Fogo: pesquisas sugerem que o fascínio pelas chamas pode ter origem na evolução humana (Freepik)
Redatora
Publicado em 11 de julho de 2026 às 06h01.
Uma das coisas que conseguem prender a atenção é uma fogueira ou uma lareira acesa. Embora o fogo tenha sido fundamental para aquecer, cozinhar e iluminar a vida humana ao longo da história, pesquisadores acreditam que a atração pelas chamas pode ir além de sua utilidade prática. Estudos indicam que esse comportamento pode ter raízes na evolução e até provocar efeitos sobre o cérebro e as relações sociais.
A hipótese é discutida por pesquisadores como o antropólogo Daniel M. T. Fessler, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), e Christopher Lynn, da Universidade do Alabama. As informações foram reunidas pela revista Popular Science com base em pesquisas sobre comportamento humano, evolução e fisiologia.
Segundo Fessler, o interesse pelas chamas pode estar relacionado ao conceito de "aprendizagem preparada", segundo o qual a evolução favoreceu mecanismos que facilitam a aquisição de habilidades importantes para a sobrevivência.
Para investigar essa hipótese, o antropólogo passou quase três anos em comunidades do sudoeste da ilha de Sumatra, na Indonésia, onde o fogo faz parte da rotina diária das famílias.
Durante o trabalho de campo, ele observou que as crianças tinham contato com fogueiras desde muito cedo e aprendiam naturalmente a utilizá-las em atividades cotidianas. Por volta dos 10 anos, muitas já dominavam essa habilidade e, ao mesmo tempo, demonstravam menor interesse pelo fogo.
Na interpretação do pesquisador, a curiosidade funciona como um incentivo para aprender uma competência essencial. Depois que essa habilidade é adquirida, o fascínio tende a diminuir.
A hipótese, porém, ainda não é considerada definitiva. Em outro estudo realizado com universitários no Alasca, participantes que tiveram maior contato com o fogo durante a infância relataram, na vida adulta, mais prazer em observá-lo, e não menos.
Outra linha de pesquisa procura entender o que acontece com o cérebro enquanto uma pessoa observa uma fogueira. Em um estudo conduzido por Christopher Lynn, voluntários tiveram a pressão arterial monitorada enquanto observavam o fogo em diferentes condições.
Os resultados mostraram redução da pressão arterial, principalmente quando as chamas eram acompanhadas pelo som natural da madeira queimando. O efeito também se intensificou conforme aumentava o tempo de observação.
Segundo os pesquisadores, o fogo também pode favorecer um estado de atenção concentrada semelhante ao experimentado durante a leitura de um livro ou ao assistir a um filme, reduzindo distrações e promovendo relaxamento.
Os pesquisadores sugerem que esse efeito calmante pode ter representado uma vantagem durante a evolução da espécie humana.
Grupos reunidos ao redor do fogo e em um estado mais tranquilo tenderiam a apresentar menos conflitos, maior cooperação e maior disposição para compartilhar alimentos e proteger uns aos outros, características que poderiam aumentar as chances de sobrevivência dessas comunidades.
Para Fessler, esses efeitos provavelmente resultam da combinação entre as propriedades naturais do fogo, sua capacidade de atrair a atenção e fatores culturais desenvolvidos ao longo da história humana.
Além disso, apesar das evidências reunidas até o momento, os pesquisadores destacam que ainda não existe uma explicação única para o fascínio humano pelo fogo.
A hipótese de que essa atração seja resultado de adaptações evolutivas continua sendo investigada, e novos estudos serão necessários para esclarecer como fatores biológicos, psicológicos e culturais contribuem para esse comportamento observado em diferentes sociedades.