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Estudo aponta que motores de embarcações e movimentação de banhistas podem comprometer alimentação, reprodução e defesa de território de espécies recifais (by wildestanimal/Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 26 de julho de 2026 às 10h00.
O ruído provocado por embarcações e pela atividade humana em praias pode comprometer a comunicação entre peixes e afetar o equilíbrio dos recifes de corais. A conclusão é de um estudo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), publicado na revista científica Neotropical Ichthyology e divulgado pela Agência Bori.
A pesquisa identificou que sons produzidos por lanchas, motos aquáticas, parapentes e até pela movimentação de banhistas podem mascarar a comunicação sonora dos peixes, interferindo em comportamentos ligados à alimentação, reprodução e defesa de território.
Segundo Túlio Freire Xavier, pesquisador do Laboratório de Pesquisa em Ictiologia e Ecologia de Recifes da UFPE e um dos autores do estudo, a equipe observou uma redução na ocorrência de sons emitidos pelos peixes justamente nos locais mais expostos ao ruído provocado pela atividade humana.
"Houve uma redução clara na ocorrência dos sons produzidos pelos peixes", afirmou. "Isso pode acontecer porque os sons ficam mascarados pelo barulho das embarcações, tornando-se mais difíceis de detectar, ou porque alguns peixes realmente reduzem ou alteram sua produção sonora em resposta ao ruído."
O pesquisador explica que muitas espécies utilizam sinais sonoros para localizar parceiros, defender território, procurar alimento e interagir com outros indivíduos.
"Se essa comunicação for prejudicada, esses comportamentos também podem ser afetados", disse.
O trabalho foi realizado nas praias de Carneiros, na Área de Proteção Ambiental (APA) de Guadalupe, e de Tamandaré, na APA Costa dos Corais, ambas no litoral de Pernambuco.
Os pesquisadores escolheram as duas áreas por apresentarem perfis distintos de turismo. Carneiros recebe visitantes durante todo o ano, enquanto Tamandaré concentra maior movimento na alta temporada.
Em cada praia, foram monitorados pontos próximos à costa, mais sujeitos ao ruído humano, e áreas protegidas pelos recifes, que funcionam como barreiras naturais para a propagação do som.
Para medir o impacto, a equipe instalou sistemas de gravação subaquática que registraram dez horas contínuas de áudio por dia, totalizando 80 horas de monitoramento. Paralelamente, mergulhadores realizaram censos visuais para identificar as espécies presentes.
Ao todo, foram registradas entre 18 e 23 espécies de peixes. Apenas em Carneiros, cerca de 1,4 mil indivíduos foram contabilizados.
As coletas ocorreram em janeiro e fevereiro de 2022, durante a alta temporada, e em abril de 2023.
Os pesquisadores identificaram nove tipos diferentes de sons produzidos por peixes. Três deles deixaram de ser registrados nas áreas com maior presença humana.
Segundo o estudo, o ruído contínuo das embarcações provoca um fenômeno conhecido como mascaramento acústico, quando sons artificiais encobrem os sinais sonoros emitidos pelos peixes.
Além disso, os pesquisadores observaram redução na complexidade acústica dos ambientes monitorados, um indicador que mede a diversidade e a variação dos sons produzidos pelos animais ao longo do tempo.
Outra hipótese apontada é a supressão de comportamento, em que os peixes deixam de vocalizar ou reduzem a emissão de sons em resposta ao excesso de ruído.
Segundo Túlio Xavier, os peixes recifais desempenham funções essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas marinhos, como o controle da proliferação de algas, a manutenção dos corais e a sustentação das cadeias alimentares.
"Quando a poluição sonora interfere no comportamento desses peixes, existe o potencial de afetar, ainda que de forma indireta, os serviços ecossistêmicos que esses ambientes oferecem", afirmou.
Embora o estudo tenha sido realizado no litoral pernambucano, o pesquisador afirma que os efeitos podem ocorrer em outras regiões brasileiras sujeitas a intenso tráfego de embarcações e turismo náutico, como Abrolhos e Fernando de Noronha.
Ele ressalta que ainda não existem parâmetros internacionalmente consolidados para definir níveis seguros de ruído subaquático voltados à proteção dos peixes.
"O ruído subaquático é uma forma de poluição que normalmente passa despercebida", disse.
Entre as medidas que poderiam reduzir os impactos, o pesquisador cita a organização das rotas de embarcações, a redução da velocidade em áreas sensíveis e a limitação da concentração de atividades sobre determinados recifes.
"Proteger a paisagem sonora significa também ajudar a preservar o funcionamento ecológico desses ecossistemas e os benefícios que eles oferecem à sociedade", concluiu.