ESG

Parceiro institucional:

logo_pacto-global_100x50

Aquecimento global empurra vegetação para o colapso, diz pesquisa

Estudo inédito da UFMG revela que plantas não conseguem se adaptar ao ritmo das mudanças climáticas — ecossistema abastece 50 milhões de brasileiros

O que acontece quando um ecossistema especializado demais encontra um clima que muda rápido demais? (Bússola / Divulgação)

O que acontece quando um ecossistema especializado demais encontra um clima que muda rápido demais? (Bússola / Divulgação)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 1 de maio de 2026 às 10h02.

As montanhas brasileiras estão esquentando. As plantas que vivem nelas, no entanto, não estão conseguindo se adaptar na mesma velocidade.

É o que revela um estudo inédito publicado na revista científica Ecography, produzido por pesquisadores do Centro de Conhecimento em Biodiversidade (INCT/CNPq/MCTI), da University of London e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A pesquisa analisou a vegetação de campo rupestre na Cordilheira do Espinhaço, em Minas Gerais, ao longo de quatro décadas de aquecimento contínuo. O diagnóstico é preocupante: as espécies exibem sinais claros de estresse e enfrentam o que os cientistas chamam de "inércia funcional" — uma incapacidade de mudar rápido o suficiente para sobreviver às transformações impostas pelo clima atual. O alerta vai além da biodiversidade: o ecossistema estudado abastece de água, energia e alimento mais de 50 milhões de brasileiros.

O problema está nas folhas

Para entender o que está acontecendo com esse ecossistema, os pesquisadores focaram nas folhas. Não por acaso: são elas que funcionam como as usinas fotovoltaicas da vida no planeta, captando luz, regulando água e trocando gases com a atmosfera. E são elas que revelam, com precisão, o estado de saúde de uma planta.

O estudo cruzou dados de 247 parcelas de campo com imagens dos satélites Landsat capturadas entre 1984 e 2022. Com modelos estatísticos, foi possível projetar retroativamente como os atributos das folhas evoluíram nos últimos 40 anos. O resultado contrariou as expectativas.

Diante de um cenário de maior aridez, o esperado era que as plantas desenvolvessem folhas menores e mais densas — uma estratégia clássica de economia de recursos em ambientes secos.

O que os pesquisadores encontraram foi o oposto: em média, as folhas ficaram maiores e menos densas ao longo do tempo. Um relaxamento funcional gradual, mas contínuo — e preocupante.

Essa resposta lenta pode refletir tanto ajustes graduais nas características das plantas já presentes quanto uma substituição lenta de espécies ao longo do tempo. Outro fator entra na conta: o aumento da frequência de incêndios na região, que pode estar favorecendo plantas com tecidos menos densos e folhas maiores — justamente o perfil menos preparado para enfrentar o estresse hídrico.

O solo que decide quem vive e quem morre

Para entender a vulnerabilidade desse ecossistema, é preciso entender onde ele vive. O campo rupestre da Cordilheira do Espinhaço cresce em condições que os próprios cientistas descrevem como de "eterna miséria hídrica e nutricional". Os solos são rasos, ácidos e ricos em metais pesados. As plantas operam com margens fisiológicas extremamente estreitas, resultado de uma especialização construída ao longo de milênios.

É exatamente essa especialização que torna o ecossistema tão frágil diante das mudanças aceleradas. "O solo funciona como um filtro que define quais formas de vida podem existir no ambiente, enquanto o clima influencia o modo como essas espécies se desenvolvem, sem, porém, alterar completamente os limites impostos pelo próprio solo", explica Renata Maia, uma das pesquisadoras responsáveis pelo estudo.

Em outras palavras: o clima pode pressionar, mas é o solo — com seu ferro e seu quartzo — que dita as regras finais de sobrevivência. E essas regras não foram feitas para o mundo que está chegando.

O que está em jogo

A pergunta que o estudo deixa no ar é grave: o que acontece quando um ecossistema especializado demais encontra um clima que muda rápido demais?

Os cientistas ressaltam que a resposta passa por uma visão de conservação que vá além das espécies isoladas. Proteger a variedade de solos e as condições microclimáticas é, segundo eles, a única forma de permitir que o ecossistema absorva os novos estresses globais. Manter essa heterogeneidade é o que garante a resiliência do sistema — e os segredos que ele ainda guarda.

"Compreender esses mecanismos é essencial para orientar políticas públicas e estratégias de manejo mais eficazes, diante da intensificação das mudanças climáticas", afirma o professor Geraldo Fernandes, coordenador do Centro de Conhecimento em Biodiversidade.

Acompanhe tudo sobre:Código florestalReflorestamentoMudanças climáticasMinas Gerais

Mais de ESG

100 dias para a COP31: o que o setor empresarial brasileiro quer entregar na Turquia

Copernicus lança ferramenta que acompanha emissões de incêndios em tempo real

Aplicativo da Motorola vai preservar idioma indígena que pode desaparecer

OMM confirma El Niño forte a partir de agosto: o risco de desastres climáticos vai aumentar?