Ciência

Baratas ciborgues podem virar ‘paramédicas’ em resgates após terremotos e desabamentos

Cientistas australianos equiparam insetos com câmeras, eletrodos e um sistema de injeção controlado à distância para levar medicamentos a vítimas presas em locais de difícil acesso

Rebecca Crepaldi
Rebecca Crepaldi

Repórter de finanças

Publicado em 30 de agosto de 2026 às 16h10.

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Uma barata correndo em meio aos escombros pode não ser a imagem mais reconfortante para alguém esperando por socorro. Mas cientistas australianos acreditam que esses insetos podem, no futuro, desempenhar justamente esse papel: levar medicamentos a pessoas presas em estruturas destruídas, onde equipes de resgate teriam dificuldade para chegar rapidamente.

Pesquisadores da Universidade de Queensland e da Universidade de Nova Gales do Sul desenvolveram baratas ciborgues equipadas com câmeras e pequenos dispositivos capazes de administrar medicamentos. O grupo apelidou os insetos de “paraborgs”.

A proposta é usar as características naturais das baratas — capacidade de se movimentar por espaços estreitos, resistência e baixo consumo de energia — combinadas a equipamentos eletrônicos que permitam localizar vítimas e aplicar medicamentos sob comando humano.

“Muitas pessoas podem não gostar da visão de uma barata gigante correndo em sua direção, mas se você estiver preso em escombros ou em uma caverna e precisar de ajuda, isso pode fazer toda a diferença entre a vida e a morte”, disse o candidato a doutorado Hai Nhan Le, coautor do estudo publicado na revista Advanced Science.

Por que usar baratas?

Os pesquisadores trabalharam com baratas-gigantes-escavadoras do norte de Queensland, consideradas a espécie de barata mais pesada do mundo. Os animais podem chegar a 8,5 centímetros de comprimento.

Em vez de construir pequenos robôs capazes de reproduzir os movimentos dos insetos, os cientistas decidiram aproveitar as características que as próprias baratas já possuem.

Segundo os pesquisadores, os insetos conseguem superar robôs em agilidade, resistência e eficiência energética. Para transformá-los em dispositivos controláveis, os animais receberam uma pequena “mochila” contendo cilindros de seringa e equipamentos de monitoramento.

Eletrodos implantados no sistema nervoso permitem que os pesquisadores enviem pequenos sinais elétricos para estimular os insetos e direcionar seus movimentos.

“Começamos anestesiando o inseto, imobilizando-o para garantir que ele não sinta nada durante o processo de implantação”, disse o engenheiro de biorrobótica e coautor do estudo, Thang Vo-Doan.

“Uma vez que implantamos um eletrodo no inseto, podemos aplicar um pequeno sinal elétrico para ativar ou estimular o sistema nervoso, para que ele possa responder ao nosso comando.”

Uma barata encontra a vítima; outra leva o medicamento

O experimento foi dividido em funções. Uma das baratas recebeu uma câmera e atuou como uma espécie de “observadora”, permitindo que os operadores identificassem os alvos. Outra carregava o medicamento e o mecanismo responsável pela aplicação.

A ideia é que, em uma situação real, os insetos possam ser enviados para dentro de estruturas colapsadas. Com as imagens transmitidas pela câmera, os operadores poderiam localizar uma pessoa e, então, comandar a barata responsável pela administração do medicamento.

O estudo aponta que a tecnologia poderia ser utilizada para oferecer uma primeira intervenção médica enquanto as equipes de emergência ainda não conseguem alcançar a vítima. Entre as possíveis aplicações estão situações provocadas por picadas de cobra e reações alérgicas graves.

O que significam as diferentes taxas de sucesso

Os pesquisadores registraram 100% de sucesso em uma etapa específica: o alcance dos pontos de verificação previamente determinados durante os testes.

Isso não significa, porém, que os insetos tenham conseguido administrar medicamentos em 100% das tentativas. Na etapa de aplicação do medicamento, a taxa geral de sucesso foi de 72%.

O desempenho melhorou quando o mecanismo de injeção era acionado próximo ao alvo. Quando a aplicação ocorria a uma distância de até 15 centímetros do ponto pretendido, a taxa de sucesso chegava a 95%.

Em outras palavras: os insetos conseguiram chegar aos locais definidos em todos os testes, mas a administração do medicamento foi menos precisa. Quanto mais próximo o dispositivo estava do alvo no momento da aplicação, maior era a probabilidade de sucesso.

Etapas

Apesar dos resultados, os experimentos foram realizados em condições controladas de laboratório, utilizando alvos de silicone e pele de porco. Antes de uma eventual utilização em operações de emergência, os pesquisadores ainda precisarão testar como o sistema se comporta em ambientes muito mais imprevisíveis.

Entre os desafios estão a movimentação em terrenos complexos, a possível perda de sinal dentro de estruturas desabadas e a segurança da aplicação dos medicamentos.

“Precisamos que, no futuro, talvez um enxame de baratas penetre profundamente em estruturas desabadas... precisamos de uma rede com muitas delas, para que possamos encontrar a vítima o mais rápido possível”, disse Vo-Doan.

O estudo também destaca que as regras éticas para pesquisas envolvendo insetos ainda não são padronizadas. Segundo os pesquisadores, as baratas utilizadas no experimento foram mantidas em um “ambiente de vida adequado” e alimentadas com folhas secas de eucalipto e maçãs.

A pesquisa representa uma evolução em relação a trabalhos anteriores com insetos ciborgues, que se concentravam principalmente em fazer com que eles encontrassem pessoas. Neste caso, a aposta é ir além da localização e transformar os próprios insetos em veículos para uma intervenção médica.

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