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Por que o 'insider trading' não é um problema no mercado de previsões

Uso de informações privilegiadas em plataformas como Kalshi ou Polymakert não é crime

Insider trading: no mercado de ações, é crime (Germano Lüders/Exame)

Insider trading: no mercado de ações, é crime (Germano Lüders/Exame)

Rebecca Crepaldi
Rebecca Crepaldi

Repórter de finanças

Publicado em 22 de fevereiro de 2026 às 06h00.

Os mercados de previsão têm ganhado cada vez mais espaço no mainstream financeiro. Nessas plataformas online, pessoas apostam em eventos futuros — eleições, esportes, clima e até lançamentos de filmes — e os preços das apostas refletem a probabilidade de cada resultado.

No Kalshi, o maior site americano, o volume de negociações subiu 12 vezes no último ano, chegando a US$ 24 bilhões, de acordo com reportagem da revista The Economist.

Com esse crescimento, surgem preocupações sobre o chamado 'insider trading', quando alguns participantes têm informações que o público não possui. Casos recentes mostram que, em algumas apostas, os preços de resultados corretos chegaram a ultrapassar 90% pouco antes de notícias oficiais, indicando que alguns traders já sabiam o resultado.

Um exemplo extremo, que se tornou criminal, aconteceu em Israel: dois homens foram presos por usar informações secretas para lucrar cerca de US$ 150 mil apostando sobre o momento de um ataque militar ao Irã.

Mas não é exatamente um crime

É natural comparar esses casos com os escândalos de insider trading em ações, como os de Ivan Boesky e Raj Rajaratnam. Mas a comparação não é exata. A diferença principal está no objetivo do mercado – nos mercados de previsão, o insider trading não é crime nem injustiça – e pode ser um serviço valioso.

Nos mercados de ações, se insiders usam informações privilegiadas para ganhar dinheiro, apostando alto na queda de uma ação por exemplo, investidores que não tem acesso aos mesmos dados saem perdendo e há risco das empresas assistirem a uma queda expressiva de valor de mercado. Por isso, a lei proíbe esse tipo de prática: o financiamento de empresas depende de participação ampla e justa do público.

Nos futuros e mercados de previsão, porém, a situação é diferente.

Eles foram criados para que participantes da indústria — produtores de trigo, empresas de petróleo, ou quem aposta em eventos — possam proteger seus riscos (hedge). A participação massiva do público não gera benefícios diretos nesse caso, então insider trading pode ser útil: ele ajuda a precificar melhor os eventos, beneficiando quem observa os preços sem precisar apostar.

Os mercados de previsão têm um benefício extra: permitem que qualquer pessoa acompanhe informações valiosas sem pagar. Cinemas podem prever quais filmes vão fazer sucesso; empresas podem ajustar decisões de importação e exportação baseadas nas chances de mudanças em tarifas ou políticas.

Alerta

Ainda assim, existem situações que exigem cuidado. Primeiro, quando a divulgação de informações pode causar dano, como em ações militares ou negociações estratégicas de empresas de capital aberto, como  a disputa da Warner Bros pela Paramount e Netflix.

Segundo, quando traders podem influenciar diretamente o resultado do evento — como ocorreu quando o Polymarket retirou uma aposta sobre o foguete Artemis II explodir, para evitar incentivo à sabotagem.

Para lidar com esses riscos, reguladores já exigem que os mercados de previsão verifiquem a identidade dos usuários, monitorem atividades suspeitas e reforçem medidas como rastrear a origem dos fundos e os empregadores dos traders.

No entanto, sites offshore não estão sob fiscalização direta, mas plataformas que aceitam supervisão regulatória tendem a atrair mais capital institucional e concentrar o mercado, tornando as previsões mais confiáveis.

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