Uefa acusa Infantino de descumprir promessas feitas em 2016 (Pablo Porciuncula/AFP)
Redação Exame
Publicado em 1 de agosto de 2026 às 13h36.
Última atualização em 1 de agosto de 2026 às 13h38.
A Uefa não deixou passar em branco o recuo da Fifa. Horas depois de a entidade desistir oficialmente de vender participações em suas competições, entre elas a Copa do Mundo, a confederação europeia divulgou neste sábado, 1º, um comunicado exigindo que os responsáveis pelo que chamou de "planos secretos, que são tramitados por via rápida" prestem contas.
No texto, a Uefa afirma que trabalhará nos próximos dias e semanas com suas federações filiadas e em colaboração com outras confederações "para refletir sobre como isso ocorreu e elaborar um plano que garanta que isso não volte a acontecer", prometendo uma revisão "exaustiva e profunda" em que "nenhuma opção deve ser descartada".
"A atual direção da Fifa não só perdeu a confiança da Uefa, mas também a de muitos outros membros da família do futebol. Não podemos continuar assim, com planos secretos que são aprovados por via rápida, idealizados por pessoas anônimas e de benefício duvidoso para o esporte. Devemos identificar os responsáveis e exigir que prestem contas", diz o comunicado.
UEFA welcomes FIFA’s withdrawal of plans to sell a stake in the World Cup
— UEFA (@UEFA) August 1, 2026
A Uefa destacou que a proposta havia sido "rejeitada por unanimidade" pelas federações nacionais europeias "e por muitas outras federações e confederações de todo o mundo, independentemente de seu tamanho, cuja missão é proteger o futebol".
A entidade também agradeceu a torcedores, ligas, clubes, jogadores, federações, confederações e a "primeiros-ministros, chefes de Estado e comentaristas" que se posicionaram contra a iniciativa.
A Uefa foi a primeira confederação a manifestar rejeição total ao plano assim que ele veio à tona pela imprensa, chegando a anunciar que suas federações não participariam de competições da Fifa caso o projeto avançasse. Depois de uma reunião das 55 federações que compõem a entidade, a Uefa declarou posição "unânime e inequívoca" contra a transferência de participações acionárias da Copa do Mundo e de outras competições da Fifa para investidores privados.
O comunicado também recuperou declarações do presidente da Fifa, Gianni Infantino, feitas em 2016, quando ele buscava apoio das federações para ser eleito. Na época, o dirigente prometeu: "É claro que devemos ser transparentes. Foi assim que agi nos últimos 15 anos da minha vida na Uefa. Vocês terão que desempenhar um papel diário na vida da Fifa. O dinheiro da Fifa é o dinheiro de vocês. Não é o dinheiro do presidente da Fifa. É o dinheiro de vocês. Vocês são as federações nacionais e o dinheiro da Fifa deve servir para o desenvolvimento do futebol e para nada mais".
Segundo a Uefa, Infantino descumpriu ambas as promessas. "O acordo duvidoso, arquitetado a portas fechadas e opaco que ele idealizou e tentou impor foi tudo menos transparente. E, com reservas que ultrapassam US$ 5 bilhões, ele também não utilizou o dinheiro das federações em benefício do futebol", afirma o texto.
A Uefa anunciou que começará a trabalhar imediatamente com parceiros e partes interessadas de todo o mundo para propor uma nova forma de distribuir recursos por meio do programa Fifa Forward, já existente.
"Precisamos começar a utilizar parte desse dinheiro que permanece inativo na conta bancária da Fifa para dar o impulso inicial de que as bases e o futebol em geral precisam em cada um dos 211 países da Fifa. Mas não é necessário que vendamos as joias da família para financiar isso. Esta é uma vitória para todo o futebol. Mas não deve ser o fim da história. A proposta já foi apresentada. A tarefa de restabelecer a confiança na Fifa mal começou", concluiu a entidade.
A proposta rejeitada previa a venda de 20% da Fifa Forward Enterprise (FFE), subsidiária que a Fifa pretendia criar para administrar as operações comerciais e os eventos da organização, como a Copa do Mundo, seu principal produto.
Em comunicado divulgado nesta sexta-feira, 31, véspera da nota da Uefa, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, afirmou que o projeto passou a gerar divisões internas e deixou de cumprir seu principal objetivo: fortalecer o futebol mundial.
"Depois de ouvir atentamente todos os pontos de vista, ficou claro que o projeto criou divisões que, independentemente do nível de apoio recebido, já não atendem ao objetivo que motivou sua criação", disse.
Em troca da aprovação do projeto, a Fifa prometia ampliar significativamente os repasses às 211 federações filiadas — de US$ 8 milhões para até US$ 20 milhões por federação no ciclo de 2027 a 2030. Documentos internos apontavam ainda ofertas que poderiam chegar a US$ 40 milhões para garantir apoio político à proposta.
Além da Uefa, o plano enfrentou oposição de praticamente todas as confederações continentais: Concacaf e Confederação Asiática de Futebol (AFC) também rejeitaram publicamente a iniciativa, enquanto Conmebol, CAF e OFC cobraram esclarecimentos e convocaram reuniões próprias sobre o tema.
A resistência chegou à cúpula da própria Fifa. Na sexta-feira, Carlos Cordeiro, assessor de confiança de Infantino, renunciou ao cargo em protesto contra o projeto. O presidente americano Donald Trump, por sua vez, negou ter discutido a proposta com o dirigente da Fifa.
*Com informações da EFE