Imaginação: especialistas afirmam que o problema não é sonhar acordado, mas perder o controle sobre os devaneios (Freepik)
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Publicado em 7 de junho de 2026 às 08h21.
Passar alguns minutos imaginando situações, lembrando histórias ou fantasiando sobre o futuro faz parte da experiência humana. Mas, para algumas pessoas, os devaneios ocupam tantas horas do dia que acabam prejudicando o trabalho, os estudos, os relacionamentos e a vida social.
Esse fenômeno é conhecido como devaneio desadaptativo (maladaptive daydreaming, em inglês), um padrão de fantasia excessivamente imersiva descrito pela primeira vez pelo psicólogo Eli Somer, da Universidade de Haifa, em um estudo publicado na revista Journal of Contemporary Psychotherapy.
Embora ainda não seja reconhecido oficialmente pelos principais manuais de diagnóstico psiquiátrico, pesquisadores afirmam que a condição pode causar sofrimento significativo e comprometer o funcionamento diário.
Estimativas citadas por especialistas sugerem que o problema pode afetar entre 2% e 4% da população adulta, tornando-o mais comum do que se imaginava.
Segundo Somer, o problema não está na imaginação em si, mas na perda de controle sobre ela. Em vez de funcionar como uma atividade criativa ou passageira, os devaneios passam a dominar o cotidiano.
As fantasias costumam ser elaboradas, emocionalmente envolventes e altamente prazerosas. Muitas pessoas relatam sentir emoções intensas durante esses episódios, como alegria, tristeza, excitação, sensação de pertencimento ou reconhecimento.
O problema surge quando o tempo dedicado a esse universo imaginário começa a prejudicar estudos, trabalho, relacionamentos e outras atividades da vida real.
Em casos extremos, pesquisadores relatam que algumas pessoas podem passar várias horas por dia imersas em histórias que se desenvolvem ao longo de anos ou até décadas.
Sonhar acordado não é considerado um problema por si só. Estudos sobre o fenômeno conhecido como mind wandering (ermo em inglês traduzido como "divagação mental") indicam que entre 30% e 50% da atividade mental durante o estado de vigília é dedicada a pensamentos não relacionados à tarefa realizada naquele momento.
Esse tipo de devaneio pode trazer benefícios associados à criatividade, à empatia, ao planejamento futuro, à regulação emocional e à resolução de problemas. No devaneio desadaptativo, porém, a situação é diferente.
Especialistas descrevem o fenômeno como uma experiência absorvente e compulsiva. Mesmo percebendo que estão perdendo tempo ou negligenciando responsabilidades, muitas pessoas relatam dificuldade para interromper as fantasias.
Após os episódios, são comuns sentimentos de culpa, frustração, vergonha e arrependimento.
Pesquisas publicadas nos periódicos Frontiers in Psychiatry e Consciousness and Cognition apontam que o devaneio desadaptativo pode estar associado a diferentes fatores psicológicos e emocionais.
Estudos relacionaram o fenômeno à solidão, traumas na infância, negligência emocional, dificuldades de apego e necessidades emocionais não atendidas.
Também foram observadas associações frequentes com condições como depressão, ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e transtornos dissociativos.
Segundo os pesquisadores, para algumas pessoas os devaneios surgem inicialmente como uma estratégia para lidar com sofrimento emocional ou situações difíceis. Com o tempo, porém, podem adquirir características compulsivas e se tornar uma forma de escapismo que interfere na vida cotidiana.
Entre os comportamentos mais frequentemente relatados em estudos sobre o tema estão:
Pesquisas indicam ainda que muitas pessoas desenvolvem histórias recorrentes com personagens fixos e enredos contínuos, semelhantes a séries ou universos fictícios criados pela própria mente.
O devaneio desadaptativo ainda não tem um tratamento padronizado nem reconhecimento formal em classificações como o DSM-5 ou a CID.
No entanto, estudos clínicos preliminares publicados no Frontiers in Psychiatry apontam resultados promissores com abordagens psicoterapêuticas para o controle da atenção, identificação de gatilhos, regulação emocional e redução de comportamentos compulsivos.
Especialistas ressaltam que o objetivo não é eliminar a imaginação, mas recuperar a capacidade de escolha para que a fantasia deixe de substituir experiências reais.
Entre as estratégias sugeridas estão: