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Watch Duty: o aplicativo que cresce monitorando eventos climáticos extremos

Ferramenta criada na Califórnia atrai usuários, empresas e concessionárias em meio ao aumento da frequência de incêndios e inundações

Aplicativo amplia cobertura para novos riscos climáticos à medida que cresce a demanda por informações em tempo real sobre eventos extremos (Patricia de Melo Moreira/AFP)

Aplicativo amplia cobertura para novos riscos climáticos à medida que cresce a demanda por informações em tempo real sobre eventos extremos (Patricia de Melo Moreira/AFP)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 20 de julho de 2026 às 16h43.

Criado há cinco anos para monitorar incêndios florestais na Califórnia, o aplicativo Watch Duty vem ampliando sua atuação nos Estados Unidos à medida que eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes.

A plataforma, que reúne dados de alertas oficiais, previsões meteorológicas, rádios de emergência e redes sociais, passou a incluir o monitoramento de enchentes e incêndios em novas regiões do país, acompanhando a demanda crescente por informações em tempo real.

O aplicativo já soma 10 milhões de usuários únicos em 2026 e caminha para superar os quase 17 milhões registrados ao longo de todo o ano passado.

O crescimento acelerou após os incêndios que atingiram Los Angeles em janeiro de 2025, quando milhões de pessoas passaram a utilizar a ferramenta para acompanhar a evolução das chamas e as ordens de evacuação.

Infraestrutura sob clima extremo

A expansão ocorre em um contexto de aumento dos desastres relacionados às mudanças climáticas. Incêndios florestais e chuvas intensas vêm se tornando mais frequentes nas últimas décadas, impulsionados pelo aquecimento global, que favorece tanto eventos extremos de precipitação quanto o ressecamento de áreas suscetíveis ao fogo.

Dados do IPCC e de estudos publicados na Nature confirmam essa tendência: a frequência e intensidade de incêndios florestais extremos mais que dobraram desde 2003, enquanto a ocorrência de eventos climáticos extremos multiplicou-se por cinco nos últimos 50 anos, segundo a Organização Meteorológica Mundial.

Watch Duty: aplicativo criado durante os incêndios florestais da Califórnia já é adotado como medida de adaptação da infraestrutura (Watch Duty/Reprodução)

Além dos usuários individuais, empresas de infraestrutura passaram a adotar a plataforma como ferramenta operacional. Em 2025, o Watch Duty firmou contratos recorrentes de US$ 1 milhão com concessionárias de energia, empresas de telecomunicações e operadoras ferroviárias, valor que a organização espera mais do que dobrar neste ano.

Entre os principais clientes está a Pacific Gas and Electric (PG&E), concessionária que atende cerca de 16 milhões de pessoas na Califórnia. Mais de 4 mil funcionários utilizam uma versão interna do aplicativo que combina informações sobre incêndios com mapas da rede elétrica, reduzindo o tempo necessário para avaliar riscos à infraestrutura.

De incêndios para enchentes

Originalmente voltado aos incêndios florestais, o aplicativo começou a monitorar enchentes em junho deste ano. Poucas semanas depois, uma chuva que acumulou mais de 30 centímetros em poucas horas em partes do Missouri levou milhares de pessoas a acessar a plataforma. Segundo a organização, a página dedicada ao evento registrou 37 mil visualizações, enquanto a base local de usuários passou de cerca de 300 assinantes para dezenas de milhares.

Na primavera, durante incêndios nos estados da Flórida e da Geórgia, o Watch Duty chegou a registrar até mil novas assinaturas por hora para receber alertas, alcançando cerca de 127 mil usuários na região poucos meses após iniciar a cobertura.

Embora o aplicativo seja gratuito, há planos pagos de US$ 25 e US$ 100 por ano que oferecem recursos adicionais, como alertas para múltiplos condados e camadas extras de mapas. Em 2025, mais de 111 mil pessoas aderiram ao plano básico pago, o dobro do registrado no ano anterior.

Lacunas na resposta pública

Segundo o The New York Times, o crescimento da plataforma também reflete preocupações sobre a capacidade dos órgãos públicos de responder aos desastres naturais. A reportagem cita cortes de orçamento e de pessoal promovidos pelo governo Donald Trump em agências como o Serviço Nacional de Meteorologia e a Agência Federal de Gestão de Emergências.

Apesar disso, o cofundador e CEO do Watch Duty, John Clarke Mills, afirma que a plataforma depende dos dados produzidos pelos órgãos governamentais e busca complementar as informações oficiais com tecnologia capaz de consolidar diferentes fontes em tempo real. "Se eles não vão alertar a população, nós vamos. Se eles nos tirarem do mercado, ótimo", conta.

Especialistas ouvidos pelo jornal ponderam, contudo, que a tecnologia não elimina desafios estruturais. Em regiões como o leste do Kentucky, por exemplo, fatores como a cobertura limitada de telefonia móvel, a escassez de dados hidrológicos e as características do relevo ainda dificultam a emissão de alertas rápidos para enchentes.

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