Ciência

Rato encontrado a quase 7 mil metros de altitude desafia os limites da vida

Encontrado no topo de um vulcão nos Andes, o roedor vive mais alto do que qualquer outro mamífero conhecido pela ciência

Rato: adaptações genéticas ajudam o roedor a sobreviver onde quase nenhum mamífero consegue viver (Marcial Quiroga-Carmona)

Rato: adaptações genéticas ajudam o roedor a sobreviver onde quase nenhum mamífero consegue viver (Marcial Quiroga-Carmona)

Publicado em 25 de julho de 2026 às 20h26.

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Um pequeno roedor encontrado a quase 7 mil metros de altitude nos Andes está mudando o que a ciência sabia sobre os limites da vida dos mamíferos.

Um estudo divulgado no dia 9 de julho revelou como o rato-de-orelhas-folha-andino (Phyllotis vaccarum) consegue sobreviver em um ambiente com pouco oxigênio, temperaturas abaixo de zero e escassez extrema de alimento.

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade McMaster, no Canadá, e publicada na revista científica Science.

Os resultados mostram que a espécie desenvolveu adaptações genéticas, metabólicas e alimentares que lhe permitem viver em altitudes onde, até recentemente, acreditava-se ser impossível a sobrevivência de mamíferos.

O mamífero que sobrevive na maior altitude

O rato-de-orelhas-folha-andino foi encontrado a 6.739 metros de altitude no vulcão Llullaillaco, na fronteira entre Argentina e Chile. Trata-se do registro mais elevado já documentado para um mamífero em ambiente natural.

Antes dessa descoberta, o recorde era atribuído à pika-de-orelhas-grandes (Ochotona macrotis), espécie aparentada aos coelhos que habita regiões montanhosas do Himalaia.

Segundo os pesquisadores, encontrar um mamífero vivendo centenas de metros acima desse limite mudou a compreensão sobre a capacidade dos animais de suportar ambientes extremos.

Como o rato sobrevive com tão pouco oxigênio

Para entender como a espécie resiste a essas condições, os pesquisadores analisaram o genoma completo de 167 indivíduos distribuídos desde áreas de baixa altitude até regiões montanhosas. A equipe também realizou experimentos em laboratório simulando frio intenso e baixa disponibilidade de oxigênio.

Os resultados mostraram que os animais das maiores altitudes produzem mais calor corporal do que aqueles encontrados em regiões mais baixas. Isso ocorre porque seus músculos possuem uma quantidade muito maior de mitocôndrias, estruturas responsáveis pela produção de energia nas células. Essa característica permite gerar calor por períodos prolongados, mesmo em um ambiente extremamente frio.

Ao contrário do observado em outros mamíferos adaptados às montanhas, o principal diferencial desses roedores não está no transporte de oxigênio pelo sangue, mas na capacidade de utilizar esse oxigênio de forma mais eficiente para produzir energia.

Alimentação também foi decisiva para a adaptação

Os cientistas descobriram que a sobrevivência do rato depende não apenas de adaptações ao frio e à baixa concentração de oxigênio.

Nas altitudes onde vive, praticamente não há vegetação. Ainda assim, o animal consegue se alimentar de líquens e, possivelmente, de sementes e insetos transportados pelo vento.

As análises genéticas indicaram que a espécie desenvolveu mecanismos capazes de metabolizar e neutralizar compostos tóxicos presentes em plantas, ampliando as opções de alimento disponíveis em um ambiente extremamente pobre em recursos. Segundo os autores, essa foi uma das descobertas mais inesperadas do estudo.

Descoberta ajuda a entender a adaptação às mudanças ambientais

Os pesquisadores afirmam que compreender como esses animais evoluíram para sobreviver em um dos ambientes mais hostis do planeta pode ajudar a explicar como outras espécies responderão às mudanças ambientais em curso.

Além das alterações de temperatura, os animais enfrentam transformações simultâneas na disponibilidade de oxigênio, água e alimento. Para a equipe, a pesquisa mostra que a evolução pode encontrar soluções complexas para desafios extremos, muitas vezes diferentes daquelas previstas pelos cientistas.

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