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Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 9 de setembro de 2026 às 10h55.
Última atualização em 9 de setembro de 2026 às 16h32.
Em tempos de discussão sobre se a inteligência artificial (IA) pode evoluir para uma superinteligência capaz de escapar do controle humano, um pesquisador da Anthropic afirmou publicamente, na madrugada desta quarta-feira, 9, que a tecnologia tem mais de 10% de chance de extinguir a humanidade — declaração que reacendeu o debate global sobre até onde a IA pode realmente chegar.
Para Fabro Steibel, especialista em tecnologia e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio), o cenário é possível, mas está longe de ser o mais provável.
"Essa teoria de que a IA vai virar uma superinteligência e dominar o mundo não é inventada e é baseada na evolução do poder computacional, da resolução de problemas e de outras coisas. O que não me parece realista é que esse cenário seja o mais provável", diz em entrevista à EXAME.
Por que pesquisadores do Claude afirmam que há 10% de chance de a IA acabar com a humanidadePara explicar por que desconfia da urgência em torno do tema, Steibel recorre à história de outras tecnologias transformadoras — como o tear.
"Quando pensamos nisso, a revolução industrial mudou a configuração de cidades, mudou tudo. E não é que o mundo acabou, mas ele se reconfigurou", afirma.
A comparação serve de base para seu argumento central: a IA deve seguir um caminho parecido, de reconfiguração gradual, não de ruptura repentina. "A IA deve reconfigurar a forma como a gente faz muitas coisas. Mas isso deve levar anos, se não décadas. Mudar instituições e organizações leva mais tempo", diz.
A lentidão institucional, segundo Steibel, já aparece na política e na economia. No caso das eleições, ele reconhece que a IA tem efeito real — só que restrito a uma fatia pequena do eleitorado.
"Uma coisa é você falar que a IA está mexendo com eleições. Sim, se você tiver eleições muito disputadas, como no Brasil e no mundo todo hoje, aqueles 2%, 3% que podem ser influenciados pelo uso de IA podem fazer diferença. Mas tem 97% que não mudam por causa da IA", diz.
No mundo corporativo, ele identifica o mesmo padrão de concentração em uma minoria de empresas, já que "a maioria das empresas locais é do setor de aço, petróleo, energia".
Para ele, essa é a prova de que "as instituições vão mudar muito devagar" — e é exatamente por isso que considera o cenário de dominação improvável no curto prazo.
Essa mesma lentidão institucional, na visão de Steibel, contrasta com a urgência do discurso sobre superinteligência — o que o leva a questionar de onde, exatamente, vem esse alarme.
"Essa visão de que vai acabar é muito Vale do Silício. Se você olhar quem fala sobre ela, em geral são pessoas de uma idade parecida e de um histórico parecido. São pessoas que estão olhando a IA muito de perto porque estão produzindo essa tecnologia", diz.
Segundo ele, pesquisas já apontam essa visão como característica de um recorte cultural específico: o americano, ligado ao Vale do Silício, a CEOs e startups.
O recorte cultural, segundo Steibel, ignora justamente a realidade de países como o Brasil. "Para os 10%, 13% da população brasileira que não têm acesso à internet, para os 5% que não têm acesso à energia, esse mundo da IA não é a realidade que vai acontecer", afirma.
Em vez de dominação ou extinção, Steibel aposta em outro tipo de transformação: uma reorganização econômica, ligada à capacidade de produção. "O mais possível que a gente tem é que a gente está ganhando uma grande capacidade de produção através da inteligência artificial. Como vivemos em um mundo que depende muito de produção, isso vai gerar uma reconfiguração de negócios, de produção de riqueza e do trabalho", diz.
Ele reconhece que essa reconfiguração não tem um sentido único. "Ela é positiva, negativa ou neutra. Vai criar algo, mudar algo e exterminar algo. Principalmente para um quadro Brasil, eu acho essa ideia de superinteligência muito limitada."
Pesquisador da Anthropic pede demissão e diz que corrida da IA pode sair do controleAlém do argumento histórico e cultural, Steibel também questiona a base científica por trás da hipótese de uma superinteligência iminente. Segundo ele, o próprio ritmo de avanço da tecnologia já desmentiu uma das premissas mais repetidas do setor.
"Há dois ou três anos, a gente viu um avanço muito rápido da IA na resolução de problemas. Mas também vimos uma diminuição dessa velocidade depois", afirma.
Para o especialista, isso mostra que a ideia de que mais dados significariam automaticamente mais capacidade se mostrou equivocada. "Não é uma questão de dados. Falta ainda aquele pulo que vai fazer a máquina ter uma maior capacidade de decidir por si mesma", diz.
Para encerrar seu raciocínio, Steibel propõe uma forma diferente de olhar para a IA no cotidiano: não como uma força única e ameaçadora, mas como uma ferramenta que pode servir a propósitos opostos, dependendo de quem a usa.
"Nós estamos vendo um momento em que a máquina passa a participar da democracia. Se eu sou cidadão e uso um agente de IA para usar o gov.br, aquele agente está a meu favor", diz.
O mesmo vale para empresas, segundo ele. "Se eu sou uma empresa e uso IA para trabalhar com dados abertos ou fazer a declaração de imposto de renda, aquela IA está a serviço de uma pessoa jurídica reconhecida no país", afirma.
É por isso que ele evita tratar a tecnologia como uma ameaça uniforme. Para Steibel, exite o mau agente "que está criando QR Code para golpe do Pix", mas existe também o bom agente "que está tornando o Estado mais acessível e as empresas mais produtivas".
Essa distinção resume o contraponto de Steibel ao alerta desta semana sobre risco de extinção. "Essa visão mais extremista de superinteligência, hoje, está mais para ficção do que para realidade. Pode ser uma realidade? Pode. Mas eu não aposto que essa deva ser a principal realidade que a gente deve ter. Tem que esperar para ver."