Alienígenas: cientistas avaliam os desafios de comunicação e coordenação diante de uma possível descoberta extraterrestre (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)
Redatora
Publicado em 8 de setembro de 2026 às 19h34.
Um eventual contato com uma civilização extraterrestre poderia desencadear desafios científicos, políticos e sociais para os quais a humanidade ainda não tem uma resposta definida. Pesquisadores ouvidos pela BBC Science Focus discutem como esse cenário poderia acontecer.
A reportagem reúne análises de pesquisadores envolvidos em estudos sobre vida extraterrestre, comunicação de crise e astrobiologia. Entre eles está o astrofísico Avi Loeb, da Universidade Harvard.
A discussão ganhou força após a passagem do 3I/ATLAS, objeto interestelar detectado em 2025. Embora Loeb tenha levantado a possibilidade de uma origem tecnológica, outros pesquisadores apontaram que não havia evidências suficientes para sustentar essa interpretação.
A procura por sinais de outras civilizações começou com transmissões de rádio e ganhou novas estratégias nas últimas décadas. Cientistas também procuram tecnoassinaturas, como pulsos de laser e possíveis sinais de atividade tecnológica.
Telescópios modernos conseguem analisar atmosferas de exoplanetas em busca de condições que possam favorecer a existência de vida. Novos observatórios também devem ampliar a capacidade de estudar esses mundos.
Para Bill Diamond, presidente do Instituto SETI, a descoberta de vida fora do Sistema Solar pode ocorrer no futuro próximo. Ele ressalta, porém, que encontrar vida microbiana seria muito diferente de detectar uma civilização tecnológica.
O cenário considerado mais plausível por pesquisadores não envolve uma nave pousando na Terra. O primeiro indício poderia ser uma anomalia em dados astronômicos, como um sinal de rádio ou um pulso de laser que não tenha explicação natural conhecida.
Um exemplo histórico é o chamado sinal “Wow!”, detectado em 1977 pelo radiotelescópio Big Ear, da Universidade Estadual de Ohio. A transmissão durou 72 segundos e nunca voltou a ser observada.
Um sinal semelhante levantaria uma série de questões. Entre elas estaria a distância até sua origem e a possibilidade de a civilização responsável pela transmissão ainda existir.
Uma mensagem enviada de milhares de anos-luz poderia representar um contato extremamente lento. Uma transmissão a 10 mil anos-luz, por exemplo, levaria 10 mil anos para chegar até nós.
A comunidade científica possui desde 1989 protocolos para orientar a reação diante de uma possível detecção de inteligência extraterrestre. As diretrizes foram atualizadas recentemente para considerar mudanças provocadas pela internet, pelas redes sociais e pela inteligência artificial.
Uma das principais recomendações é confirmar a descoberta de forma independente antes de anunciar qualquer conclusão. Michael Garrett, diretor do centro de astrofísica de Jodrell Bank, defende que outro grupo de pesquisadores deve repetir a observação com equipamentos independentes.
Caso o sinal seja confirmado, os protocolos recomendam envolver organizações internacionais, como a ONU. A orientação também estabelece que nenhum país ou instituição deve responder unilateralmente.
Mesmo depois de confirmar um sinal, outra questão surgiria: o que a humanidade deveria dizer? Pesquisadores envolvidos na comunicação com possíveis civilizações extraterrestres destacam que uma mensagem precisaria ser compreensível para uma inteligência que evoluiu de maneira completamente diferente da nossa.
A humanidade já enviou informações para o espaço. O Disco de Ouro das sondas Voyager, lançado em 1977, reúne imagens, sons, saudações em diferentes idiomas e músicas.
A possibilidade de enviar novas mensagens, porém, é controversa. Stephen Hawking chegou a alertar que uma transmissão deliberada poderia revelar nossa localização a uma civilização potencialmente hostil.
Um encontro físico com uma civilização extraterrestre seria ainda mais complexo. Avi Loeb considera possível que uma tecnologia interestelar avançada seja composta por sistemas autônomos e inteligência artificial, em vez de seres biológicos.
Nesse cenário, os riscos não envolveriam apenas tecnologia ou segurança. Pesquisadores também teriam de considerar a possibilidade de contaminação biológica entre formas de vida com origens diferentes.
A comunicação seria outro obstáculo. Uma civilização poderia utilizar sons, luzes ou outros sistemas que não tenham equivalente direto na comunicação humana.
Douglas Vakoch, presidente da METI International, compara esse desafio ao trabalho de antropólogos que estudam culturas desconhecidas. Seria necessário interpretar não apenas os sinais emitidos, mas também os valores e comportamentos da civilização.
A descoberta também provocaria uma reação coletiva difícil de prever. Pessoas poderiam demonstrar entusiasmo, curiosidade, indiferença ou medo.
O pesquisador Andreas Schwarz, especialista em comunicação de crise da Universidade Tecnológica de Ilmenau, afirma que situações de grande impacto nem sempre produzem pânico generalizado.
Segundo ele, as redes sociais poderiam amplificar medo e desinformação, especialmente antes que os cientistas conseguissem verificar os dados.
O comportamento observado após o aparecimento do 3I/ATLAS reforçou essa preocupação. Informações especulativas sobre o objeto circularam junto de interpretações científicas ainda não comprovadas.
Apesar de existirem protocolos para possíveis sinais, não há um manual internacional detalhado para um contato físico com uma civilização extraterrestre. Pesquisadores de comunicação de crise defendem que governos poderiam elaborar cenários de contingência para situações desse tipo. Os planos poderiam envolver comunicação pública, continuidade administrativa, segurança e coordenação internacional.
Avi Loeb também defende que eventos de baixa probabilidade, mas com consequências potencialmente enormes, sejam considerados no planejamento.
O principal desafio, segundo os pesquisadores, seria separar rapidamente uma descoberta genuína de um falso positivo ou de uma interpretação equivocada.
Por enquanto, até o momento, não há evidência confirmada de vida ou tecnologia extraterrestre.