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Nova York: fumaça dos incêndios no Canadá atravessou milhares de quilômetros e chegou ao céu das maiores cidades dos Estados Unidos (Gary Hershorn/Getty Images)
Editora ESG
Publicado em 21 de julho de 2026 às 05h45.
Última atualização em 21 de julho de 2026 às 09h52.
No último fim de semana, Nova York encarou os extremos do clima em sequência. Depois de dias de calor forte e da fumaça dos incêndios que ainda queimam no oeste de Ontário, no Canadá, tempestades severas atingiram a cidade no sábado, 18.
Ruas do SoHo viraram rios, estações de metrô alagaram, trechos de vias expressas foram fechados e bombeiros resgataram motoristas ilhados no Queens, enquanto áreas vizinhas ficavam sob alerta de tornado. Em alguns pontos, caíram de cinco a dez centímetros de chuva em poucas horas.
No fim, foi a própria tempestade que dispersou a fumaça canadense e devolveu o céu à cidade. E não é a primeira vez que Nova York vive algo assim. Em 2023, incêndios no Canadá já haviam deixado a ilha de Manhattan sob um céu alaranjado, com a pior qualidade do ar desde os anos 1960
Enquanto para os nova-iorquinos, a crise climática deixou de ser projeção de relatório e virou paisagem urbana, para investidores a milhares de quilômetros dali, os mesmos eventos se converteram oportunidade de negócio.
Acredite se quiser, aconteceu também durante os incêndios que arrasaram Los Angeles no início de 2025, havia gente apostando quantos hectares as chamas iam consumir, até onde chegariam e quando seriam contidas.
Tudo possibilitado pela Polymarket, a maior de um grupo de plataformas consideradas "mercados de previsão", em que qualquer pessoa pode apostar dinheiro no desfecho de eventos futuros, de eleições a resultados de futebol.
A aposta em desastre virou produto numa mecânica simples: na plataforma, cada lance nasce de uma pergunta sobre o futuro que só admite sim ou não.
Formuladas pela própria Polymarket a partir de sugestões dos usuários, as questões vão de um "Vai chover em tal data?" até "O candidato fulano vence a eleição?".
O apostador então compra cotas da resposta em que acredita, aportando de zero e a um dólar. Quanto mais gente aposta num resultado, mais cara fica a sua cota, e é esse preço que serve de estimativa de probabilidade.
Por exemplo, uma cota de "sim" a 65 centavos significa que o conjunto de apostadores enxerga cerca de 65% de chance de aquilo acontecer. Confirmado o resultado, cada cota vencedora é paga a um dólar, e quem ficou do lado errado perde o que colocou.
A Polymarket evita a palavra aposta. Para a empresa, seus usuários apenas negociam resultados de eventos futuros, competindo entre si, e não com a própria plataforma.
A distinção soa melhor no discurso do que na prática, mas tem fundamento. Como o preço de cada cota é uma probabilidade, o conjunto delas funciona como uma previsão, e é nisso que a empresa se apoia para se dizer fonte de informação, e não cassino.
O incômodo aparece quando se olha a lista de perguntas em aberto, porque ali estão os desastres climáticos.
Por trás daquelas apostas de Los Angeles havia tragédia real. O incêndio que reduziu bairros de Altadena a escombros e matou 19 pessoas rendeu lucro a quem apostou certo no tamanho da destruição.
Em entrevista para a CNN americana, uma cientista climática cujo avô perdeu a casa no fogo resumiu o desconforto ao dizer que, quando existe recompensa financeira ligada a um incêndio, cria-se um incentivo que não existia antes.
Já há inclusive outra plataforma, a WyldFyre, dedicada só a apostas sobre fogo na Califórnia, com um slogan que diz que ninguém prevê o fogo, mas dá para negociá-lo.
Neste contexto, há ao menos dois riscos latentes. Um deles, sugerem especialistas, é comportamental.
Transformar catástrofe em placar anestesia, faz do prejuízo alheio uma linha de planilha e afasta quem aposta da realidade de quem perdeu tudo.
O outro é material. Diferentemente de um furacão ou de um terremoto, um incêndio pode ser deflagrado por qualquer pessoa.
E o ganho financeiro é um dos motivos clássicos do incêndio criminoso, ao lado de vingança, vandalismo e busca por emoção, segundo a tipologia do Crime Classification Manual, referência da área criada por analistas comportamentais do FBI.
Há ainda uma proximidade clínica pouco lembrada. A piromania e o jogo compulsivo foram por muito tempo classificados na mesma família de transtornos do controle dos impulsos. Estudos que meçam diretamente a relação entre apostas e incêndios ainda não existem, mas o risco é intuitivo.
Com dinheiro na mesa, provocar o fogo, ou deixá-lo arder mais um pouco, pode virar uma forma de garantir o pagamento. Se em incêndios isso ainda é hipótese, no clima, já houve suspeita concreta de manipulação.
Conforme a reportagem da CNN, sensores de temperatura do aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, registraram picos súbitos e inexplicáveis de calor que renderam pagamentos altos a quem havia apostado em marcas improváveis, e a Météo-France, o serviço meteorológico francês, levou o caso à polícia.
A hipótese, não confirmada e quase risível, era a de que alguém teria esquentado o sensor com um secador de cabelo. O detalhe é anedótico, o vetor de risco não é.
Vale destacar que nem todo mercado de previsão existe para lucrar com a catástrofe. Economistas defendem que, bem desenhados, com especialistas e recompensa por informação em vez de dinheiro apostado, esses mercados podem ajudar a antecipar riscos climáticos.
A própria Polymarket argumenta que o fim desses mercados não evitaria nenhuma tragédia, apenas dificultaria o acesso à informação mais precisa. Na prática, porém, os números contam outra história.
Um estudo recente apontou que 1% dos usuários concentra a maior parte dos lucros da plataforma, e pesquisadores alertam que esses mercados tendem a empurrar parte dos participantes para a dependência.
O mesmo produto vai de instrumento de previsão a especulação sobre a catástrofe, de acordo com o que é desenhado e o que se aposta. A pergunta, então, não é liberar ou proibir em bloco. É definir em que ponto desse intervalo a aposta pode operar, e sobre quais eventos ela nunca deveria permitir.
Neste sentido, alguns limites já começam a ser traçados. Nos Estados Unidos, parlamentares propuseram vetar contratos sobre terrorismo, assassinato, guerra e atividades ilegais.
E órgãos de combate a incêndio, federais e estaduais, recusaram tratar o fogo como evento de especulação, garantindo que não usam nem pretendem usar dados desses mercados.
O Brasil foi mais longe e bloqueou de vez as plataformas de previsão - incluindo a própria Polymarket-, por enquadrá-las como aposta ilegal. Por aqui contudo, o debate sobre apostas ainda não passa por eventos climáticos extremos.
O que move o apostador brasileiro é o futebol, e o que move o debate é o endividamento. E, como já seria de se imaginar, a Copa do Mundo funcionou como acelerador.
Só entre 9 e 25 de junho, os brasileiros enviaram mais de R$ 500 milhões às casas de apostas, segundo levantamento com dados do Open Finance, e o gasto médio por apostador subiu cerca de 24% no período.