(Imagem gerada por IA/Exame)
Repórter
Publicado em 11 de junho de 2026 às 07h37.
Antes de uma bola ser chutada, pesquisadores da Northeastern University já mapearam como os cinco times favoritos ao título da Copa do Mundo de 2026 devem se comportar em campo.
O trabalho é do NetSI Sport Research Group, laboratório especializado em análise de futebol que usa dados de passes, gols e interceptações para identificar padrões táticos — e as conclusões são mais específicas do que qualquer prognóstico de mesa.
A análise foi feita por Brennan Klein, diretor do grupo, com base em dados fornecidos pela Hudl StatsBomb, empresa de análise esportiva, e complementada por Ashley Phillips, técnica de futebol feminino da Northeastern University.
Os cinco times analisados são os que lideram o ranking mundial oficial Fifa para a Copa de 2026.
A análise dos padrões de passe da França nas últimas duas competições revela um time construído para atacar.
Na Copa de 2022, o sistema girava em torno de Kylian Mbappé, que dominava o lado esquerdo do campo, e Ousmane Dembélé, que dominava o direito.
Na Eurocopa de 2024, os padrões de passe foram ajustados para priorizar as capacidades de finalização de Mbappé, que tomou 19 chutes no torneio.
Para 2026, Klein projeta que Mbappé vai ocupar uma posição mais central para abrir espaço para outros atacantes.
Kylian Mbappé: jogador francês tinha 19 anos quando venceu a Copa do Mundo de 2018 (Mehdi Taamallah/NurPhoto via Getty Images)
Dembélé — que em dezembro ganhou o prêmio Fifa de melhor jogador do mundo — e o ponta-direita Michael Olise, que teve uma temporada de destaque no Bayern de Munique, devem ganhar protagonismo.
"É um elenco muito mais forte e muito mais assustador para os adversários enfrentar", disse Klein.
Phillips resumiu a filosofia francesa com precisão. "Há times que querem segurar a bola o jogo inteiro, e há times que só querem marcar gols. A França é claramente o segundo tipo."
A evolução tática da Espanha entre 2022 e 2024 é a mais visível entre os cinco times analisados. Na Copa do Mundo de 2022, o time usava o tiki-taka clássico, passes curtos e consistentes pelo meio de campo.
Na Eurocopa de 2024, a estratégia mudou radicalmente para aproveitar dois jovens: Nico Williams, pela esquerda, e Lamine Yamal, pela direita.
Os dados de Yamal na Eurocopa são impressionantes: liderou o time com 19 chances criadas — situações em que seu passe gerou uma tentativa de gol direta — e oito grandes chances, situações em que o jogador que recebeu tinha alta probabilidade de marcar.
Lamine Yamal, da Espanha ((Foto de Oscar J. Barroso/Europa Press via Getty Images) )
Williams criou o segundo maior número de grandes chances do torneio, com quatro. A Espanha ganhou a Eurocopa com essa estratégia.
Klein projeta que a Espanha vai depender ainda mais de Yamal em 2026, dado o crescimento do jogador nos últimos dois anos. "Acho que eles vão continuar tentando manter a bola e abrir os times pelos lados", disse Phillips.
A análise dos padrões de passe da Argentina em 2022 revela algo simples e eficaz: o sistema inteiro foi construído para fazer a bola chegar a Lionel Messi.
"A razão pela qual foram tão bem-sucedidos em 2022 é que tudo correu conforme o planejado em termos de fazer a bola chegar ao Messi", disse Klein. "O time inteiro é construído para recuperar a bola e entregá-la aos meio-campistas, que são extremamente bons em fazer a bola chegar ao Messi."
Messi marcou sete gols em 2022, sendo o artilheiro da equipe.
Lionel Messi: jogador estará na Copa de 2026 ( Tim Warner/Getty Images/AFP)
Na Copa América de 2024, a Argentina usou estratégia semelhante, mas com Messi um pouco mais avançado no campo. Klein projeta a continuidade dessa abordagem em 2026 — com a ressalva de que Messi tem 38 anos e a idade pode ser um fator.
Phillips destacou a adaptabilidade da Argentina como diferencial: o time consegue tanto dominar a posse de bola quanto jogar no contra-ataque. "Esses jogadores já fizeram isso antes. Já jogaram nesse palco e foram bem-sucedidos", disse ela.
A participação da Inglaterra na Copa de 2022 foi "conservadora e avessa ao risco", na avaliação de Klein — e os dados mostram o problema com clareza.
Os dois maiores ameaças ofensivas do time, o centroavante Harry Kane e o ponta Bukayo Saka, receberam passes em quantidade insuficiente. A equipe foi eliminada pela França nas quartas de final.
Na Eurocopa de 2024, o time corrigiu o erro. Kane e Saka passaram a receber mais passes, e a Inglaterra chegou à final do torneio antes de perder para a Espanha por 2 a 1.
Harry Kane (Alexander Hassenstein/Getty Images)
O desenvolvimento dos dois jogadores é mensurável: o percentual de conversão de chutes de Kane — a proporção de chutes que viram gol — passou de 16% na Copa de 2022 para 28,7% em 2026, segundo os dados.
"A Inglaterra é um time muito direto", disse Phillips — e Klein concorda que essa característica vai ser um ativo em 2026.
Portugal sempre teve Cristiano Ronaldo como referência ofensiva. Mas a análise da Northeastern sugere que, pela primeira vez, o caminho para o título pode não passar necessariamente por ele.
"Em anos anteriores, você não conseguia imaginar Portugal chegando longe sem que Ronaldo fosse um jogador central em todo o torneio. Desta vez, parece que se chegarem bem longe, será graças a essa geração extremamente talentosa de meio-campistas", disse Klein.
O principal nome desse meio-campo é Bernardo Silva. Na Eurocopa de 2024, os padrões de passe mostraram uma equipe que combina controle do meio com amplitude de jogo pelas laterais — passes mais altos e largos chegando a jogadores criativos como Silva e Ronaldo.
Cristiano Ronaldo: jogador estará na Seleção de Portugal (Image Photo Agency/Getty Images)
A chave para o sucesso é controlar o meio-campo e encontrar uma forma de fazer a bola chegar ao Ronaldo, que é extremamente bom em marcar gols", disse Klein.
Phillips espera que Portugal use um estilo parecido com o da vizinha Espanha — baseado em posse de bola e meio-campo forte.
A diferença, para os dados, é que a geração atual de meio-campistas portugueses pode ser grande o suficiente para carregar o time mesmo nos jogos em que Ronaldo não decidir.