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Setor de alumínio brasileiro reúne matriz elétrica limpa e alta taxa de reciclagem, vantagens que reduzem o custo do CBAM europeu (Germano Luders/Exame)
CEO da David Canassa - Strategy & Advisory
Publicado em 20 de julho de 2026 às 16h40.
Última atualização em 20 de julho de 2026 às 16h41.
*Por David Canassa
Desde 1º de janeiro de 2026, importar aço, alumínio, cimento ou fertilizantes para a União Europeia passou a exigir a compra de certificados de carbono — um custo que se acumula a cada trimestre e será pago em setembro de 2027.
No segundo trimestre de 2026, o certificado CBAM foi fixado em € 75,28 por tonelada de CO₂. O Carbon Border Adjustment Mechanism (CBAM), peça central do pacote legislativo "Fit for 55", saiu do papel e está em operação plena, com tendência de alta à medida que o teto de emissões do EU ETS (Emissions Trading System) se contrai e as permissões gratuitas para a indústria europeia são eliminadas.
Para os exportadores brasileiros de aço e alumínio, o mecanismo já não é um exercício de cenários. É uma realidade financeira que passa a ser calculada em cada tonelada embarcada.
Dados oficiais do Comex Stat (MDIC) mostram que as exportações brasileiras de produtos diretamente cobertos pelo CBAM para a União Europeia somaram US$ 2,2 bilhões em 2025:
| Capítulo NCM | Descrição | Valor (US$ FOB) | % do Total CBAM |
| 72 | Ferro e aço (ferro fundido, semiacabados, laminados, ferroligas) | US$ 1.734.164.965 | 78,8% |
| 76 | Alumínio e suas obras | US$ 258.249.941 | 11,7% |
| 73 | Obras de ferro e aço (tubos, estruturas, perfis) | US$ 209.165.608 | 9,5% |
| Total | Capítulos 72 + 73 + 76 | US$ 2.201.580.514 | 100% |
Fonte: Comex Stat — MDIC. Exportações do Brasil para a União Europeia, jan-dez 2025.
O valor total das exportações brasileiras para o bloco no período foi de US$ 49,77 bilhões. Os produtos hoje cobertos pelo CBAM representam 4,4% de tudo o que o Brasil vende à UE — fatia que pode crescer com a expansão do mecanismo para produtos downstream a partir de 2028.
A siderurgia responde por mais de três quartos da exposição brasileira ao CBAM. Em 2025, as exportações de aço para a Europa dobraram, saltando de 686 mil para 1,38 milhão de toneladas, segundo o Instituto Aço Brasil, impulsionadas pelo redirecionamento causado pelas tarifas americanas (Section 232).
Os principais embarques de ferro e aço para a UE em 2025 incluíram ferro-nióbio (US$ 466 milhões), ferro-níquel (US$ 359 milhões), semimanufaturados de aço (US$ 339 milhões), ferro fundido bruto (US$ 161 milhões) e ferroligas diversas (US$ 262 milhões), segundo o Comex Stat.
O que determina o custo real do CBAM sobre o aço brasileiro é a intensidade de carbono de cada rota tecnológica. A média nacional é de 1,7 tCO₂ por tonelada de aço, bem abaixo da média global de 1,92 tCO₂/t reportada pela World Steel Association. Mas a heterogeneidade interna é grande:
| Rota Tecnológica | % da capacidade brasileira | Intensidade (tCO₂/t aço) | Custo CBAM (€/t aço) |
| BF-BOF com carvão mineral | ~65% | 2,10 | € 158 |
| BF-BOF com carvão vegetal (se aceito como renovável) | ~11% | 1,55 | € 117 |
| EAF forno elétrico a sucata | ~24% | 0,86 | € 65 |
| Média nacional | 100% | ~1,7 | € 128 |
| Média global | — | 1,92 | € 145 |
A grande incógnita para a siderurgia brasileira é o aceite do carvão vegetal na metodologia do CBAM. O Brasil é o maior produtor mundial de aço a carvão vegetal — cerca de 11% da produção nacional
No EU ETS, a biomassa sustentável certificada pode ser 'zero-rated' (fator de emissão zero), desde que comprove critérios de sustentabilidade da Diretiva de Energia Renovável (RED II).
Se esse princípio for aplicado ao CBAM para o carvão vegetal de florestas plantadas, a intensidade do aço BF-BOF brasileiro cairia para 1,55 tCO₂/t — a mais baixa entre os grandes produtores. Caso contrário, ou sem certificação, o valor sobe para 2,10 tCO₂/t.
O problema é que o CBAM ainda não possui regra explícita sobre o tema, e o ônus da prova recai integralmente sobre o produtor brasileiro.
Produtores sem certificação pagarão o valor-padrão como se usassem carvão mineral. A definição dessa classificação pela Comissão Europeia terá impacto direto sobre a conta anual do CBAM para a siderurgia brasileira.
Para o volume de 1,38 milhão de toneladas exportado à UE em 2025, a conta potencial agregada do CBAM situa-se entre € 90 milhões e € 218 milhões por ano, a depender do mix de rotas tecnológicas e da classificação do carvão vegetal. Vale ressaltar que esse é o valor máximo da exposição futura, quando o mecanismo estiver 100% implementado em 2034.
Nos primeiros anos, o CBAM factor — que reflete a eliminação gradual das permissões gratuitas do EU ETS — reduz significativamente o custo efetivo: em 2026, a alíquota incidente é de 2,5%, subindo progressivamente até 100% em 2034.
Os mesmos dados do Comex Stat mostram que o alumínio brasileiro exportado para a UE somou US$ 258 milhões em 2025, com destaque para o alumínio não ligado em formas brutas (US$ 199 milhões) e folhas e tiras finas (US$ 26 milhões).
A indústria brasileira do alumínio possui uma vantagem competitiva que poucos concorrentes podem replicar. Segundo o estudo — Aluminum Climate Impact 2025 da Global Efficiency Intelligence — a intensidade total de CO₂ do alumínio primário brasileiro é de 3,7 toneladas por tonelada:
| País | tCO₂/t alumínio primário | Fonte de eletricidade |
| Brasil | 3,7 | Hidrelétrica |
| Noruega | 3,8 | Hidrelétrica |
| Canadá | 3,2 | Hidrelétrica |
| Islândia | 2,9 | Hidrelétrica + geotérmica |
| China | 13,5 | Carvão |
| Índia | 16,3 | Carvão |
| Média global | ~16,7 | — |
Traduzindo para o CBAM: a € 75,28/tCO₂, o custo estimado para o alumínio brasileiro é de € 279 por tonelada, contra cerca de € 1.257/t para a média global — uma vantagem competitiva de aproximadamente € 978 por tonelada no mercado europeu.
Uma diferença que, comunicada e auditada, pode se traduzir em prêmio de preço e preferência de compra junto a importadores europeus que buscam descarbonizar suas cadeias de suprimento. Vale lembrar que esses valores representam a exposição máxima quando o CBAM estiver plenamente implementado, em 2034. Nos primeiros anos, vale também a redução do CBAM factor.
Segundo o mesmo estudo, a eletrólise — etapa que responde por cerca de 72% das emissões do alumínio primário — tem intensidade de apenas 0,6 tCO₂/t no Brasil, contra 10 tCO₂/t na China e 12 tCO₂/t na Índia.
A vantagem brasileira não se limita à matriz elétrica. O país também possui uma das maiores taxas de reciclagem de alumínio do mundo: cerca de 35% a 40% de todo o alumínio produzido no Brasil vem de sucata reciclada, segundo o mesmo estudo da Global Efficiency Intelligence. Na produção de latas de bebida, o índice chega a aproximadamente 84% — o mais alto do planeta.
O dado é relevante porque a reciclagem reduz as emissões de carbono em 90% a 95% em relação à produção primária. Isso significa que o alumínio brasileiro já nasce com uma pegada de carbono estruturalmente menor em múltiplas frentes — da geração de energia ao reaproveitamento de material —, o que amplia a vantagem competitiva frente a concorrentes asiáticos e europeus no contexto do CBAM.
Dois pontos de atenção, no entanto, permanecem. Primeiro, as emissões de processo (que geram os perfluorcarbonos, ou PFCs) independem da matriz energética e continuarão sendo precificadas.
Segundo, os mecanismos de MRV precisam ser estruturados para adequar os relatórios ao CBAM. Para isso, a ABAL e o MDIC lançaram em abril de 2025 uma parceria para desenvolver uma metodologia de verificação de GEE para toda a cadeia do alumínio — da bauxita à reciclagem. Os resultados dessa iniciativa serão a fonte mais precisa quando estiverem disponíveis.
O cenário regulatório, além disso, se complicou: em junho de 2026, a UE trouxe más notícias para os exportadores brasileiros de aço. A UE aprovou novas regras de salvaguarda que reduzem em 47% o volume de aço que entra sem tarifas no bloco e dobram a tarifa penalidade para 50% sobre os volumes excedentes.
O CBAM se soma a esse cenário restritivo — e ao contrário das tarifas, que podem ser contestadas na OMC, o CBAM é um mecanismo climático com lastro no Acordo de Paris e no Green Deal europeu.
Para agravar o quadro, a extensão do CBAM a mais de 180 produtos downstream deve entrar em vigor em 2028, após o Conselho da UE ter aprovado sua posição em junho de 2026.
Os US$ 209 milhões correspondentes a obras e produtos manufaturados (chamado de capítulo 73 na Nomenclatura Comum do Mercosul - NCM) podem ser apenas o começo de uma exposição muito maior para a indústria brasileira de transformados metálicos.
Nesse cenário, o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), criado pela Lei nº 15.042/2024, poderá no futuro permitir que os exportadores abatam o preço do carbono pago no Brasil do custo do CBAM.
O problema é o descompasso de cronogramas: os leilões onerosos de CBEs — os únicos que geram preço reconhecível — só devem ocorrer a partir de 2029 (Fase V da lei). Como o CBAM só permite abater o preço do carbono efetivamente pago, e não o gratuito, o custo será integral nos primeiros anos.
Há também o desafio diplomático e negocial. A UE levou cerca de uma década para negociar a equivalência do sistema ETS com o sistema suíço — e a Suíça, não membro do bloco, tinha um mercado maduro e operacional.
A janela de oportunidade para o Brasil negociar equivalência começa agora, mas os efeitos práticos só devem aparecer a partir de 2030 no melhor cenário.
Por isso, é crucial avançar nos mecanismos de Monitoramento, Relato e Verificação (MRV): quem mede paga menos. Empresas que já possuem inventários de carbono auditados (GHG Protocol, ISO 14064) e conseguem comprovar sua eficiência pagarão menos CBAM do que aquelas que nunca mediram.
Na ausência de dados auditados, o CBAM aplica valores-padrão que tendem a ser mais altos. Essa é a hora de avançar na aplicação dos inventários e gerar um MRV robusto.
Esperar significa menos demanda e mais pressão sobre os preços. Empresas que ainda não iniciaram inventários auditados têm até setembro de 2027 para se preparar — o relógio corre!