Sonambulismo: estudo da evolução do sono ajuda a explicar um dos fenômenos mais curiosos da neurologia
Freelancer
Publicado em 4 de julho de 2026 às 06h27.
Levantar da cama, caminhar pela casa, abrir portas e até realizar tarefas simples sem estar consciente parece algo saído de um filme. No entanto, o sonambulismo é um fenômeno real e relativamente comum entre os seres humanos. O que intriga os cientistas é outro detalhe: por que esse comportamento praticamente não existe em outros primatas?
Segundo o antropólogo evolucionista David R. Samson da Universidade de Toronto, a resposta pode estar na forma como os ancestrais humanos evoluíram para dormir e sobreviver em ambientes cheios de ameaças. A hipótese foi discutida pelo pesquisador em entrevista à revista Popular Science, com base em décadas de estudos sobre a evolução do sono humano.
O sonambulismo acontece principalmente durante o sono profundo, na fase não REM. Nesses episódios, algumas áreas do cérebro despertam parcialmente enquanto outras continuam dormindo. "Partes do cérebro envolvidas no movimento e na excitação entram em funcionamento, enquanto regiões ligadas à consciência reflexiva, julgamento e memória permanecem em um estado semelhante ao sono", explicou Samson.
Isso significa que a pessoa pode caminhar, descer escadas e se locomover por ambientes conhecidos sem estar plenamente consciente do que faz. Na maioria dos casos, ela não se lembra de nada ao acordar.
Para os pesquisadores, o comportamento pode ser consequência de uma adaptação antiga relacionada à sobrevivência. Os primeiros humanos passaram boa parte de sua história evolutiva dormindo em ambientes mais expostos do que os ocupados por outros primatas. Enquanto muitos macacos e grandes símios descansavam em árvores, os ancestrais humanos passaram a dormir cada vez mais próximos do solo, onde estavam mais vulneráveis a predadores e ameaças externas.
Nesse contexto, a capacidade de ativar rapidamente partes do cérebro durante o sono poderia ter oferecido uma vantagem evolutiva. O organismo conseguiria reagir a perigos sem precisar despertar completamente.
Samson faz uma ressalva importante. Segundo ele, outros animais provavelmente também apresentam comportamentos motores incomuns durante o sono. Cachorros podem mover as patas como se estivessem correndo atrás de alguma presa, enquanto gatos frequentemente contraem os bigodes e outras partes do rosto durante os sonhos. No entanto, o sonambulismo propriamente dito, caracterizado por levantar da cama, caminhar e contornar obstáculos sem despertar completamente, nunca foi documentado de forma consistente em outras espécies.
"Os humanos provavelmente não são únicos em apresentar eventos motores estranhos durante o sono, mas o sonambulismo, como o definimos, é predominantemente humano", afirmou o pesquisador.
Até hoje, não há registros científicos consistentes de episódios de sonambulismo em primatas não humanos, embora pesquisadores reconheçam que a questão ainda não está completamente encerrada.
Estudos apontam que o sonambulismo afeta principalmente crianças e tende a diminuir com a idade. Fatores genéticos, privação de sono, estresse e alguns medicamentos podem aumentar a probabilidade de episódios.
Um estudo de longo prazo, publicado na PubMed em 2015, mostrou uma forte influência genética no sonambulismo. Entre crianças sem histórico familiar do distúrbio, a probabilidade de apresentar episódios era de cerca de 22%. O índice aumentava para 47% quando um dos pais era sonâmbulo e chegava a 61% quando tanto o pai quanto a mãe tinham o mesmo histórico. “Existe claramente um componente familiar e genético”, afirma Samson.
A comunidade científica classifica o fenômeno como uma parassonia, um grupo de distúrbios caracterizados por comportamentos anormais durante o sono. Pesquisas na área da neurologia descrevem o sonambulismo como um estado híbrido, em que características do sono profundo e da vigília coexistem ao mesmo tempo no cérebro.
Mais do que uma característica curiosa e, por vezes, assustadora, o sonambulismo pode representar uma janela para entender a própria evolução humana. Ao investigar por que apenas nossa espécie desenvolveu essa combinação peculiar de sono e movimento, cientistas estão reconstruindo a história de como aprendemos a descansar sem deixar de sobreviver. Em cada passo dado inconscientemente durante a madrugada, talvez exista um vestígio silencioso de um passado em que permanecer alerta significava continuar vivo.