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Pesquisas indicam que o impacto da IA sobre o cérebro depende menos da tecnologia e mais da forma como ela é utilizada
Redatora
Publicado em 25 de junho de 2026 às 08h02.
A inteligência artificial tornou tarefas intelectuais mais rápidas do que nunca. Escrever um texto, resumir um relatório ou encontrar uma resposta complexa pode levar apenas alguns segundos.
Mas a praticidade também levanta uma preocupação crescente entre pesquisadores: será que delegar parte do raciocínio às máquinas pode reduzir nossa capacidade de pensar?
Estudos publicados nos últimos meses indicam que o uso passivo da IA pode diminuir o esforço cognitivo e afetar habilidades como memória, pensamento crítico e tomada de decisão.
Um dos estudos que mais chamou atenção foi desenvolvido pelo MIT Media Lab em 2025, uma pesquisa analisou a atividade cerebral de participantes durante tarefas de escrita.
Os voluntários foram divididos em três grupos: um utilizou apenas o próprio raciocínio, outro teve acesso à internet e um terceiro realizou a atividade com auxílio de inteligência artificial.
Os pesquisadores observaram diferenças significativas na conectividade cerebral entre os grupos. Quem utilizou IA apresentou a menor ativação em áreas relacionadas ao processamento cognitivo durante a realização da tarefa.
Segundo a neurologista Juliana Khouri, ouvida pela CNN Brasil, o resultado não significa que a inteligência artificial provoque danos cerebrais.
O que acontece é que, diante de uma ajuda externa capaz de resolver boa parte do trabalho, o cérebro passa a gastar menos energia para executar aquela atividade.
Os pesquisadores do MIT utilizaram a expressão cognitive debt ("dívida cognitiva") para descrever esse fenômeno.
A ideia é semelhante ao condicionamento físico: quando um músculo deixa de ser utilizado com frequência, ele perde força. Com o cérebro, ocorre um processo parecido.
Quanto menos uma pessoa precisa organizar argumentos, recuperar informações da memória ou estruturar um raciocínio por conta própria, menor tende a ser o esforço exigido dessas redes neurais.
O neurocirurgião Hugo Dória explica que esse processo está relacionado ao chamado cognitive offloading, em português terceirização cognitiva. Em vez de resolver problemas, organizar ideias ou tomar decisões sozinho, o usuário passa a transferir essas funções para a IA.
Outro estudo, conduzido pela Microsoft Research em parceria com a Universidade Carnegie Mellon, chegou a uma conclusão semelhante.
Os pesquisadores identificaram que pessoas que depositavam confiança excessiva nas respostas geradas pela IA aplicavam menos pensamento crítico durante o trabalho.
Isso, no entanto, não significa que a tecnologia prejudique necessariamente a inteligência humana.
Segundo Lev Tankelevitch, pesquisador da Microsoft Research e um dos autores do estudo, a IA pode atuar como uma parceira intelectual quando o usuário questiona, revisa e refina as respostas produzidas.
O risco aparece quando o conteúdo é aceito automaticamente, sem qualquer validação.
Especialistas afirmam que pequenas mudanças de hábito já ajudam a reduzir esse impacto.
Uma das recomendações é tentar resolver um problema antes de recorrer à IA.
Outra é utilizar a ferramenta para revisar, ampliar ou desafiar uma ideia que já foi construída pelo próprio usuário, em vez de delegar toda a produção do conteúdo.
Também é importante confrontar as respostas da IA com outras fontes, questionar argumentos e reorganizar as informações com as próprias palavras. Esse processo mantém ativas habilidades relacionadas à memória, síntese, interpretação e pensamento crítico.
Para os pesquisadores, a inteligência artificial não representa uma ameaça ao cérebro por si só. O efeito dependerá da forma como cada pessoa escolhe utilizá-la.