Ciência

Novo estudo desafia o que a ciência acreditava sobre a origem das tartarugas

Tomografias de fósseis identificaram características anatômicas compartilhadas com crocodilos e aves que desafiam uma teoria sobre a evolução

Tartarugas: pesquisa analisou centenas de fósseis para investigar a origem evolutiva da espécie (Freepik)

Tartarugas: pesquisa analisou centenas de fósseis para investigar a origem evolutiva da espécie (Freepik)

Publicado em 9 de julho de 2026 às 06h03.

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As tartarugas podem ter uma origem evolutiva diferente da que muitos cientistas acreditavam. Um novo estudo concluiu que esses répteis provavelmente compartilham um ancestral comum mais próximo de crocodilos e aves do que do antigo Eunotosaurus, espécie frequentemente apontada como precursora das tartarugas.

A descoberta foi publicada na revista Current Biology por uma equipe liderada por pesquisadores do Museu Americano de História Natural, em Nova York, que examinou 226 fósseis usando tecnologia de raios X.

As análises revelaram características anatômicas compatíveis com as encontradas nos arcossauromorfos, grupo que reúne crocodilos, aves, dinossauros e pterossauros.

O que o estudo descobriu sobre a origem das tartarugas

Durante décadas, muitos paleontólogos defenderam que as tartarugas evoluíram a partir do Eunotosaurus africanus, um réptil que viveu há cerca de 260 milhões de anos e possuía costelas largas, consideradas um possível estágio inicial da formação do casco.

Ao mesmo tempo, análises genéticas sugeriam outra hipótese: a de que as tartarugas estariam mais próximas evolutivamente dos arcossauromorfos, grupo que inclui crocodilos e aves.

Segundo os autores, o novo trabalho reúne evidências anatômicas que reforçam essa hipótese e aproximam, pela primeira vez, os dados obtidos em fósseis das conclusões apontadas por análises de DNA.

Para os resultados, os pesquisadores examinaram 226 fósseis de tartarugas primitivas, arcossauromorfos e exemplares de Eunotosaurus. Para isso, utilizaram tomografia por raios X de alta resolução, técnica que permitiu observar estruturas internas dos fósseis sem danificá-los e reconstruir digitalmente ossos que permaneciam ocultos.

Em seguida, compararam espécies antigas de tartarugas, como Proganochelys e Pappochelys, com outros répteis para identificar características compartilhadas ao longo da evolução.

As evidências que ligam tartarugas a crocodilos e aves

Uma das principais evidências encontradas foi a presença do laterosfenoide, um osso localizado na região do cérebro. Segundo os pesquisadores, essa estrutura aparece nas tartarugas mais primitivas e também em crocodilos e aves, mas está ausente no Eunotosaurus e em outros répteis mais antigos.

A equipe também analisou o formato do quinto metatarso, um osso do pé, e a estrutura do estribo, pequeno osso do ouvido responsável por transmitir vibrações sonoras.

Nas tartarugas primitivas, crocodilos e aves ancestrais, o estribo apresenta uma configuração associada a uma audição mais complexa. Já no Eunotosaurus, esse osso era mais espesso e rigidamente ligado ao crânio, característica considerada mais primitiva.

Segundo os autores, o conjunto dessas características anatômicas indica uma relação evolutiva mais próxima entre as tartarugas e os arcossauromorfos do que se imaginava.

Debate sobre a evolução das tartarugas continua

Apesar das novas evidências, o estudo não encerra a discussão sobre a origem das tartarugas. O paleontólogo Tyler Lyson, do Museu de Natureza e Ciência de Denver, afirmou discordar da conclusão de que o Eunotosaurus não fazia parte da linhagem das tartarugas. Em 2016, ele publicou um estudo defendendo a hipótese oposta. Ainda assim, classificou o novo trabalho como uma contribuição para o debate científico.

Já Spencer G. Lucas, curador do Museu de História Natural e Ciência do Novo México, concorda que o Eunotosaurus provavelmente não era uma tartaruga. No entanto, ele também não considera que o Pappochelys integrasse esse grupo e afirmou não estar convencido da classificação das tartarugas entre os arcossauros.

Diante disso, para os pesquisadores, novas descobertas e a análise de outros fósseis serão necessárias para esclarecer definitivamente como surgiu um dos grupos de vertebrados mais incomuns da Terra, cuja anatomia passou por profundas transformações ao longo de sua evolução.

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