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Agricultores europeus vão às ruas nesta quinta contra acordo com Mercosul

União Europeia deve votar sobre a assinatura da tratativa nesta sexta-feira

Protestos na França: Tratores são vistos estacionados em frente ao Arco do Triunfo durante uma manifestação do sindicato agrícola francês Coordination Rurale (CR) contra o acordo UE e Mercosul (Thomas SAMSON/AFP)

Protestos na França: Tratores são vistos estacionados em frente ao Arco do Triunfo durante uma manifestação do sindicato agrícola francês Coordination Rurale (CR) contra o acordo UE e Mercosul (Thomas SAMSON/AFP)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 8 de janeiro de 2026 às 11h51.

Às vésperas da possível aprovação do acordo entre a União Europeia e o Mercosul, agricultores de diversos países europeus voltaram às ruas nesta quinta-feira, 8, para protestar contra o tratado.

A expectativa é de que o Conselho da União Europeia aprove o acordo nesta sexta-feira, 9. Negociada desde 1999 com Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai, a proposta enfrenta forte resistência da França — um dos países mais críticos ao pacto.

Caso seja aprovado, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, poderá viajar ao Paraguai na próxima semana para a assinatura oficial, prevista para segunda-feira, 12.

“Não estamos aqui para causar problemas. Só queremos trabalhar e ganhar a vida com a nossa profissão”, afirmou à AFP Damien Cornier, agricultor francês de 49 anos.

Na França, os protestos desta quinta-feira foram organizados pela Federação Nacional dos Sindicatos de Agricultores (FNSEA) e pela Coordenação Rural, duas das principais entidades do setor agrícola no país.

Segundo o Ministério do Interior, cerca de 100 tratores chegaram a Paris, embora a maioria tenha sido contida nos bloqueios de acesso à capital. Além disso, produtores bloquearam estradas no sudoeste e leste do país, bem como depósitos de combustível.

França e Polônia são hoje as principais barreiras à aprovação do tratado. Os agricultores afirmam que o setor agropecuário europeu perderá competitividade diante das commodities do Mercosul — especialmente as brasileiras, que são mais baratas.

Apesar da oposição, estimativas da própria Comissão Europeia apontam que as exportações agroalimentares do bloco para os países sul-americanos devem crescer 50% com o acordo, beneficiadas pela redução de tarifas sobre produtos como vinhos e bebidas alcoólicas (até 35%), chocolate (20%) e azeite (10%).

Além da França, outros países da UE também registraram mobilizações nesta quinta-feira. Na Bélgica, agricultores realizaram protestos tanto na região da Flandres quanto na Valônia, em reação à possível assinatura do acordo.

Cerca de 150 a 200 tratores se concentraram próximo ao porto de Zeebrugge, na província de Flandres Ocidental, bloqueando parcialmente vias de acesso ao tráfego de mercadorias, o que impactou principalmente caminhões. Segundo a agência de notícias Belga, a ação deve se estender até o fim do dia.

Na Grécia, produtores rurais intensificaram bloqueios em estradas e fronteiras após um mês de mobilizações por atraso no pagamento de subsídios e por novos apoios ao setor. Nos últimos dias, a pauta também passou a incluir oposição ao tratado com o Mercosul.

Na Alemanha, grupos de agricultores realizaram protestos em rodovias do norte e leste do país, bloqueando vias de acesso à capital, Berlim. De acordo com a rede regional RBB, trechos foram obstruídos na região de Brandemburgo. A polícia chegou a dispersar alguns piquetes não autorizados.

As manifestações foram convocadas pela Associação de Agricultores de Brandemburgo e pelo movimento “O Campo Conecta” ("Land schafft Verbindung", em alemão), que vem liderando uma série de ações em defesa do setor agrícola nos últimos meses.

O papel da Itália

Segundo o site Politico, a Itália — uma das principais incertezas em relação à assinatura do acordo entre União Europeia e Mercosul — está inclinada a aprovar a tratativa.

Às vésperas da votação marcada para esta sexta-feira, 9, pelo Conselho da UE, o ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, afirmou que o país está satisfeito com os esforços da Comissão Europeia para tornar o acordo mais aceitável.

“A Itália nunca mudou sua posição: sempre apoiamos a conclusão do acordo”, disse Tajani na noite de quarta-feira.

Na mesma linha, o ministro da Agricultura, Francesco Lollobrigida, declarou que o tratado representa uma oportunidade, especialmente para os exportadores italianos de alimentos. No entanto, nenhum dos dois confirmou de forma categórica que a Itália votará a favor do pacto.

O apoio italiano é considerado essencial, já que a aprovação do acordo exige maioria qualificada: ao menos 15 dos 27 países-membros da UE, representando 65% da população do bloco. Com seu peso demográfico, a Itália detém, na prática, o voto de desempate.

Nesta semana, em mais uma tentativa de destravar a negociação, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou acesso antecipado a até 45 bilhões de euros em financiamentos agrícolas dentro do próximo orçamento plurianual da UE (2028–2034). Ela também reafirmou os 293,7 bilhões de euros já previstos para o setor após 2027.

Segundo von der Leyen, as medidas garantiriam aos agricultores e comunidades rurais "um nível de apoio sem precedentes", em alguns casos superior ao do atual ciclo orçamentário.

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