Vacinação: pesquisa avaliou a relação entre hormônios e resposta imunológica em mulheres (Imagem gerada por IA/EXAME)
Redatora
Publicado em 5 de julho de 2026 às 08h52.
A fase do ciclo menstrual em que uma mulher recebe a vacina contra a covid-19 pode influenciar a resposta do organismo à imunização, segundo um novo estudo. Em uma análise com quase 1.500 mulheres, pesquisadores observaram que participantes vacinadas durante a fase lútea relataram infecção pelo coronavírus, em média, mais cedo do que aquelas imunizadas durante a fase folicular.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres e publicada na revista científica npj Women's Health no início de junho.
Os autores destacam que os resultados se referem apenas às vacinas contra a covid-19 avaliadas na pesquisa e, até o momento, não podem ser extrapolados para outros imunizantes.
Os pesquisadores analisaram dados de 1.474 mulheres dos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Austrália que utilizavam o aplicativo de monitoramento menstrual Clue em 2021. Além de registrar informações sobre o ciclo menstrual, as participantes responderam a um questionário sobre a vacinação contra a covid-19.
Entre todas as participantes, 82 relataram ter contraído covid-19 após receberem a vacina, principalmente os imunizantes da Pfizer e da Moderna.
Segundo a análise, as mulheres vacinadas durante a fase lútea do ciclo menstrual apresentaram infecção, em média, 35 dias antes das mulheres que receberam a vacina durante a fase folicular.
Embora a diferença tenha chamado a atenção dos pesquisadores, eles ressaltam que os resultados não significam que a vacinação em uma determinada fase do ciclo ofereça menos proteção nem justificam mudanças no momento de receber a vacina.Os cientistas apontam que as oscilações hormonais ao longo do ciclo menstrual podem modificar temporariamente o funcionamento do sistema imunológico.
Na fase folicular, que ocorre após a menstruação, os níveis de estrogênio aumentam gradualmente enquanto um novo folículo ovariano amadurece. Já na fase lútea, que começa após a ovulação, predomina a progesterona, hormônio responsável por preparar o organismo para uma possível gestação.
Segundo os autores, pesquisas anteriores já indicaram que, durante essa fase, algumas proteínas relacionadas à resposta imunológica, incluindo anticorpos, podem estar presentes em níveis mais baixos. Isso poderia influenciar a forma como o organismo responde à vacina contra a covid-19, embora o mecanismo ainda não esteja completamente esclarecido.
Os próprios pesquisadores destacam que os resultados devem ser ser interpretados com cautela. Além do número reduzido de infecções registradas após a vacinação, os casos foram informados pelas próprias participantes e não confirmados por exames laboratoriais.
O estudo também não analisou as fases de ovulação e menstruação, concentrando a comparação apenas entre as fases folicular e lútea.
Por ser uma pesquisa observacional, ela não permite concluir que a fase do ciclo menstrual seja responsável pelas diferenças encontradas, já que outros fatores também podem ter influenciado os resultados.
Para os autores, o principal mérito do estudo é mostrar que o ciclo menstrual pode representar uma variável importante em pesquisas médicas, sobretudo aquelas relacionadas ao sistema imunológico.
Durante muito tempo, o ciclo menstrual foi tratado apenas como um fator capaz de interferir nos resultados dos estudos, em vez de ser investigado como um possível elemento que influencia a resposta do organismo a diferentes tratamentos.
Os pesquisadores defendem que novas investigações avaliem se o mesmo padrão observado nas vacinas contra a covid-19 também ocorre com outros imunizantes e intervenções médicas, além de analisar o possível impacto dos contraceptivos hormonais na resposta imunológica.
Apesar das descobertas, os cientistas reforçam que as vacinas continuam sendo uma das principais formas de prevenção contra a covid-19 e outras doenças infecciosas, independentemente da fase do ciclo menstrual em que são administradas. No momento, não há recomendação para alterar o calendário de vacinação com base no ciclo menstrual.