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Argentina se irrita com possível exploração de petróleo nas Malvinas

Produção de petróleo comercial pode começar em 2028 e promete revolucionar a economia do arquipélago, mas revive antigas cicatrizes políticas

Projeto para exploração de campo de petróleo revive imbróglio sobre soberania das Ilhas Malvinas. Na foto, soldado britânico lê manchete de vitória sobre a Argentina em breve guerra nos anos 80 (Tomas Cuesta/AFP)

Projeto para exploração de campo de petróleo revive imbróglio sobre soberania das Ilhas Malvinas. Na foto, soldado britânico lê manchete de vitória sobre a Argentina em breve guerra nos anos 80 (Tomas Cuesta/AFP)

Publicado em 12 de julho de 2026 às 08h00.

As Ilhas Malvinas são um arquipélago polêmico a cerca de 480 km da costa da Patagônia, no Pacífico Sul. Questões sobre soberania foram motivo de uma breve, mas amarga guerra entre a Argentina e o Reino Unido, que durou 74 dias em 1982 e resultou na vitória britânica.

Hoje em dia, apesar de um governo autônomo, a defesa e as relações exteriores do arquipélago são responsabilidade do Reino Unido, embora Buenos Aires continue reivindicando diplomaticamente o controle do território.

Por décadas, a economia da ilha dependia da pesca de lulas e dos produtores de ovelhas. Agora, todavia, uma nova possibilidade de lucros com o petróleo revive a questão da soberania e enraivece a Argentina, colocando em risco os laços diplomáticos com o Reino Unido.

O imbróglio gira em torno de projetos de exploração do campo de petróleo Sea Lion, localizado a cerca de 220 km ao norte das ilhas. A construção da infraestrutura necessária ao desenvolvimento do projeto entrou em sua fase inicial: as empresas responsáveis — a israelense Navitas Petroleum e a britânica Rockhopper — preveem o início da produção em março de 2028, com expectativa de atingir um pico de 50 mil barris de petróleo por dia em 2032.

Embora seja considerado um empreendimento de porte relativamente modesto no setor de petróleo offshore, o Sea Lion pode transformar a economia das Malvinas. Estimativas apuradas pelo jornal Financial Times indicam que a exploração do campo tem potencial para triplicar o Produto Interno Bruto (PIB) do arquipélago.

Segundo projeções das empresas responsáveis, o auge da arrecadação com impostos e royalties gerados pela produção corresponderia a aproximadamente 80 mil libras esterlinas por ano para cada um dos cerca de 3.500 habitantes das ilhas, o que evidencia o forte impacto econômico que um empreendimento petroleiro, mesmo de pequeno porte, pode gerar.

Tensões diplomáticas

Javier Milei, o presidente direitista da Argentina, já prometeu seguir medidas diplomáticas para impedir a exploração, descrevendo o projeto Sea Lion como uma tentativa "unilateral e ilegítima de adquirir recursos que pertencem à Argentina."

A historiadora Grace Livingstone, pesquisadora associada da Universidade de Cambridge, avalia ao Financial Times que a Argentina "pode ter um argumento jurídico" contra o desenvolvimento do campo de petróleo Sea Lion. Segundo ela, uma resolução das Nações Unidas proíbe "modificações unilaterais" no status quo das Ilhas Malvinas, o que poderia servir de base para contestar o projeto.

A possibilidade de uma nova disputa diplomática acerca das ilhas voltou à tona em 2011, quando Buenos Aires conseguiu convencer diversos países da América do Sul a impor restrições a navios com bandeira das Malvinas em resposta às atividades de exploração de petróleo na região. Caso uma mobilização semelhante ocorra novamente, os custos logísticos do projeto poderão aumentar.

Apesar das divergências sobre as Malvinas, o presidente argentino, Javier Milei, tem buscado uma aproximação com o Reino Unido. Em 2025, seu governo iniciou conversas informais sobre cooperação em defesa, numa tentativa de obter o fim das restrições britânicas à venda de armamentos para a Argentina. As negociações, no entanto, perderam impulso diante das sucessivas mudanças na liderança dos ministérios das Relações Exteriores e da Defesa.

Nos bastidores, autoridades das Malvinas e analistas do setor energético minimizam as recentes declarações de Milei sobre a soberania do arquipélago, classificando-as como uma retórica política comum entre líderes argentinos, e não como uma ameaça concreta ao projeto.

Ainda assim, integrantes do governo argentino alertam para a possibilidade de aumento da pressão política e jurídica contra o desenvolvimento de Sea Lion, inclusive por meio de ações em tribunais internacionais, à medida que se aproximam as eleições presidenciais de outubro do próximo ano. A oposição peronista acusa Milei de ter relegado a reivindicação argentina sobre as Malvinas a um segundo plano.

Oportunidades para as Malvinas

A presidente argentina, Cristina Kirchner, discursa no aniversário da Guerra das Malvinas em abril de 2012

A ex-presidente argentina, Cristina Kirchner (2007-2015), com uma placa detalhando, em relevo, o arquipélago das Malvinas (Juan Mabromata/AFP)

Para o governo das ilhas, o lucro representa uma oportunidade de financiar reformas de infraestrutura muito necessárias. Nos últimos anos, o território sofreu com cortes de energia recorrentes, e lançou projetos ambiciosos para lidar com isso, incluindo uma planta de produção de diesel, turbinas eólicas, uma instalação para a gestão de resíduos e um novo porto, que, coletivamente, custaram US$ 350 milhões, aponta o Times.

“Precisamos garantir mais receitas para as ilhas”, disse à mídia Cheryl Roberts, integrante da assembleia legislativa das Malvinas, composta por oito membros. “Nunca estivemos tão perto disso.”

A Navitas Petroleum, uma das responsáveis, estima que as receitas governamentais geradas pelo projeto Sea Lion, provenientes principalmente de impostos corporativos e royalties, poderão atingir um pico de 280 milhões de libras esterlinas em 2034. Caso a projeção se concretize, as Ilhas Malvinas passariam a arrecadar mais com petróleo e gás do que o próprio Reino Unido, cuja receita proveniente do setor deverá cair para cerca de 100 milhões de libras anuais até 2031.

Todavia, essas estimativas foram calculadas durante a guerra do Irã, quando os preços do petróleo estavam em altas históricas. Desde então, os preços do barril caíram para cerca de US$ 70 o barril nas últimas semanas, após o anúncio de um cessar-fogo entre os EUA e o Irã.

Um relatório de recursos de 2024, encomendado pela Navitas, situou o preço de equilíbrio do projeto Sea Lion em torno de US$ 24 o barril, enquanto as projeções de receita tributária da empresa consideram um preço sustentado do petróleo de US$ 74 o barril. Por enquanto, a Navitas não forneceu uma estimativa atualizada do preço de equilíbrio.

Mesmo assim, as esperanças estão altas. Diante da perspectiva de um expressivo aumento das receitas, parlamentares das Malvinas discutem inclusive a criação de um fundo soberano para administrar os recursos provenientes da exploração de petróleo.

Em abril, um representante da Guiana — que, nas últimas décadas, se transformou de uma economia de baixa renda em um dos mais novos países produtores de petróleo do mundo — visitou o arquipélago para compartilhar experiências sobre a gestão de um rápido crescimento impulsionado pela indústria petrolífera.

O governo das Malvinas também reiterou compromissos assumidos em rodadas anteriores de exploração, segundo os quais parte das receitas obtidas com o petróleo será destinada ao fortalecimento da defesa do território e à manutenção da guarnição do Exército britânico estacionada nas ilhas, cuja operação custa ao Reino Unido dezenas de milhões de libras por ano.

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