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Debate na Semana do Clima de Nova York expôs a distância entre as soluções apresentadas pela indústria de IA e a escala de sua expansão (Lia Rizzo/Exame)
Editora ESG
Publicado em 22 de setembro de 2026 às 18h48.
Última atualização em 25 de setembro de 2026 às 15h07.
Nova York — Depois de um domingo frio e chuvoso, a cidade de Nova York amanheceu ensolarada na segunda, 21, para mais uma edição de sua Semana do Clima.
Realizado em paralelo à Assembleia Geral da ONU, o evento é um dos mais importantes fóruns sobre o tema no mundo. E a virada brusca de temperatura, aliás, serve de amostra de por que esses debates se tornam cada vez mais necessários.
Numa das programações mais concorridas do primeiro dia, na Axios House, a correspondente de energia do portal Axios, Amy Harder, entrevistou Josh Parker, head de sustentabilidade da Nvidia. E aqui é preciso começar pelo fim.
Perto do encerramento da conversa, Harder cutucou o ponto mais sensível do último relatório de sustentabilidade da Nvidia. Perguntou por que a companhia não contabiliza as emissões que seus clientes geram para rodar seus chips. Parker respondeu que a empresa não tem boa visibilidade sobre esse consumo e que os melhores dados estariam com os próprios grandes clientes, os chamados hyperscalers, que mantêm relatórios detalhados.
Contudo, enquanto o simpático executivo empurrava a conta para os clientes, vinha a público um relatório cujas informações vão na direção oposta, colocando as emissões ligadas ao uso dos chips da Nvidia no mesmo patamar das de uma produtora estatal russa de carvão. O documento ainda acusa a empresa de greenwashing ao vender à Europa uma IA "verde" quando, na prática, banca a expansão de data centers movidos a gás e carvão.
O descompasso entre os dois discursos dá uma boa pista do que deve dominar muitos dos debates da semana nova-iorquina. A indústria de inteligência artificial costuma responder à pressão social com engenharia de narrativa mais rápida e eficaz do que consegue prestar contas reais sobre a energia, a água e as emissões que seu próprio avanço multiplica.
No painel, o executivo recorreu ao seu argumento mais elegante, o da flexibilidade da rede. Conforme sua lógica, a rede elétrica precisa dar conta do seu instante de maior demanda, quando o consumo de todos se acumula ao mesmo tempo. Bastaria os data centers, então, reduzirem o consumo nessas horas, algo como 1% do ano, para a rede dispensar usinas erguidas só para o pico.
Segundo um estudo da Universidade Duke citado por Parker, só isso já liberaria até 100 gigawatts de capacidade existente e ociosa, número que embasa a aliança que a Nvidia lançou na semana passada com o Google e a startup Emerald AI.
Há lógica no raciocínio, e em alguma dimensão ele funciona de verdade, dentro de um limite estreito. Porém o relatório divulgado na manhã de segunda põe em dúvida esse alcance. Com base em uma pesquisa de Princeton, o documento estima que essa flexibilidade cobre menos de 1% do ano justamente nos cenários de alto crescimento e pouco muda diante de uma demanda que sobe o ano inteiro, a cada novo data center ligado. A promessa mira o momento de estresse da rede. Mas a conta que preocupa é a dos outros 364 dias.
A água segue o mesmo roteiro. A nova geração de resfriamento em circuito fechado de fato reduz o consumo, e Parker chegou a considerar o problema praticamente resolvido. O sistema faz o líquido circular sem evaporar e o entrega aos chips a 45°C, mais quente que uma banheira de hidromassagem, o que poupa água e energia ao mesmo tempo. Mas praticamente resolvido é uma expressão grande. Restam dúvidas sobre custo, prazo e sobre a velocidade com que a tecnologia chega aos data centers já existentes. E cortar a captação de água pouco importa para quem questiona não a gota, mas o tamanho da própria expansão.
Há um contraponto que a Nvidia gosta de trazer, e que precisa entrar na conta. A eficiência dos chips melhorou cerca de 100 mil vezes por inferência na última década, e a empresa credita aos hyperscalers algo como 75% dos contratos corporativos de energia limpa nos Estados Unidos. O problema é que a eficiência virou álibi. Ela avança rápido, mas o crescimento avança mais rápido ainda, e o próprio Parker admite que o ritmo de implantação da IA supera o dos ganhos de eficiência. Não adianta espremer cada watt se a decisão é construir muito, muito mais.
Do lado de fora, a semana parece menos otimista. Nesta terça, 22, a Assembleia Geral da ONU se reúne sob o peso de três guerras simultâneas, em Gaza, na Ucrânia e no Irã, com as metas de desenvolvimento sustentável longe do alvo. António Guterres fez seu discurso de despedida num tom que beirou o desalento, comparando as divisões do mundo a fendas que viraram abismos. E há avisos, vindos de dentro da própria indústria de tecnologia, de que agentes de IA fora de controle poderiam um dia ameaçar a humanidade. É nesse pano de fundo que o setor pede aceleração, e que um executivo de sustentabilidade encerra sua participação com bom humor.
No fim da conversa, Harder propôs um jogo de "você preferiria". Escolheria uma IA capaz de resolver a crise climática ou uma que levasse os humanos a outro planeta? Parker ficou com a segunda. Disse viver um momento único da história e apostou no futuro. É uma boa síntese do que se viu em Nova York. Uma indústria convicta de que vale a pena seguir em frente, respondendo às dúvidas do presente com promessas de amanhã.