Repórter
Publicado em 14 de agosto de 2026 às 16h35.
O consumo diário de suco de laranja pode provocar alterações na atividade de genes relacionados à inflamação, à pressão arterial e ao processamento de açúcar pelo organismo, segundo pesquisas que analisam os efeitos da bebida sobre a saúde cardiovascular. Os resultados indicam que seus efeitos no corpo não se limitam à hidratação ou ao aumento da glicose no sangue.
Um estudo acompanhou adultos que beberam 500 ml de suco de laranja puro e pasteurizado por dia durante dois meses. Ao fim de 60 dias, os pesquisadores identificaram redução na atividade de diferentes genes associados a processos inflamatórios e à pressão arterial elevada.
Entre os genes estavam NAMPT, IL6, IL1B e NLRP3, cuja atividade costuma aumentar quando o organismo passa por situações de estresse. O SGK1, gene relacionado à capacidade dos rins de reter sódio, também apresentou redução de atividade. Os resultados ajudam a explicar descobertas anteriores que associaram o consumo diário da bebida à redução da pressão arterial em adultos jovens.
Os dados oferecem uma possível explicação biológica para associações entre o consumo de suco de laranja e indicadores de saúde cardiovascular observadas em outros trabalhos. Segundo a pesquisa, a bebida pode interferir em mecanismos regulatórios relacionados à inflamação e ao relaxamento dos vasos sanguíneos.
Um dos componentes investigados é a hesperidina, um flavonoide presente em frutas cítricas e associado a propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Compostos desse tipo podem atuar em processos ligados à pressão arterial, ao equilíbrio do colesterol e ao metabolismo da glicose.
Os efeitos identificados também variaram conforme o porte físico dos participantes. Pessoas com maior peso corporal apresentaram alterações mais expressivas em genes relacionados ao metabolismo de gorduras. Entre voluntários mais magros, as mudanças foram mais perceptíveis nos mecanismos associados à inflamação.
Uma revisão sistemática de estudos controlados reuniu dados de 639 participantes de 15 pesquisas. A análise constatou que o consumo regular de suco de laranja reduziu a resistência à insulina e os níveis de colesterol no sangue. A resistência à insulina é uma característica do pré-diabetes, enquanto concentrações elevadas de colesterol estão associadas ao risco de doenças cardiovasculares.
Outra análise, concentrada em adultos com sobrepeso ou obesidade, encontrou pequenas reduções da pressão arterial sistólica e aumento dos níveis de lipoproteína de alta densidade, ou HDL, frequentemente chamada de "colesterol bom", depois de algumas semanas de consumo diário da bebida.
Pesquisadores também têm analisado metabólitos, pequenas moléculas formadas durante o processamento de alimentos pelo organismo. Uma revisão identificou alterações em vias relacionadas ao uso de energia, à comunicação celular e à inflamação após o consumo de suco de laranja. Os trabalhos apontam ainda possíveis efeitos sobre o microbioma intestinal, conjunto de microrganismos presentes no intestino e relacionado a diferentes funções do organismo.
Em um desses estudos, participantes consumiram suco de laranja-sanguínea durante um mês. Após esse período, houve aumento da presença de bactérias intestinais produtoras de ácidos graxos de cadeia curta, compostos relacionados à regulação da pressão arterial e da inflamação. Os voluntários também apresentaram maior controle da glicemia e redução de marcadores inflamatórios.
Pessoas com síndrome metabólica, conjunto de fatores de risco que inclui pressão alta, glicemia elevada e excesso de gordura corporal, também foram avaliadas. Em um estudo com 68 participantes obesos, o consumo diário de suco de laranja melhorou a função endotelial, termo que descreve a capacidade do revestimento dos vasos sanguíneos de permitir seu relaxamento e dilatação.
Os resultados, porém, não são iguais em todas as pesquisas. Uma análise das concentrações de gordura no sangue constatou que os níveis de lipoproteína de baixa densidade, ou LDL, frequentemente chamada de "colesterol ruim", costumam diminuir, enquanto indicadores como triglicerídeos e HDL podem apresentar poucas alterações.
Dados coletados no Brasil também analisaram essa relação. Um estudo com 129 trabalhadores de uma fábrica de suco de laranja registrou concentrações sanguíneas menores de apolipoproteína B, ou apo-B, marcador relacionado à quantidade de partículas transportadoras de colesterol associadas ao risco de ataque cardíaco.
Em conjunto, os estudos indicam que os efeitos do suco de laranja sobre o organismo envolvem mecanismos relacionados à inflamação, ao fluxo sanguíneo, à glicemia e a marcadores de saúde cardiovascular. A fruta inteira mantém a vantagem da presença de fibras, enquanto as pesquisas citadas avaliaram os efeitos do consumo regular de suco puro em diferentes grupos de participantes.