volta a Caracas em seus discursos.
Assim, seu governo vem trabalhando para encerrar o status legal de centenas de milhares de venezuelanos nos EUA, em linha com a promessa de “deportações em massa” que marcou sua campanha de reeleição.
Avião da Eastern Airlines com venezuelanos deportados, no dia 26 de novembro de 2025 (Juan Barreto/AFP)
Segundo dados do Pew Research Center, a população venezuelana nos Estados Unidos cresceu quase 600% entre 2000 e 2021, passando de 95 mil para cerca de 640 mil pessoas, impulsionada pela crise política e econômica no país.
Para a Casa Branca, a estabilização — ou mudança — do regime em Caracas reduziria o fluxo migratório rumo aos EUA.
O governo de Donald Trump designou oito organizações criminosas como grupos terroristas. Entre elas está o Tren de Aragua, facção venezuelana que se tornou um dos principais alvos da retórica e das ações do governo americano.
Os Estados Unidos deportaram mais de 200 venezuelanos acusados de integrar o Tren de Aragua. Eles foram enviados de avião a El Salvador, cujo governo teria recebido pagamentos para manter os deportados em prisões de segurança máxima. No mês seguinte, a Suprema Corte dos EUA determinou a suspensão dessas deportações, ao considerar indevido o uso de uma lei de guerra do século 18 para justificar a medida.
Os governos dos EUA e da Venezuela realizaram uma troca de prisioneiros mediada pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele. Ao todo, 252 venezuelanos que haviam sido deportados em março e estavam detidos no presídio Cecot retornaram à Venezuela. Em contrapartida, o governo de Nicolás Maduro libertou dez cidadãos americanos e um número não especificado de venezuelanos considerados presos políticos por Washington.
O governo Trump dobrou para US$ 50 milhões a recompensa por informações que levassem à prisão de Maduro, acusando-o publicamente de ser “um dos maiores narcotraficantes do mundo”. O governo venezuelano rejeitou as acusações.
Navios militares americanos foram enviados ao Caribe, próximos à costa venezuelana, sob a justificativa de combater o narcotráfico. Em resposta, Maduro mobilizou a Milícia Bolivariana e abriu uma nova rodada de alistamentos voluntários.
Os EUA realizaram o primeiro ataque a uma embarcação supostamente ligada ao narcotráfico no Mar do Caribe. Trump afirmou que 11 “narcoterroristas” morreram na operação, realizada em águas internacionais. Dias depois, o presidente anunciou o envio de dez caças F-35 para Porto Rico.
Novos ataques americanos a embarcações no Caribe resultaram na morte de pelo menos seis pessoas. Trump afirmou que os alvos estavam ligados a organizações terroristas e reiterou que grande parte das drogas que chegam aos EUA teria origem na Venezuela.
Um memorando confidencial enviado ao Congresso — e posteriormente vazado — revelou que o governo dos EUA passou a considerar estar em um “conflito armado não internacional” com cartéis de drogas. O documento afirma que Trump vê essas organizações como grupos armados não estatais cujas ações equivalem a ataques armados contra os Estados Unidos.
Os EUA realizaram uma sequência de ataques a embarcações no Caribe e, pela primeira vez, no Oceano Pacífico. Ao longo desse período, dezenas de pessoas morreram. Em 24 de outubro, Washington anunciou o deslocamento do maior navio de guerra do mundo, o porta-aviões USS Gerald R. Ford, além de outros navios, um submarino nuclear e aeronaves F-35, marcando uma escalada militar inédita na região.
Gerald R. Ford: maior porta aviões do mundo foi enviado para o Caribe em outubro de 2025 ( Alyssa Joy/U.S. Navy via Getty Images/Getty Images)
Os ataques se intensificaram, com múltiplas ações em um único dia e novos bombardeios no Pacífico. Segundo o governo americano, mais de 40 pessoas morreram nessas operações, descritas como as maiores já realizadas contra o narcotráfico na região.
Os EUA anunciaram que designariam o Cartel de los Soles como organização terrorista. Washington acusa Maduro e integrantes de seu governo de liderarem o grupo, o que o presidente venezuelano nega. A medida foi formalmente tomada em 24 de novembro.
O New York Times revelou que Trump e Maduro conversaram por telefone na semana anterior. Segundo o jornal, os dois discutiram a possibilidade de uma reunião nos Estados Unidos, mesmo em meio a ameaças públicas de ação militar. A Casa Branca não comentou oficialmente a ligação.
Trump anunciou o fechamento total do espaço aéreo “sobre e ao redor” da Venezuela. O governo venezuelano reagiu classificando a declaração como uma ameaça colonialista e uma agressão ilegal contra o país.
O governo americano suspendeu pedidos de imigração de cidadãos da Venezuela e de outros países. No mesmo dia, Trump afirmou que uma ação terrestre na Venezuela poderia ocorrer “muito em breve”. O Departamento de Estado passou a recomendar que cidadãos americanos deixassem o país.
Os EUA apreenderam um petroleiro na costa venezuelana, acusando a embarcação de integrar uma rede ilegal de transporte de petróleo entre Venezuela e Irã. Maduro denunciou o episódio como “pirataria internacional”.
Militares americanos descem de helicóptero em navio petroleiro no Caribe, em imagem divulgada pelo governo dos EUA (Reprodução/AFP)
Washington impôs novas sanções contra familiares de Maduro e empresas ligadas ao transporte de petróleo venezuelano, ampliando o cerco econômico ao regime.
Um novo ataque americano no Oceano Pacífico matou oito pessoas, segundo o Exército dos EUA, em mais uma ação contra embarcações supostamente ligadas ao tráfico internacional de drogas.
Trump anunciou um bloqueio “total e completo” de todos os petroleiros sancionados que entram ou saem da Venezuela. Em publicação na rede Truth Social, afirmou que o governo de Maduro foi classificado como uma organização terrorista estrangeira, acusando o regime de terrorismo e tráfico de drogas.